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Tarifaço na Argentina vai elevar valor da conta de luz em mais de 300%

- Atualizado: 28 Janeiro 2016 | 08h 49

Governo oficializou corte de subsídios no fornecimento de energia elétrica mantidos pelo kirchnerismo nos últimos anos, apesar da alta da inflação

Vendas na ferragem de Bonsignori devem cair

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BUENOS AIRES - A conta de luz dos argentinos terá aumentos de mais de 300% a partir de fevereiro, com o corte de subsídios oficializado ontem pelo governo de Mauricio Macri. Eleitores do presidente, que assumiu em 10 de dezembro, apoiaram a medida, alegando que o pagamento bimestral era irrisório durante o kirchnerismo. Seus opositores denunciaram uma alta muito superior à inflação e o achatamento de salários.

No primeiro grupo, está a chef Alejandra Iskanders, que aprova o que chamou de “fim de uma distorção”. Abraçada à caixa de um ventilador de teto comprado minutos antes para enfrentar as máximas de 36ºC dos últimos dias em Buenos Aires. Ela mostrou indignação ao revelar que paga 110 pesos (R$ 32) a cada dois meses em sua conta num apartamento de dois quartos. “Por favor, se eu pagar 500 pesos (R$ 148) ainda será normal. O que não dá para aceitar é gente que gasta 1,2 mil pesos (R$ 356) num jantar reclamar desse reajuste.” 

A inflação dos últimos anos associada à manutenção de subsídios pelo kirchnerismo fez com que a energia, principalmente a distribuída na capital e na região metropolitana, passasse a custar, em casos como o de Alejandra, moradora de um bairro de classe média, o valor de uma entrada para o cinema (R$ 32). Se a compradora do ventilador de teto estava satisfeita com a “notícia do dia”, o mesmo não ocorria com a vendedora do aparelho. Ángeles Ramírez, que votou contra Macri na última eleição e vive em Pompeya, um bairro de classe média baixa, paga um valor similar pela energia elétrica, 130 pesos (R$ 38). Vive com o marido e duas filhas, de 5 e 7 anos, e acredita que o novo valor pesará no orçamento familiar. “Sabíamos que com Macri viria um tarifaço. Não digo que Cristina (Kirchner) fizesse tudo corretamente, mas estava ao lado do povo”, reclamou a mulher, que liga o ar condicionado da casa de três peças só à noite para economizar.

O governo garantiu que 20% da população, de menor renda, terá os subsídios mantidos e haverá descontos para quem reduza o consumo. Em dezembro, foi decretada emergência energética, que prevê cortes preventivos. Na semana passada, o consumo recorde deixou 800 mil clientes sem energia em Buenos Aires. O governo diz que o problema do sistema está no transporte e na distribuição - setores que ainda devem sofrer reajustes para bancar novos investimentos. 

Em meio à polarização que o anúncio de ontem causou, compatível com a eleição recente, são mais raros os moderados como Osvaldo Bonsignori, que trabalha há 35 de seus 78 anos em uma ferragem do bairro da Recoleta, um dos mais caros da cidade. “Acho que eles poderiam reajustar, mas 30% agora, 30% daqui a alguns meses. Os salários não triplicarão”, ponderou, acrescentando que logo após anúncios como esse as vendas caem. “As pessoas passam a comprar só o essencial”, afirmou.

Os subsídios às tarifas públicas na Argentina absorvem cerca de 36% do gasto público, segundo o economista Lucio Castro, do Centro de Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento (CIPPEC). No ano passado, o país gastou 3,3% do PIB para baratear a energia - o déficit fiscal em 2015, segundo o novo governo, foi de 7,1% do PIB. Para Castro, o segredo dos casos bem-sucedidos de remoção de subsídios são gradualismo, melhoria no serviço e informação sobre os motivos.

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