AMANDA PEROBELLI|ESTADAO
AMANDA PEROBELLI|ESTADAO

Murilo Rodrigues Alves / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h30

O vice-presidente, Michel Temer, elegeu como prioridade de um eventual governo peemedebista recuperar a última bandeira conquistada pelo PT e perdida no ano passado: a geração de vagas com carteira assinada. A interlocutores, o vice tem dito que espera fechar 2016 com a geração líquida de postos de trabalho formais no azul. O vice estima que, se conseguir terminar o ano com geração de 100 mil vagas, será um grande feito que iniciará a recuperação do mercado de trabalho.

A marca é ambiciosa diante dos pífios resultados acumulados por meses, mas representa menos de 1% do total de desocupados no País, que já chegam a 11,1 milhões de pessoas, como divulgou o IBGE. Também está apenas 30% além do número de trabalhadores que vivem atualmente numa espécie de “purgatório”, ou porque tiveram de aderir ao plano do governo de redução da jornada e do salário (59,5 mil) ou tiveram o contrato suspenso por três meses (12 mil funcionários nos três primeiros meses do ano).

O esforço para chegar a 100 mil novas vagas será grande, tendo em vista que em 2015 foram fechados 1,54 milhão de postos com carteira assinada. Na hipótese de conseguir alcançar a marca, mesmo assim o resultado de 2016 será inferior ao de 2014 (quando foram gerados 420 mil vagas) e 2013 (1,138 milhão). Mas superior ao de 2012, quando foram criadas apenas 70 mil vagas.

A velocidade do ajuste no mercado de trabalho é impressionante. A maior parte dos analistas projeta que a taxa de desemprego – atualmente em 10,9% – deve aumentar até o fim do ano. A preocupação do PT tem cunho eleitoral. Quando o partido assumiu a Presidência, o desemprego estava na casa dos 12%. No fim de 2014, a taxa alcançou o menor patamar da história: 4,8%. A queda no desemprego virou uma das grandes vitrines de propaganda do governo petista.

Segundo os conselheiros de Temer, é possível criar 100 mil vagas neste ano graças a alguns fatores, como a volta da credibilidade com uma nova equipe econômica, chefiada pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A mudança na percepção dos investidores destravaria as concessões de rodovias, aeroportos, ferrovias e portos – cujos investimentos devem ultrapassar R$ 30 bilhões – e impulsionaria a criação de vagas no setor.

Juros. Também ajudaria na retomada do mercado de trabalho uma provável redução na taxa básica de juros (Selic), pelos diretores do Banco Central, no segundo semestre deste ano. A redução seria possível graças à queda da expectativa de aumento da inflação.

O professor José Pastore, da Universidade de São Paulo, avalia que as propostas estão na direção “correta, necessária e urgente”, mas pondera que o número estimado de criação de vagas em 2016 é bastante “ousado”. “Para isso, é necessário chegar, anunciar as medidas e colocá-las em prática rapidamente”, afirma.

A equipe de Temer conta com a aprovação, pelo Congresso, da medida provisória, enviada no fim do ano passado pelo atual governo, que busca acelerar os acordos de leniência entre empresas acusadas de corrupção e o poder público a fim de permitir que elas voltem a participar de contratações feitas pelo Estado.

A medida é uma demanda de empresários e sindicalistas, preocupados com o impacto da Operação Lava Jato sobre a economia e o emprego. A MP permite que a União, Estados e municípios realizem acordos de leniência de forma isolada ou em conjunto com o Ministério Público. O grupo do vice também aposta em um programa de renovação de frota de veículos, no mesmo modelo que a presidente Dilma cogitou lançar, mas foi engavetado por causa da dificuldade do Tesouro em oferecer subsídios diante da crise fiscal.

Veículos. A proposta de renovação foi entregue ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior pela Anfavea e outras 18 entidades do setor em dezembro. A ideia é que veículos com mais de 20 anos de uso possam ser trocados por uma carta de crédito para compra de um novo automóvel ou caminhão, por exemplo.

Como esses bens têm valor muito baixo, em geral, as concessionárias não os aceitam como crédito na compra de outro. Por isso, são necessários recursos para bancar o programa. Para a Fenabrave, que reúne as distribuidoras de veículos no Brasil, o fundo para garantir o crédito destinado à renovação da frota pode ser criado sem recursos públicos, usando, por exemplo, o Dpvat.

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, acredita que um provável governo Temer mudará as variáveis financeiras – como inflação, juros e dólar – mas o impacto na economia real, como no mercado de trabalho, só deve acontecer em 2018.

“O emprego é o primeiro que sofre em momento de crise e o último a sair”, afirmou. A projeção dele é que a taxa de desocupação feche 2016 próxima a 16%. “Temer tem que decidir se vai ter pulso para fazer o ajuste recessivo que o mercado espera dele. Os números do emprego ainda precisam piorar para levar a inflação de serviços para baixo”, afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h29

“Acho que a presidente tem de sair mesmo e o PT também, pra acabar com toda a corrupção que está por aí. Mas não tenho esperança de que as coisas vão ficar melhor. Antes de a economia melhorar, vai piorar primeiro. Olha o tanto que os juros subiram. Trabalhava como auxiliar de cozinha no hospital da UnB, mas era uma empresa terceirizada e me demitiram. Tenho experiência: já trabalhei em padaria e supermercado. Sempre que vou procurar emprego aqui no Plano, recusam pagar o vale-transporte. Não tem como trabalhar aqui sem esse dinheiro. A passagem de Planaltina de Goiás pra cá custa R$ 6 ida e volta. Tenho de pagar para trabalhar.”

Mais conteúdo sobre:
PT Goiás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h29

“Tenho medo de um novo governo tirar os direitos que a gente adquiriu nos últimos anos. A classe mais baixa sente mais na pele os efeitos dessa crise, que causa tanto desemprego. Estão falando que pode ser que ele (Michel Temer) corte alguns benefícios (Bolsa Família e outros) porque o governo não tem dinheiro. A situação está tão feia que não vai ter melhora por enquanto. Quem entrar agora vai ter de resolver uma bomba que já estouraram. Como moro sozinha, consigo aguentar um pouco as pontas e vou me virando com o que recebo do seguro-desemprego. Mas vou me mudar para Formosa, no Estado de Goiás, agora que fui demitida do emprego, onde trabalhava como babá.”

Mais conteúdo sobre:
Michel Temer Bolsa Família

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h29

“Vai piorar bastante. O vice (Michel Temer) também está envolvido em escândalos de corrupção, ninguém sabe se vai permanecer por muito tempo. Não acho certo empurrarem a presidente dessa forma. No horizonte, não há boas perspectivas: pelo contrário, a recessão econômica deve aumentar nos próximos meses. Estudo História na UnB e já estagiei na Advocacia-Geral da União. Estou atrás do meu primeiro emprego. Moro com minha mãe, o orçamento apertou com o aumento dos preços no supermercado, com a alta de R$ 1 na passagem de ônibus. Estou enviando currículo, mas não tenho nenhum sinal de que vão me contratar. As respostas são sempre negativas.”

Mais conteúdo sobre:
Michel Temer História

Encontrou algum erro? Entre em contato

Murilo Rodrigues Alves / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h29

Além dos 11,1 milhões de desocupados, outros 70 mil trabalhadores brasileiros vivem numa espécie de purgatório. Para evitar que fossem incorporados à massa dos desempregados, foram obrigados a aderir ao programa do governo que prevê a redução de salário e carga horária ou tiveram o contrato suspenso por alguns meses.

Criado em julho de 2015, o Programa de Proteção do Emprego (PPE) já teve a adesão de 146 empresas e envolveu 59.521 funcionários, segundo os dados mais recentes do Ministério do Trabalho e Previdência Social. O valor dos subsídios gastos com o programa chega a R$ 159,5 milhões. Ao mandar a lei para o Congresso, o governo tinha estimado em apenas R$ 97,6 milhões os gastos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) com o PPE em 2015 e 2016 – R$ 29,7 milhões no ano passado e R$ 67,9 milhões neste ano. Esses recursos, segundo os cálculos do governo, dariam para contemplar 50 mil trabalhadores.

O programa está previsto para acabar em 2017, mas as montadoras querem que o governo, independentemente de quem seja – se Dilma Rousseff ou Michel Temer –, mantenha o programa como medida “perene” para evitar demissões no setor.

Se o acordo é aprovado pelo ministério, o governo oferece um subsídio. Metade da redução salarial é bancada por meio do FAT, no limite de até R$ 900,84. É garantida estabilidade após o fim do programa por ao menos o equivalente a 1/3 do tempo pelo qual a empresa usufruiu do benefício. Se o PPE durou três meses, a estabilidade é de um mês.

Segundo o ministério, os setores automobilístico e metalúrgico concentram o maior número de empresas que solicitaram a adesão. Há também representantes da construção civil, alimentício, têxtil, financeiro, imobiliário, comércio e serviços. As empresas do Estado de São Paulo foram responsáveis pela maior parte dos acordos assinados com o governo federal.

Já no lay-off ingressaram 12 mil funcionários nos três primeiros meses deste ano, informou o ministério. Foram pagos R$ 15 milhões em benefícios. Em 2015, 32 mil funcionários aderiram ao lay-off, número recorde desde 1999 quando iniciou a série histórica, o que consumiu R$ 147 milhões em bolsas qualificação.

Nesse regime, o contrato de trabalho é suspenso por cinco meses, que podem ser prorrogados. O empregado recebe o seguro-desemprego por cinco meses. No PPE, o trabalhador continua empregado, o que garante a continuidade na arrecadação de contribuições trabalhistas e previdenciárias e impostos, que são pagos pelas empresas e trabalhadores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.