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Celso Ming

Tempo nublado

O cenário está turvo e as lentes, embaçadas; Qual será a política econômica nos próximos meses e com que tipo de chão contar para administrar um patrimônio?

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Celso Ming

17 Março 2016 | 21h00

Há uma insistente pergunta à procura de resposta: qual será a política econômica do governo nos próximos meses e com que tipo de chão contar para administrar um patrimônio?

Na edição de quarta-feira, esta Coluna apresentou algumas hipóteses que levaram em conta a sagração do ex-presidente Lula na condição de primeiro-ministro do governo Dilma.

O problema é que o cenário está turvo e as lentes, embaçadas. Não há quem consiga enxergar alguns metros à frente. A posse do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil pode ser anulada pela Justiça e a saída do impeachment parece agora mais quente, especialmente depois de instalada, com votação tão expressiva, a comissão da Câmara que cuidará do assunto. A simples perspectiva de uma longa guerra judicial é uma usina de imponderáveis.

A ausência do vice-presidente da República e presidente do PMDB, Michel Temer, à cerimônia de posse realizada nesta quinta-feira é prenúncio de que o rompimento do principal partido da base política com o governo ficou iminente. Apenas um fato novo, hoje imprevisível, parece capaz de evitar esse movimento, que deixaria o governo ainda mais enfraquecido. As ruas estão conflagradas e fortemente polarizadas.

Não há condições políticas mínimas para arrancar do Congresso medidas de saneamento das contas públicas, nem dar andamento às reformas.

Nesse quadro eivado de incertezas, não há como assumir riscos. As empresas, que vinham adiando investimentos, continuarão à espera de que haja mais clareza sobre o que vem aí. As pessoas físicas temem o desemprego e a perda de renda e também postergarão compras que eventualmente possam comprometer seu orçamento doméstico. São circunstâncias que tendem a derrubar o consumo e a aprofundar a recessão. É situação típica em que a crise econômica se mistura em relação simbiótica com a crise política. (O gráfico mostra como se comportaram o câmbio e a Bolsa neste mês politicamente turbulento.)

No entanto, nem tudo está confuso. Há pelo menos três fatores que apontam para uma solução rápida e duradoura se a confiança voltar. O mais importante deles é o de que as instituições funcionam. O Judiciário está inteiro e atuante. Garante o respeito da sociedade para que continue atuando como poder moderador.

No lado da economia, um encaminhamento para uma solução conta com forte recuperação das contas externas. Ficou altamente provável que o rombo nas contas correntes, que há apenas um ano alcançava 4,5% do PIB, seja inteiramente zerado nos próximos 12 meses. Não temos crise cambial, as reservas externas são um colchão de segurança de nada menos de US$ 370 bilhões, não há dívida externa a resgatar, não há nenhuma possibilidade de chamar a intervenção do Fundo Monetário Internacional.

E, terceiro fator positivo, ao contrário do que aconteceu nas grandes crises anteriores do Brasil, os bancos gozam de excelente saúde; não há risco de quebra de nenhuma instituição financeira importante. E isso conta.

CONFIRA:

Ortodoxia

Em evento da Super Rio ExpoFood, o ex-presidente do Banco Central do período Lula, Henrique Meirelles, mostrou nesta quinta-feira que seu entendimento do que teria de ser a política econômica o aproxima mais de Joaquim Levy do que do programa heterodoxo do PT.

Ajuste

Meirelles avisa que não se podem queimar reservas; que, sem ajuste das contas públicas, o PIB não crescerá mais do que 1% ao ano na próxima década; mas que, a partir de realizadas as reformas, o potencial de crescimento sobe a 4% ao ano.

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