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Tempos de risco

José Paulo Kupfer

No tempo em que os animais falavam, época remota na qual a economia era menos “financeirizada”, queda no valor de insumos de grande peso na produção de muitos bens era um sinal positivo de custos de produção mais baixos, de maiores margens para o produtor e de menores preços ao consumidor. Em resumo, naqueles tempos longínquos, tal evento costumava sustentar mais investimentos, mais empregos e mais crescimento.

Taxas de juros baixas, na mesma época distante, indicavam impulso ao crédito, pela via do menor custo dos financiamentos, com o consequente estímulo à expansão tanto do investimento quanto do consumo. Assim, juros mais baixos geralmente também contribuíam para a formação de um ambiente propício ao aumento do emprego e do crescimento.

Nos dias de hoje, porém, em que o volume de transações financeiras globais já supera em duas vezes a produção mundial, o funcionamento da economia tem se mostrado bem diferente. A derrubada dos preços das commodities, com destaque as cotações do petróleo, e a adoção de juros básicos próximos de zero ou negativos pelos bancos centrais de diversos países têm produzido não só temores de deflação e de uma nova onda recessiva global, mas também nervosos movimentos de venda de ativos e corrida para aplicações de segurança, caso do ouro.

A combinação do derretimento das cotações internacionais de commodities com a continuidade do refluxo da economia chinesa e de pressões pela desvalorização do yuan atinge os grandes bancos privados, muito expostos, ao mesmo tempo, à China e às corporações produtoras de matérias-primas. O medo, de um lado, é o da ocorrência de uma sucessão de calotes, comandada principalmente por petrolíferas, mineradoras e siderúrgicas, e, de outro, a contração da rentabilidade nas linhas de crédito, em razão dos juros muito baixos dos financiamentos.

Juros negativos, já praticados na Suíça e agora no Japão e na Suécia, têm potencial para alcançar outras economias desenvolvidas, inclusive a americana, se pessoas e empresas continuarem a rejeitar estímulos para consumir ou investir. A ideia de fazer aplicadores pagarem para deixar dinheiro no banco – que é, na prática, o que juros negativos impõem – era até há algum tempo uma curiosidade teórica do arcabouço das políticas monetárias. Introduzido em um sistema financeiro cuja arquitetura foi toda construída para operar com juros positivos, a novidade tem provocado mais temores diante de seus possíveis efeitos colaterais do que confiança na capacidade de ajudar a reanimar economias combalidas.

Ao reagir com políticas de juros negativos, das quais pouco se conhecem os desdobramentos práticos, as autoridades econômicas dos países centrais, tentam evitar uma onda deflacionária na economia global. Enquanto os efeitos sobre a economia real ainda não são animadores, embora a medida, que opera no sentido de desvalorizar a moeda local, tenha ajudado o Japão a exportar mais e obter um ligeiro crescimento em fins de 2015, os riscos para o sistema bancário parecem mais claros. 

Com as perspectivas de crescimento mais lento não só na China, Europa e Japão, mas agora também nos EUA, a disseminação da atração pelos juros negativos tem tumultuado os mercados de ativos, a começar pelas ações e, entre estas, com destaque para papéis de bancos. Não é por coincidência que, do início do ano para cá, as cotações das ações dos grandes bancos globais já recuaram, em média, cerca de um terço. 

São muitos – e ainda inconvincentes – os prognósticos que tentam determinar aonde essa nova fase de instabilidades financeiras vai chegar. O mesmo se verifica no caso das análises de seus efeitos na economia global e, especificamente, em cada país do mundo. O máximo que se pode concluir até agora é que, quase oito anos da deflagração da última grande crise econômica global, os tempos ainda são de risco.

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