EVELSON DE FREITAS/ESTADÃ?O
EVELSON DE FREITAS/ESTADÃ?O

'Tenho alívio pela oposição não ter vencido'

Para economista, há uma ‘certa justiça’ no fato de que quem provocou a crise tenha, agora, de lidar com ela

Entrevista com

Eduardo Giannetti, economista

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 03h00

O economista Eduardo Giannetti esteve no centro do debate econômico nas duas últimas eleições presidenciais. Foi um dos conselheiros da candidata Marina Silva, terceira colocada nas disputas de 2010 e 2014. Hoje, na agenda do País, Giannetti vê dois grandes desafios a serem enfrentados por qualquer governo: a questão fiscal e o presidencialismo de coalizão. No quadro político, Giannetti acredita que a presidente Dilma Rousseff termina o mandato de forma enfraquecida. “Parte do problema do governo Dilma é o desmascaramento entre os próprios eleitores das mentiras que vendeu durante a campanha”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Até quando a economia aguenta essa turbulência política?

Vivemos uma combinação perigosa de crise econômica e política em que uma alimenta a outra. A crise econômica enfraquece o governo e derruba a popularidade da presidente, o que a deixa muito frágil do ponto de vista político, sem autoridade. E, ao mesmo tempo, a falta de coordenação e autoridade do governo dificulta a aprovação das medidas econômicas de curto prazo que o País precisaria para, pelo menos, não ter um colapso.

O sr. vê esse risco?

Eu não vejo nenhum risco iminente de colapso. A situação externa do Brasil não é periclitante. Nós temos reservas cambiais de US$ 370 bilhões, que são um seguro contra a fuga de capitais. Estamos com um déficit em conta corrente num caminho de ajustamento. Não há risco de colapso iminente, mas o problema é que não se vislumbra nenhum horizonte de recuperação da economia.

Quais as consequências da falta de visão de longo prazo?

Isso é o que nos deixa muito apreensivos e aumenta muito a incerteza dos agentes econômicos. Essa é quinta recessão do País desde a estabilização monetária em 1994. As quatro anteriores tiveram uma característica comum: foram recessões curtas. Passados dois a três trimestres, a economia já estava voltando a crescer. Depois de cinco a seis trimestres, a economia já tinha superado o nível de atividade do início da recessão. Desta vez, não é assim. Nós estamos diante de uma recessão de outra natureza e com caráter aparentemente crônico. Ela começou no segundo trimestre de 2014, embora, na época, nós não soubéssemos, e está se aprofundando. E o mais grave é que não há no horizonte nada que indique uma recuperação.

No curto prazo, o que o governo poderia fazer para que essa melhora fosse vislumbrada no longo prazo?

O governo está mostrando repetidamente que não tem competência e força para fazer o que o Brasil precisa. Eu fiquei muito mal impressionado com o amadorismo e a improvisação do pacote fiscal. Curiosamente, faz lembrar o estilo das pedaladas fiscais e da contabilidade criativa. É uma tentativa de parecer que está se fazendo algo, o que, na realidade, não está se fazendo. Só que agora no sentido da contenção e não da expansão (de gastos). Mas é preciso olhar as árvores e a floresta. Toda a discussão está focada nas árvores e, às vezes, até na folha. Existem duas crises que o País vai ter de enfrentar independentemente de quem for governo. Nenhuma das duas crises pode-se dizer que nasceu com a Dilma, embora tenham se acelerado com ela.

Quais são as duas crises?

A primeira delas é o esgotamento da expansão fiscal que começou em 1988. A carga tributária bruta em 1988 era 24% do PIB. Hoje, estamos com 36% do PIB. Era um carga normal para um País de renda média, mas atualmente estamos completamente fora do padrão. Isso é apenas um primeiro elemento da crise fiscal brasileira. Nós também temos um déficit nominal de 8% do PIB. Você soma a carga tributária e o déficit nominal e chega a 44% do PIB. De todo valor criado pelo trabalho dos brasileiros a cada ano, 44% transitam pelo setor público. E o Estado brasileiro não atende às necessidades mais elementares de cidadania. Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. 

Esse padrão se esgotou, então?

Eles estão tentando resolver mais uma vez como sempre se resolveu desde 1988. Não dá para pagar as contas, vamos para o bolso do contribuinte. Existe um aspecto emergencial de ter um orçamento com superávit primário que segure minimamente a dívida em trajetória explosiva, mas tem um aspecto estrutural que o Brasil vai ter de enfrentar: qual é o tamanho e as funções do Estado que nós desejamos preservar. Vou discordar de alguns colegas, economistas, que dizem que o que ocorreu em 1988 e causou toda essa deterioração fiscal foi o novo contrato social. Na minha avaliação, o contrato social é um pedaço do estrago. O contrato social, entendendo aqui, como aposentadoria do setor rural, o SUS, o Bolsa Família. Ninguém questiona a legitimidade disso. Não é isso que explica a gravidade do quadro fiscal em que nos metemos.

O que explica, então?

O Bolsa Família é 0,5% do PIB. É o troco. O Bolsa BNDES é maior do que o Bolsa Família. O subsídio que o Estado transfere para empresários que obtêm crédito subsidiado supera o Bolsa Família. O BNDES não tem nada a ver com o contrato social. A criação de 1,3 mil novos municípios de 1988 para cá também não tem nada a ver. Multiplicaram-se muitas e muitas máquinas públicas e câmaras de vereadores que não agregaram resultados de bem-estar. A previdência do setor público, que é escandalosamente distorcida, não é contrato social. Tem muita coisa relevante nesse enredo que não pode ganhar o verniz de legitimidade de um novo contrato social.

E a segunda crise, qual é?

la também é de longo prazo. É a crise da representação política. O presidencialismo de coalizão foi praticado com certa habilidade por líderes, como foram Fernando Henrique e Lula, mas degringolou com alguém que não tem aptidão para a liderança. A Dilma cedeu 39 ministérios para dez partidos e não recebeu o apoio em troca do que ela cedeu. Estamos vendo um esgotamento de um modo de governar. Ou seja, o mandatário se sustenta com base no loteamento de fatias do poder e de verbas em troca de apoio.

No caso do contrato social, o governo tem de lidar com interesses. O sr. acha que empresas e população estão dispostas a abrir mão de benefícios?

Os países que enfrentam crises como a do Brasil acabam chegando a um acordo em nome de uma possibilidade para todos de melhorar em seguida. O Brasil tem um problema de hipersensibilidade a perdas no curto prazo. Não há processo de avanço e de melhoria nos quais em alguns momentos você não tenha de aceitar sacrifícios agora em nome de benefícios futuros. 

Essas crises podem se arrastar até 2018 ou elas têm poderes explosivos antes da próxima eleição?

Às vezes, eu me pergunto se essa é a pior crise do Brasil na Era Republicana. O Brasil viveu uma hiperinflação, o confisco da poupança e o impeachment num intervalo de dois anos na época do Collor. Nós não tivemos nesta crise nada dessa ordem até agora. Aí é que me veio um raciocínio: toda crise séria, enquanto ela se desenrola, é a pior crise, porque não se sabe até onde ela vai chegar. Isso causa muito desconforto e angústia nas pessoas. O que mais causa angústia é não vislumbrar um caminho de saída, porque, além da crise econômica e da política, tem uma outra crise, que é a da ausência de liderança. 

Mas com o governo enfraquecido, o sr. acha que as duas questões conseguem ser levadas até 2018?

É difícil fazer esse tipo de previsão porque o quadro está mudando muito rapidamente. Eu continuo achando que o cenário mais provável é a Dilma permanecer muito enfraquecida até o fim do mandato. Mas tem grandes imponderáveis nessa história: as ruas, a Lava Jato e a articulação política que está se montando de grupos que estão percebendo a oportunidade de ocupar o poder sem passar pelo voto.

Na última eleição, os candidatos de oposição falavam na necessidade de ajuste. Um governo de oposição enfrentaria um cenário diferente?

Seria uma situação complicadíssima. Eu confesso que, às vezes, tenho um arrepio de alívio pelo fato de a oposição não ter vencido aquela eleição. Iria ser muito difícil explicar para a população brasileira que o que está acontecendo não tinha começado com o novo governo. Foi mantida artificialmente uma situação ilusória, mas a realidade se impôs e coincidiria com o início de um novo governo. Acho que há uma certa justiça no fato de que quem provocou, agora, assuma a responsabilidade de lidar.

E houve uma deterioração muito rápida desde o início do ano.

Depois de toda a euforia do governo Lula, a guinada de expectativa não tem paralelo na história brasileira. Uma coisa é como foi nos anos 80: o País se arrastando por uma década numa crise e a coisa a piorar ainda mais. Outra coisa é uma situação de vitória, de considerar que o País encontrou o padrão e, de repente, perceber que aquilo desabou tão rapidamente. Girar a catraca para trás é muito complicado, inclusive para a população que estava começando a ter acesso a um padrão de vida.

A sensação de virar a catraca começou depois da eleição? 

A situação já estava péssima durante a campanha, mas o governo, com muita habilidade e com a ajuda de um gênio diabólico como o João Santana, conseguiu criar uma sobrevida daquele sentimento de pleno emprego, renda crescendo e conquistas intocáveis. Foi uma campanha extremamente enganosa. E parte do problema do governo Dilma é o desmascaramento entre os próprios eleitores das mentiras que vendeu durante a campanha. 

O sr. acredita que esses apoiadores vão dar sustentação para o governo?

Eu tenho impressão de que, para o PT, o ideal é a Dilma renunciar. Para o Lula, inclusive. Eles vão para a oposição, podem olhar de camarote a frustração do governo que assume e desincumbem-se da responsabilidade pelo caos que implantaram.

E como seria esse governo?

Seria um governo de transição até 2018, como foi o governo do Itamar e, quiçá, com alguma surpresa boa como houve durante aquele governo, de alguma iniciativa mais abrangente diante do problema fiscal e da reforma política.

Com o Temer na liderança?

Tem de fazer o que manda a Constituição. O que ela manda é que o vice assume no caso da renúncia de um presidente. É a lei.

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