Tomates, pepinos e juros

O aumento dos juros é o recurso que sobra quando o governo se abstém de tratar das coisas fundamentais ou as conduz de forma equivocada

Gustavo H.B. Franco,

20 Abril 2013 | 02h06

Há uma síndrome que costuma acometer as autoridades brasileiras quando se trata de inflação: a dificuldade em perceber que se trata de um esporte coletivo.

A inflação não é fruto de jogadas individuais que encantam ou irritam torcedores e dirigentes, de vilões ou heróis facilmente identificáveis, mas do trabalho de uma equipe muito grande manobrando atabalhoadamente um transatlântico.

A confusão parece se ampliar em tempos recentes por outra síndrome, esta de natureza pós-moderna, a do "protagonismo". Não há dois parágrafos seguidos de qualquer texto sobre a diplomacia brasileira sem ao menos uma incidência de "protagonismo". Assim como o Banco Central se encantou com "resiliência", que usava como uma espécie de autoelogio, e agora, desafortunadamente, parece se aplicar muito mais à inflação que ao PIB.

O fato é que "protagonismo", em oposição à delegação e representação, tem sido um dos mantras do novo ativismo social do qual o movimento "Occupy" é um dos maiores exemplos. É a democracia direta, a linguagem horizontal, a fala das ruas e das redes sociais. O ativista é o sujeito da ação emancipatória, a história resumida à sua própria conduta. É a "performance" que se esgota em si mesma, visando a mídia e não a ação legislativa consequente. Essa é inspiração dos nossos diplomatas, o protagonismo do Brasil. Já o do tomate, que já foi capa de revista, pode ser efêmero ou não, dependendo do que vier a seguir.

Claro que há um erro basilar nesse raciocínio que associa a inflação às hortaliças: sempre vai haver o feijão carioca, a batata inglesa e o chuchu crescendo muito mais que a média dos outros preços, enquanto outras coisas registrarão variações negativas. O próprio tomate esteve a 40 centavos o quilo não faz tanto tempo.

Uma vicissitude das médias é a de reunir em torno de si diversas observações formando um gráfico em forma de sino. A designação técnica para os extremos da distribuição de frequência é "cauda", o que serve também para descrever a origem dos tomates vendidos no Brasil acima de R$ 12: eles vêm de Urumqi, na China, a localidade que ostenta o recorde de maior distância de qualquer porto marítimo. É desse lugar que o país dotado de mais área agricultável do mundo importa seus tomates. Algo deve estar errado, não?

Mas não vamos nos perder no detalhe pitoresco. O essencial é que a inflação é um esporte de massa, um processo coletivo, que envolve o todo, que em matéria econômica, costuma ser amplamente maior que as partes. É exatamente nesse sentido que se diz que a inflação é uma doença caracterizada pelo aumento generalizado dos preços. A palavra-chave aqui é justamente o "generalizado", que expressa a natureza social do processo. Os fenômenos sociais, no dizer, de um dos protagonistas (oops) da sociologia, Emile Durkheim, são exteriores às consciências individuais e sua natureza tem a ver com o coletivo, cuja identidade é singular e diversa daquela de suas partes componentes.

Essa é a explicação "sociológica" para o fato de a inflação permanecer imune aos truques como o controle de alguns ou mesmo de todos os preços, e também às manipulações estatísticas: a tentativa de encobrir manifestações individuais, ou a evidência amostral, não interfere com o fenômeno social.

As causas da inflação são tão conhecidas que até os apóstolos não aguentam mais repetir. Quem quer ouvir sobre o "rombo" nas contas públicas? Isso sim é um pepino, o principal item da cesta básica de qualquer autoridade, lidar com gastos excessivos. Faz lembrar uma ótima frase de Ciro Gomes ao deixar o Ministério da Fazenda: "Convencer governadores a reduzir despesa é como explicar o significado do Natal ao peru."

A heterodoxia está prevalecendo, entre outras razões, em face do tédio à controvérsia, ou ao cansaço em rebater a pseudociência. A contabilidade criativa, o voluntarismo e o "corpo a corpo" reconquistaram o protagonismo (não resisto) de outrora, vejam quem são os interlocutores da presidente, os especialistas consultados. Por isso, talvez se diga que estamos revivendo o governo Geisel, inclusive com alguns personagens em comum.

Noutra época, as teses ortodoxas sobre a inflação eram acusadas de "fundamentalismo", uma designação pejorativa para o truísmo segundo a qual as febres derivam das infecções. A ideia pode parecer óbvia, e é, mas alguém precisa dizê-lo à presidente. Pergunte-se ao nosso campeão Bernardinho sobre a receita para o sucesso em esportes coletivos: domínio dos fundamentos (sic), perícia técnica e trabalho de equipe (grifos meus). Era com ele que a presidente deveria estar conversando, em vez de flertar com a medicina alternativa e com a experiência pregressa em lidar com hortaliças indisciplinadas.

É preciso esclarecer, todavia, que o aumento nos juros não é o exercício do "fundamentalismo". A política monetária é uma espécie de antitérmico, e não funciona como antibiótico. É o recurso que sobra quando o governo se abstém de tratar das coisas fundamentais ou as conduz de forma equivocada, como tem feito com a nossa política fiscal. A ideia que o problema do crescimento se resolve assinando cheques, ou pedaços de papel pintado, é tão tosca como dizer que o problema social é um problema de polícia.

Diante desse quadro, entretanto, não há alternativa: o Banco Central assumirá o ônus de reduzir a febre causada pela gastança e atrairá para si a zanga do "setor produtivo", quando os verdadeiros culpados estão bem escondidos no emaranhado opaco em que se tornaram as nossas contas públicas.

* Gustavo H.B. Franco é expresidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos.

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