Tornado - o fim do nosso paraíso

Luiz Gonzaga Bertelli, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2015 | 02h02

Durante muito tempo, a palavra tornado soou aos ouvidos dos brasileiros apenas como o nome do corcel negro cavalgado pelo Zorro, o antigo herói mascarado que infernizava a vida do Sargento Garcia na Califórnia. A associação aos ventos descontrolados tinha a ver com sua fogosidade. Quem já passou dos 60 anos, sabe do que se trata.

Agora o termo se popularizou no seu real significado, trazendo ao País um fenômeno que não fazia parte das suas preocupações: as catástrofes naturais. A gota d'água se deu em Santa Catarina. Há cerca de dois meses, ventos de 250 km/h produziram 2 mortos e 97 pessoas feridas; 295 casas foram destruídas e 360, avariadas; 4.275 ficaram desalojados em Xanxerê (47. 670 habitantes). Cerca de 800 mil pessoas foram afetadas na região.

O local se situa no "Corredor de Tornados da América do Sul", nome dado pelos especialistas à faixa que vai do norte gaúcho ao Triângulo Mineiro - onde vivem aproximadamente 75 milhões de moradores, quase metade do País. Portanto, transformou-se em assunto nacional, que pede política à altura. Não foi algo eventual. O Centro Universitário de Estudos e Pesquisas Sobre Desastres, da UFSC, informa que, entre 1970 e 2009, foram registrados 71 tornados no Estado. Chama a atenção a passividade com que o País reage a tais acidentes, apesar das comoções provocadas. Ela se reflete na pouca importância dada à prevenção das tragédias anunciadas, como que confirmando a tese de Nelson Rodrigues: brasileiros, como narcisos às avessas, desprezam a si próprios. São traços culturais que atuam nas clássicas procrastinações do poder público. Acreditem: após o Juízo Final, ainda estaremos discutindo deslizamentos de encostas, secas, inundações diluvianas e, pelo andar da carruagem, de tornados.

A presença crescente deles está documentada em estudo feito por Leonardo Freire de Mello, Valéria Zanetti e Maria Aparecida Papali, respectivamente da Universidade Federal do ABC e da Universidade do Vale do Paraíba. Entre 1900 e 2001, tivemos 150 desastres, inclusive impensáveis terremotos. Não se iludam com a quantidade aparentemente suportável. Ocorre que 84% dos registros se deram a partir de 1970, denotando que o sistema de notificações era falho ou que estamos enfrentando uma escalada preocupante. As duas circunstâncias ressaltam nossa fragilidade. Porém, o trabalho expõe outro problema, resumido no título: Éden desmoronado: desastres naturais no Brasil contemporâneo. É o célebre e enganoso mito do Paraíso com o qual o Brasil convive desde sua origem, impulsionado inicialmente pela carta de Pero Vaz de Caminha: "(...) Em tal maneira a terra é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". Nascia o Éden Tropical. Nada contra, se fosse só literatura. Mas não é assim, conforme alertam os autores: "O mito edênico anestesiou a percepção dos dramas. É este discurso que estabelece efeitos de verdade". Eles citam o saldo de 8.183 vítimas fatais e US$ 10 bilhões em prejuízos.

As cartas dos primeiros jesuítas aos superiores relatando as impressões sobre a nova terra reforçam o equívoco. José de Anchieta escreveu ao padre Diego Caines, em Roma: "Das árvores, parece digna de menção uma que dá um suco suavíssimo, muitíssimo próprio para curar feridas de maneira que, em pouco tempo, nem sinal fica da cicatriz".

Enquanto a ideia da proteção divina persiste em dourar a realidade, o IBGE revela que só 6,2% dos 5.565 municípios brasileiros têm programas contra desastres. Estudos do coronel Paulo Chaves, da Polícia Militar paulista, apontam que 86% deles não possuem corpo de bombeiros.

Há três anos, a presidente Dilma Rousseff lançou o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Respostas a Desastres Naturais, estabelecendo que cada prefeitura crie seu próprio núcleo. A julgar pelos procedimentos nas tragédias recentes, restritos às providências pós-desastres, o programa ainda não se firmou.

Enfim... Que Deus nos acuda!

* Luiz Gonzaga Bertelli é presidente do Conselho de Administração do CIEE-SP, presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional e conselheiro e diretor da Fiesp-Ciesp

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