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Shannon Stapleton|Reuters

Trocando a sorte pelo risco

Quando chamam a Austrália de “The Lucky Country” (“o país de sorte”), as pessoas raramente se dão conta de que Donald Horne, o escritor que cunhou a expressão em livro homônimo, publicado em 1964, estava fazendo uma crítica. “A Austrália é um país de sorte, governado por indivíduos medíocres e igualmente sortudos”, escreveu ele. “É um país que vive à custa das ideias alheias.” Horne pretendia que a expressão funcionasse como uma advertência aos australianos e levasse seus líderes a ter um pouco de curiosidade.

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The Economist

21 Janeiro 2016 | 05h00

A sorte da Austrália havia muito se valia de suas riquezas minerais e terras aráveis. Agora, com os preços das commodities que o país exporta no fundo do poço, os australianos começam a se dar conta de que precisam parar de viver às custas das ideias alheias. É hora de investir na criação de empreendimentos inovadores, baseados em ideias próprias.

A taxa de sobrevivência das 2,6 milhões de empresas existentes na Austrália é similar à das companhias americanas e canadenses e superior à das neozelandesas. Mas um estudo publicado no mês passado pela Productivity Commission, do governo australiano, mostra que no país são poucos os jovens que abrem um negócio próprio; que apenas cerca de 0,5% das novas empresas são startups no sentido mais comum do termo (empreendimentos inovadores e com grande potencial de crescimento); e que entre 1% e 2% somente das empresas em atividade podem ser descritas como inovadoras. Esses números colocam a Austrália em pé de igualdade com o Canadá, por exemplo, mas deixam o país atrás de Estados Unidos e Grã-Bretanha. Segundo o estudo, um dos fatores que explicam o descompasso é a falta de “maior proximidade entre os empreendedores australianos, para que possam estabelecer contatos uns com os outros e desenvolver projetos em conjunto”.

Felizmente, agora a Austrália pode se mirar no exemplo de uma startup de tecnologia mundialmente bem-sucedida e de um investidor da área de tecnologia que se tornou primeiro-ministro. No mês passado, a desenvolvedora de softwares Atlassian abriu seu capital na Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York, fazendo de seus fundadores, Scott Farquhar e Mike Cannon-Brookes, os primeiros bilionários australianos do setor de tecnologia. E, em setembro, Malcolm Turnbull, um advogado e investidor que em 2003 se elegeu pela primeira vez para a Câmara dos Representantes da Austrália, desalojou Tony Abbott do cargo de primeiro-ministro do país. Nos anos 90, Turnbull fez fortuna investindo na provedora de internet OzEmail.

A Atlassian tem um slogan seco e direto, condizente com suas raízes australianas: “Uma companhia aberta, sem frescuras”. Embora mantenha instalações em San Francisco, a sede da empresa continua em Sydney. Seus fundadores, dois rapazes que se conheceram na universidade, abriram o negócio em 2002 com os US$ 5,4 mil de limite que tinham em seus cartões de crédito. Catorze anos depois, na carteira da Atlassian figuram clientes como Nasa, Netflix e Facebook, e a empresa atingiu um valor estimado de US$ 5,6 bilhões. “Quando começamos, não havia na Austrália uma cultura de startups que pudesse nos servir de guia”, diz Farquhar. “A atitude, o medo do fracasso, era um problema.” Há quem diga que isso não mudou.

Coincidentemente, três dias antes da IPO da Atlassian, um discurso de Turnbull sinalizou uma mudança nas políticas do governo australiano voltadas para a inovação. Se Abbott, seu antecessor, ganhara fama como líder retrógrado, suspendendo os investimentos em energia eólica e afirmando que o carvão era “bom para a humanidade”, Turnbull diz que o país precisa de um “boom de ideias”, capaz de substituir os booms de mineração como fonte de crescimento. Em sua opinião, a Austrália está ficando para trás em relação à maioria das nações desenvolvidas, pois não tem conseguido transformar ideias em iniciativas comerciais. O atual líder australiano prometeu cerca de US$ 720 milhões em estímulos, incluindo incentivos fiscais para investimentos em startups e fundos de capital de risco.

Com o preço das commodities no fundo do poço, a Austrália se dá conta de que precisa parar de viver da ideia alheia
É possível que Turnbull precise de mais do que palavras e incentivos fiscais para convencer seus compatriotas a mudar a imagem que fazem de si mesmos como cidadãos do “país de sorte”. A fim de criar uma comunidade de empreendedores e inovadores como a recomendada pela Productivity Commission, a Atlassian tentou comprar o terreno de uma antiga oficina ferroviária, nas proximidades do distrito comercial de Sydney. Mas o governo estadual de Nova Gales do Sul preferiu vender o imóvel para a construtora Mirvac, que pretende usar a maior parte da área para erguer um edifício de escritórios.

A Mirvac se comprometeu a converter um dos antigos abrigos de locomotivas em espaço para empresas de tecnologia e outras startups. Mesmo assim, Farquhar lamenta ter perdido a oportunidade de construir um ecossistema mais amplo, capaz de dar origem a outras empresas como a sua. A Austrália, diz ele, tem que decidir se quer produzir softwares para o resto do mundo, ou se vai se conformar em ser uma consumidora, “ficando para trás nessa revolução e tendo de descobrir um jeito de pagar por ela”.

Turnbull aposta suas fichas no fortalecimento dos laços entre a comunidade científica e os empreendedores, tendo revogado um corte de US$ 76 milhões nas verbas orçamentárias destinada à Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization (Csiro), principal agência científica do país, responsável pela invenção da tecnologia por trás das redes Wi-Fi.

O atual presidente da Csiro, Larry Marshall, passou 26 anos trabalhando no Vale do Silício. Em 2015, ao retornar a seu país natal, ficou impressionado com aversão a riscos dos empresários australianos. Segundo ele, os aspirantes a pioneiros do segmento de tecnologia deveriam se inspirar no modelo da economia “incrivelmente tolerante a riscos” da fronteira australiana. Tendo de enfrentar distâncias enormes e terreno árido, as mineradoras e os agricultores só conseguiram sobreviver graças à inovação. A Csiro colaborou com mineradoras como BHP Billiton e Newcrest Mining em projetos destinados a aprimorar as técnicas de perfuração e aumentar a produtividade. E, entre os agricultores australianos que plantam algodão, a grande maioria atualmente utiliza variedades desenvolvidas pela Csiro, que fazem menos uso de água e agrotóxicos. O desafio, argumenta Marshall, é canalizar a atitude em relação a riscos da velha economia para novos setores em que a Austrália tenha boas chances de se sair bem: alimentos saudáveis e biotecnologia.

Alguns empreendedores australianos já tentam seguir o caminho desbravado pela Atlassian. Há oito anos, Alec Lynch e Adam Arbolino criaram o DesignCrowd. A ideia era mudar os procedimentos “lentos, arriscados e dispendiosos” por meio dos quais as pessoas contratam designers gráficos locais para desenvolver projetos. Com o DesignCrowd, os consumidores podem definir o valor que pretendem gastar e receber ideias de designers espalhados pelo mundo inteiro. Inicialmente operando com recursos próprios, a empresa recebeu injeções de capital de um “investidor anjo” e do Starfish Ventures, um fundo de capital de risco de Melbourne. Atualmente, o faturamento anual da DesignCrowd é de US$ 14 milhões, 80% dos quais vêm de fora da Austrália.

Lynch prevê um “pequeno boom de startups” na Austrália. E está otimista com a possibilidade de que as iniciativas do atual primeiro-ministro façam com que a Austrália deixe de ser o “País de Sorte” para se transformar numa nação que faz sua própria sorte.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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