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Pedro Doria

Twitter tem futuro?

Usuários experientes muitas vezes não percebem como o Twitter exige dedicação

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Pedro Doria

12 Fevereiro 2016 | 05h00

É cruel o que está acontecendo com o Twitter na Bolsa de Valores americana. O preço das ações vem despencando. Há um ano, a empresa valia US$ 30 bilhões. Hoje, um terço disso. O relatório do último trimestre de 2015 mostra o tamanho do problema. Ele perdeu 2 milhões de usuários ativos. Tradicionalmente, era a segunda maior rede social. Instagram, WhatsApp e WeChat já são maiores. Snapchat está a caminho de ultrapassá-lo.

Nem tudo é má notícia. O ganho publicitário aumentou em 48% durante o ano passado. E o Twitter tem um número gigantesco, muito fiel, de usuários. São dois trunfos importantes. A queda em usuários ativos, de 307 para 305 milhões, indica que parou de crescer. Uma flutuação ligeira faz parte do jogo. Estabilizou. As outras redes sociais, porém, não pararam de crescer. Bem o contrário.

Quem lê artigos alarmantes e vê o gráfico da bolsa imagina uma empresa a caminho de implodir. É bem mais complicado do que isso.

Os problemas do Twitter são dois. O primeiro, que ele atende a um nicho muito específico. O segundo, que não é fácil de usar. Para sair daí e voltar a crescer é preciso mudar o conceito da plataforma. E este sim é um baita risco. Mexeu nisso, pode expulsar aquele grupo mais fiel. Aí sim é que implode.

As duas principais marcas do Twitter são que os posts têm 140 caracteres, não mais, e que eles aparecem em ordem cronológica. É sua maior diferença para o Facebook. Na maior rede social do mundo, o que vemos na tela é aquilo que o Facebook julga que vai nos interessar mais. Notícias, fotos e textos dos amigos que podem ter sido publicados há 30 segundos ou dois dias, não importa. No Twitter, não. Os posts são curtinhos e os vemos ao vivo.

A segunda distinção é que, no Twitter, todos somos entidades públicas. Qualquer um pode seguir o que escrevemos. E nós podemos acompanhar qualquer um.

O resultado é uma rede social muito dinâmica e ligada no momento. Se um terremoto ocorrer na Califórnia, haverá instantaneamente pessoas no Twitter publicando fotos e vídeos, comentando sensações. Twitter é bom para notícia quente. É bom, também, para ver televisão. Eventos esportivos, últimos episódios de séries. Transforma-se num espaço em que o público conversa sobre aquilo que se passa.

Só que nada disso é trivial. É preciso buscar as pessoas certas para seguir, as hashtags do momento e encontrar as conversas nas quais se engajar. Usuários experientes muitas vezes não percebem como o Twitter exige dedicação para melhor aproveitá-lo. E nem todo mundo se interessa tanto assim pelo que acontece em tempo real. Facebook e Instagram são sempre interessantes, o WhatsApp uma conversa corrente com amigos e trabalho. Twitter exige esforço.

Faz dele muito especial para quem o entende e busca aquilo. E nada interessante para o resto.

A empresa Twitter tem muito dinheiro nos cofres. Não bastasse, produz informação valiosa. É um termômetro em tempo real das discussões públicas. No jogo em que a publicidade está se transformando, poucas empresas têm algo assim para vender. Vale dinheiro hoje e valerá muito mais num futuro próximo.

Só que, na lógica do Vale do Silício e de Wall Street, o que vale mesmo é crescimento contínuo. O Twitter é um bom negócio hoje, com melhores perspectivas no futuro. Mas nunca será do tamanho do Facebook.

Mudanças estão sendo testadas, mas perigam fazer o Twitter deixar de ser Twitter.

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