Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

UE quer explicações do Brasil para continuar importando carne

Reunião de emergência deve ocorrer nos próximos dias entre diplomatas brasileiros e europeus

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

18 Março 2017 | 12h33

GENEBRA – As autoridades da Europa querem explicações por parte do Brasil em relação às revelações sobre a corrupção nos certificados de carne no País. O bloco europeu, que importa o produto nacional, pediu esclarecimentos sobre o que as investigações apontaram e se as vendas ao exterior também tem sido alvo de propinas por parte de empresas.  

Uma reunião entre o Mercosul e a UE está marcada para ocorrer no final deste mês em Buenos Aires, com o debate sobre as ofertas de liberalização entre as duas partes e, em especial, a situação sanitária do comércio. Mas fontes brasileiras confirmaram ao Estado que, antes disso, uma reunião de emergência deve ocorrer entre as duas partes já na próxima semana. 

Do lado brasileiro, o objetivo é o de garantir que as revelações não fechem as portas da Europa para o produto nacional. 

Aikaterini Apostola, porta-voz de Saúde e Segurança Alimentar na Comissão Europeia, indicou ao Estado que Bruxelas está acompanhando as investigações no Brasil. “Estamos de fato em contato e pedindo esclarecimentos da parte das autoridades brasileiras”, disse. 

De acordo com a Comissão Europeia, seu sistema de identificação de eventuais problemas nos alimentos importados não registrou qualquer alteração na carne nacional por dois anos. “Até o momento, não registramos nenhuma irregularidade com certificados de saúde relacionados com a carne do Brasil desde 2015”, disse a porta-voz, indicando que deverá ter novas informações sobre os contatos bilaterais nos próximos dias.  

Desde sexta-feira, a Comissão passou a ser pressionada pela Confederação Europeia de Produtores Agrícolas que pretende usar o caso das propinas no Brasil para tentar impedir um acordo com o Mercosul e mesmo um aumento de exportações nacionais. Para a entidade, o Brasil não tem o mesmo padrão de segurança na produção alimentar que a Europa e um acordo entre europeus e o Mercosul não pode prever uma maior abertura comercial enquanto as condições não sejam iguais nos dois lados do Atlântico. 

“Essa diferença de qualidade ficou claro pelo caso no Brasil, no qual mais de 30 representantes de alto escalão do setor agroalimentar foram presos por não atender às exigências veterinárias no setor de carnes” disse o secretário-geral das cooperativas agrícolas da Europa, Pekka Pesonen.

No ano passado, os dois blocos comerciais apresentaram uma lista do que poderiam abrir em termos aduaneiros, com o Mercosul sendo pressionado a liberalizar o setor industrial, enquanto a Europa foi solicitada a reduzir tarifas para as exportações agrícolas dos países sul-americanos. 

Um dos centros do pedido do Mercosul, porém, é uma ampliação de cotas para a exportação de carnes, o que não estava na primeira oferta. Bruxelas havia indicado que estava disposta a incluir, com a condição de que os brasileiros oferecessem maior abertura em setores estratégicos, como automotivo.

Na semana passada, a entidade já havia enviado uma carta confidencial à Comissão Europeia colocando duas exigências sanitárias para permitir que o acordo com o Mercosul fosse mantido. A primeira era de que houvesse uma garantia que apenas um gado registrado e com monitoramento fosse autorizado a entrar em um acordo de exportação de carnes nacionais para o mercado europeu. 

A carta ainda pedia aos diplomatas europeus que também não colocassem na lista de bens que poderiam entrar no mercado da UE o frango brasileiro alimentado a partir de certas rações consideradas como ilegais na Europa. Os produtores agrícolas tem o apoio de cerca de doze dos 27 países do bloco europeu, que resistem em aceitar qualquer tipo de liberalização comercial para o setor rural. 

 

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