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JF Diório|Estadão

Um ano em casa, em férias forçadas

Em três anos, metalúrgico do ABC passou por lay-off, folgas, PPE e, agora, licença remunerada

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Cleide Silva,
O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2016 | 16h13

Nos últimos três anos, o funcionário da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Cleber Ricardo Cardoso, ficou em casa o equivalente a mais de um ano.

Desde 2012, ele participou de dois programas de lay-off (suspensão temporária de contrato de trabalho por até cinco meses), férias coletivas, licença remunerada e do Programa de Proteção ao Emprego (PPE), que reduziu jornada e salários em 20% a partir de setembro.

Viu vários de seus companheiros deixarem a fábrica, a maioria em programas de demissão voluntária, mas por falta de alternativa. Cardoso, até agora, tem conseguido se manter no emprego, onde está desde 2010.

Na sexta-feira, ele foi informado de que está em um grupo de 1,5 mil trabalhadores que terá novo período de licença remunerada, por tempo indeterminado, a partir do dia 17. “Estou muito apreensivo, mas tenho esperança de, se Deus quiser, voltar ao trabalho quando essa fase ruim passar”, disse Cardoso, que tem 37 anos e trabalha como soldador na linha de produção de ônibus.

A fábrica, que também produz caminhões, motores e transmissões, vai suspender todas as operações durante a semana de carnaval. Os cerca de 7 mil trabalhadores da área produtiva ficarão em casa.

Quando anunciou, na semana passada, que 1,5 mil funcionários seguirão em licença remunerada após a folga, a Mercedes afirmou ter mais de 2 mil trabalhadores excedentes. Em janeiro, a produção de veículos da marca caiu 40% em relação a igual mês de 2015. No ano passado todo, a queda foi de 46% em caminhões e de 36% em ônibus, comparado aos dados de 2014.

“Diante desse cenário, a fábrica tem utilizado apenas metade da força de trabalho, o que a mantém em uma situação difícil mesmo com o uso do PPE”, informou a empresa. O programa vence em maio, no mesmo mês em que a Mercedes pretende reavaliar a licença remunerada.

Na sexta-feira, Cardoso, ainda impactado pela informação de que novamente será afastado da fábrica, disse não saber o que fará durante a licença. Sua esposa é professora em uma escola particular e, nas dispensas anteriores, ele ficou em casa cuidando das filhas de 11 e 4 anos, além de realizar cursos de requalificação durante o lay-off.

Ele pretende fazer algum bico, se for possível, mas teme se machucar pois continua vinculado à Mercedes, que avisou que poderá convocá-lo a qualquer momento. “A situação do mercado está muito complicada, mas espero que mude logo.”

Blindagem. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, disse que em maio vai negociar com a Mercedes uma prorrogação do PPE, caso o mercado ainda esteja em baixa. O programa permite duração de até dois anos.

“Espero que a empresa não tente usar a licença como pretexto para demitir, pois não vamos aceitar”, disse Marques.

O sindicalista viu a base dos metalúrgicos da região perder 8 mil postos de trabalho no ano passado, o maior corte na categoria em de 15 anos. Ele defende o PPE como “instrumento para blindar 2016 e evitar mais demissões até que a economia comece a se recuperar.” Marques espera alguns sinais de recuperação a partir do segundo trimestre.

Lançado em julho, o PPE foi proposto por sindicatos e empresas, principalmente do ramo automotivo. Tem como referência programa criado na Alemanha para manter empregos em época de crise.

Para o governo, que banca metade do corte salarial, o PPE é mais interessante do que o lay-off. Nessa opção, o governo paga o valor do seguro desemprego (cerca de R$ 1,4 mil) a cada trabalhador. Durante a suspensão do contrato, não são recolhidos encargos. No PPE, os impostos continuam sendo pagos sobre o salário reduzido.

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