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Um hedge contra a ignorância

- Atualizado: 17 Fevereiro 2016 | 07h 45

Investidores voltam, com cautela, a um mercado caprichoso; fãs do metal, de americanos libertários a donas de casas indianas, ajudaram a elevar preços

Turbulência. Preço da onça de ouro chegou perto de US$1,3 mil. 

Turbulência. Preço da onça de ouro chegou perto de US$1,3 mil. 

Para o Dia de São Valentim (data que foi comemorada no dia 14 de fevereiro, equivalente ao Dia dos Namorados), a Sharps Pixley, primeira loja de Londres a vender lingotes de ouro para o público em geral, preparou uma oferta especial: uma rosa banhada em ouro que sai por 115 libras (US$ 166). Mas o presente que deixaria a pessoa amada realmente sorrindo é a barra de ouro de um quilo, que custa 27 mil libras e, apesar de ser menor que uma barra de chocolate, tem um peso para lá de reconfortante nesses tempos de turbulências financeiras. 

Os dois itens têm tido bastante saída desde que o estabelecimento foi inaugurado, no mês passado, diz o presidente executivo Ross Norman. Mas é impressionante, acrescenta ele, como os clientes parecem ter vergonha de estarem comprando ouro. Donde se conclui que muitos são novatos, às voltas com suas primeiras e cautelosas apostas contra a economia mundial.

Mas eles não estão sozinhos. De americanos libertários a donas de casa indianas, os fãs do ouro ajudaram a fazer com que os preços do metal no mercado spot registrassem forte alta nas primeiras semanas deste ano, caminhando na contramão dos demais mercados globais de commodities (se bem que o ouro tampouco os acompanhou durante o boom que chegou ao fim em 2014). 

Na semana passada, em meio a quedas generalizadas das bolsas em todo o mundo, a onça do ouro chegou perto da marca de US$ 1,3 mil, patamar mais alto desde maio de 2015. Norman diz que nos últimos dois anos, o mês de janeiro foi palco de movimentos de alta que logo perderam vigor, em parte por razões sazonais: nos maiores mercados do metal, Índia e China, as compras no varejo começam com o Diwali, uma festa hindu celebrada entre outubro e novembro, que marca o início do ano financeiro na Índia, e se encerram entre janeiro e fevereiro, com a comemoração do ano-novo chinês. 

Segundo ele, este ano a alta, embora ainda hesitante, veio com “um pouco mais de intensidade”.

Uma das fontes dessa intensidade é o medo. Um investidor que opera na Suíça e está otimista com as perspectivas do metal diz que o ouro é “um hedge contra a ignorância”. Ele chama a atenção para os inúmeros pontos de interrogação que pairam sobre a economia global, entre os quais se incluem a desaceleração da economia chinesa, o efeito da queda dos preços do petróleo para os países emergentes que exportam a commodity, a crise de endividamento das empresas que exploram o petróleo de xisto nos Estados Unidos e a fragilidade dos bancos globais. Além disso, o dólar - que disputa com o ouro a condição de porto seguro dos investimentos - também se desvalorizou recentemente.

Há outros fatores operando a favor do ouro. A recente alta do metal coincidiu com a queda nos preços do petróleo e com o recrudescimento dos temores de deflação, o que fez com que as taxas de juros recuassem ainda mais. Como o ouro não tem rentabilidade, quanto mais baixo o retorno oferecido por investimentos alternativos, mais atraente é o metal. 

A decisão de impor juros negativos aos depósitos dos bancos comerciais, tomada por alguns grandes bancos centrais, faz do ouro uma reserva de valor ainda mais sedutora - o equivalente dourado do dinheiro debaixo do colchão.

Restrições de oferta também podem ajudar os investidores que estão apostando na alta. Na quinta-feira da semana passada, o Conselho Mundial do Ouro informou que no quarto trimestre de 2015 houve uma queda de 3% na extração do metal, primeiro recuo trimestral desde 2008. A organização prevê que a produção continuará declinante, já que as mineradoras estão sem dinheiro e vêm cortando investimentos.

Do lado da procura, a situação apresenta mais nuances. A demanda global caiu um pouco em 2015. Mas, no segundo semestre, os indianos abarrotaram suas caixinhas de joias com enfeites de ouro, como convém a uma das economias que mais cresce no mundo. Os chineses, por sua vez, embora tenham comprado menos berloques de ouro, investiram mais em moedas e barras do metal, talvez por estarem preocupados com a desvalorização de sua moeda e com a queda de suas bolsas de valores.

Nas primeiras semanas deste ano, observou-se entrada líquida de recursos em fundos de índices relacionados com o ouro, que são responsáveis por 10% da demanda global do metal, diz Juan Carlos Artigas, do Conselho Mundial do Ouro. Na opinião do analista, as compras dos bancos centrais de países em desenvolvimento, que tiveram forte alta no quatro trimestre de 2015, devem se repetir este ano, como parte de um esforço de diversificação de ativos.

Apesar disso, os céticos - entre os quais figura o banco de investimentos Goldman Sachs - sustentam que os preços do ouro cairão pelo quarto ano consecutivo em 2016, em razão, sobretudo, da elevação dos juros nos Estados Unidos. A presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Janet Yellen, apresentou ao Congresso americano uma visão pessimista sobre a economia do país. Embora tenha deixado a porta aberta para novas altas nos juros, as bolsas e o dólar reagiram negativamente, ao passo que o ouro subiu. Quanto mais sombrio for o horizonte financeiro, maior tende ser a alta do metal.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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