Uma aposta nos criadores de aplicativos

Com exigência do governo de que fabricante de smartphone inclua no aparelho pacote de aplicativos, mercado brasileiro pode crescer

NAYARA FRAGA, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2013 | 02h19

Tiago Canto (E) e Guilherme Coelho ofereceram o app 'Snapcherry' a fabricante 

Guilherme Coelho, de 23 anos, desenvolveu com o sócio, Tiago Canto, de 26, um aplicativo que reúne blogs de moda num lugar só. O programa foi lançado há cerca de sete meses e teve 23 mil downloads. É um número relativamente alto, considerando que os jovens recifenses não têm investidor por trás do negócio nem empresa aberta, por enquanto. Mas essa audiência pode atingir milhões de pessoas, caso o fabricante de smartphones que eles procuraram inclua o Snapcherry na lista obrigatória de 50 aplicativos brasileiros exigida pelo governo.

Recentemente, o Ministério das Comunicações definiu que fabricantes de smartphones isentos de PIS/Cofins apresentem um pacote mínimo de aplicativos nacionais - que começa com 5 opções, em 10 de outubro, sobe para 15, em janeiro de 2014; 30, em julho; e 50, em dezembro (ler abaixo). Daí surgiu a expectativa não só de Coelho e Canto, como de vários desenvolvedores: a medida vai abrir espaço para bons e pequenos desenvolvedores levarem seus aplicativos até o brasileiro?

O governo diz que o objetivo é incentivar a indústria de aplicativos no País, que tem entre 300 e 400 empresas hoje, segundo estimativa do MEF, entidade que reúne companhias de entretenimento digital.

"Hoje, quando uma pessoa entra numa loja de aplicativos, os que aparecem como mais baixados são geralmente os desenvolvidos no exterior e simplesmente traduzidos para o português", diz o diretor de Indústria, Ciência e Tecnologia do Ministério das Comunicações, José Gontijo. "O desenvolvedor brasileiro, incluindo aqueles de garagem, acaba ficando com seus aplicativos escondidos. Por isso, queremos dar a ele visibilidade."

No momento, a maior parte dos criadores de programas para smartphones e dos fabricantes diz estar apenas iniciando as conversas. De dez desenvolvedores de diferentes portes ouvidos pela reportagem, só um havia fechado parceria (a Easy Taxi, de Tallis Gomes). A Movile, uma das empresas mais conhecidas nesse segmento, além de prever novas contratações, diz já ter pacotes prontos para os fabricantes. Um deles inclui o Zona Grátis, que acha redes Wi-Fi gratuitas, o PlayKids TV, de entretenimento para crianças, e o MeuChip Social, que informa a operadora do amigo.

Essas duas empresas, no entanto, têm poder de barganha, influência no mercado e aplicativos com muitos milhares de downloads. A Easy Taxi tem investimento do fundo alemão Rocket Internet e a Movile já está na fase de fazer aporte em "irmãs pequenas". Para as menores, aliás, a conquista de um lugar na lista dos fabricantes será ainda mais árdua.

Um desenvolvedor que já participou de alguns encontros com fabricantes diz que eles darão preferência para os criadores que aceitarem dividir a receita vinda dos aplicativos (todos os programas devem ter download gratuito, mas é permitida a venda de itens internamente). "Cada um está olhando para seu próprio umbigo", disse.

Rafael Pellon, diretor-geral da MEF para a América Latina, participou das discussões com o governo e diz que a reflexão sobre os possíveis abusos por parte dos fabricantes foi posta na mesa. "A grande preocupação é não permitir que as empresas usem de seu tamanho e poderio econômico para forçar acordos injustos aos desenvolvedores." Hoje, um aplicativo pago dá à loja em que está hospedado 30% de sua receita, em geral. Portanto, preocupa a ideia de dividir com o fabricante, em partes iguais, os 70% restantes.

Os desenvolvedores esperam que os benefícios dados aos fabricantes sejam, em algum momento, repassados a eles. Mas o Ministério das Comunicações diz não haver previsão de um novo benefício fiscal direcionado para desenvolvedores de aplicativos, além da desoneração da folha de pagamento para empresas de software já em vigor.

Qualidade. Os fabricantes de smartphones evitam comentar os detalhes das negociações com os desenvolvedores, por ora. A Motorola diz que está indo ao mercado para avaliar os aplicativos já disponíveis e que também tem sido procurada por alguns desenvolvedores (dos grandes aos pequenos). Renato Arradi, gerente de produto da empresa, afirma que ficará de olho na qualidade. "Não adianta o programa ser legal, funcionar bem, mas não ser útil para o consumidor."

A Sony já tem uma lista de softwares que podem ser apresentados ao governo. O Centro de Inovação Tecnológica Venturus, de Campinas (parceiro da empresa japonesa desde 2004), desenvolveu vários programas conhecidos mundialmente, como o TrackID, de descobrir as músicas que estão tocando, e o Toque e Envie, para compartilhamento de conteúdo. Além de usar alguns deles para seguir a medida do governo, outros serão criados. A Venturus prevê muito trabalho para os próximos meses.

Hoje, a maioria dos fabricantes concilia a produção de softwares internamente com a encomenda a terceiros. A expectativa é de que essa demanda externa aumente também por conta da orientação do governo de que o pacote de aplicativos apresente diversidade de categorias (como educação, esporte, saúde) e fornecedores. Mas não se trata de uma exigência.

Coelho e Canto enviaram uma apresentação sobre o Snapcherry (que já esteve entre os top 10 na categoria "estilo de vida" da AppStore) a uma das maiores fabricantes de smartphone do País. A intenção deles é firmar uma parceria exclusiva. Mas, se não der certo, vão procurar as concorrentes. "Muitos desenvolvedores focam apenas na tecnologia e esquecem o ambiente econômico e legal no qual estão inseridos", diz Coelho. Os recifenses querem aproveitar todas as oportunidades.  

 

Exigência de 50 aplicativos causou polêmica

 

O governo exige que, até 2014, todos os fabricantes de smartphones isentos de PIS/Cofins ofereçam 50 aplicativos desenvolvidos no País. O número assustou. Primeiro, porque as pesquisas mostram que os usuários se dedicam a apenas oito aplicativos, em média, e segundo porque existe uma aversão natural aos aparelhos que saem de fábrica já abarrotados de programas, com a memória ocupada.  

 

Mas a nova portaria do Ministério das Comunicações tornou flexível a oferta do aplicativo - eles podem ser embarcados, estar dentro de lojas de aplicativos ou serem sugeridos por meio de hiperlinks. De outro lado, há a discussão da preferência pelo conteúdo estrangeiro. Thiago Moreira, diretor de telecom da Nielsen, diz que a situação lembra a obrigatoriedade do conteúdo nacional na TV a cabo. “No começo, reclamam. Mas veja como cresceu a oferta de programas produzidos no Brasil e quantas empresas são beneficiadas com isso.”  

 

Num primeiro momento, o Ministério das Comunicações vai indicar apenas programas desenvolvidos pelo governo. Depois, fará um concurso para escolher projetos. Outra ideia é oferecer ao desenvolvedor um canal direto com a fabricante para submissão de propostas de aplicativos./ COLABOROU MARIANA CONGO

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