Uma aposta para lá de agressiva

Maior fortuna da Índia, Ambani investiu US$ 25 bi na Jio, operadora que, em 6 meses, já tem 100 milhões de clientes

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 Março 2017 | 05h00

Alguns empresários consultam especialistas, elaboram planilhas e fazem cálculos complicados antes de investir. Que participação de mercado deve ser atingida em três anos? O retorno sobre o capital investido é razoável? Outros jogam relatórios e projeções na cesta de lixo e sucumbem à tentação de deixar sua marca no mundo.

Mukesh Ambani, o homem mais rico da Índia, é um empresário desse último tipo. Em setembro de 2016, ele fez uma das apostas corporativas mais desabusadas do mundo: a criação da Jio, uma operadora de telefonia móvel que permitiu aos indianos ter acesso à transferência de dados numa escala sem precedentes. Em seis meses, a operadora atraiu 100 milhões de clientes. Só outra empresa do planeta exibe taxa de aquisição tão impressionante: o Facebook. Das favelas de Calcutá às apinhadas margens do rio Ganges, pela primeira vez na vida milhões de indianos fazem uso das mídias sociais e dos streamings de vídeo.

Para realizar a façanha, Ambani despejou inacreditáveis US$ 25 bilhões na operadora, sem embolsar uma única rupia de lucro, aterrorizando concorrentes e muitos investidores. A motivação para aposta tão arrojada provavelmente remonta à turbulenta história familiar do empresário. Seu conglomerado, o Reliance Industries Limited (RIL), foi criado por seu pai, Dhirubhai, em 1957. De origem humilde, Dhirubhai era conhecido por três coisas: suas relações pouco transparentes com autoridades governamentais, a fortuna que amealhou para si próprio e para o exército de pequenos acionistas do RIL e seu apetite por gigantescos projetos industriais. Do setor têxtil, o RIL passou para as refinarias de petróleo e depois para as petroquímicas. A refinaria que o grupo tem no Estado de Gujarat é uma das maiores do mundo. Foi inaugurada em 2000, dois anos após a morte de Dhirubhai.

Mukesh Ambani e seu irmão Anil assumiram o comando em 2002, tomando cada qual seu rumo três anos depois. Na divisão dos negócios, Mukesh ficou com o controle total do RIL. De lá para cá, seu desempenho não é dos mais consistentes. As ações do grupo não conseguiram acompanhar a valorização registrada pela bolsa indiana nos últimos dez anos. E o retorno sobre o capital do grupo caiu pela metade, passando de 12% para 6%.

Imitando o pai, Ambani apostou suas fichas em diversos projetos faraônicos. Gastou somas monstruosas para modernizar as divisões de refino e petroquímica do conglomerado. Ele acertou: são operações excelentes que geram um retorno de cerca de 12%. Em outros casos, porém, Ambani deu com os burros n’água. Entre 2010 e 2015, o RIL investiu US$ 8 bilhões em campos de produção de petróleo de xisto. Com a queda dos preços da commodity, o negócio passou a dar prejuízo. O grupo também injetou US$ 10 bilhões em campos de gás natural no litoral da Índia. Mas a produção ficou aquém do que se esperava e esses ativos se desvalorizaram muito. Por fim, o RIL pôs cerca de US$ 2 bilhões num negócio de varejo pouco lucrativo. Tudo considerado, as unidades de refino e petroquímica representam 40% do capital investido, mas são responsáveis por 100% dos lucros operacionais.

Apetite por risco. Um homem de menos brio teria baixado o facho. Ambani preferiu arriscar outro caminhão de dinheiro na Jio. O empresário conhece o setor de telecomunicações: em 2002, comandou a primeira tentativa da família de entrar no negócio de telefonia móvel (a operação, em dificuldades, agora pertence a seu irmão).

A investida vinha sendo gestada há dez anos. Pouco a pouco, o RIL foi adquirindo espectro de frequência, trabalhando com fornecedores de celulares e construindo a rede 4G. Ao entrar no mercado oferecendo serviços gratuitos, a Jio causou sensação. Seguiu-se uma feroz guerra de preços. Um executivo de uma concorrente calcula que a Jio hoje transporta mais dados que a China Mobile e a AT&T, as duas maiores operadoras do mundo em valor de mercado.

A Jio começará a cobrar por seus serviços em abril. No entanto, mesmo imaginando que a operadora continue a aumentar os preços e abocanhe um terço do mercado, uma análise de fluxo de caixa descontado indica que seu valor corresponderá a, no máximo, dois terços do montante investido. Para o negócio valer a pena, a Jio teria de gerar valor correspondente aos lucros que o conjunto do setor de telecomunicações indiano obteve em 2016. Em outras palavras, a conta não fecha.

As três principais concorrentes da Jio esboçam reação. A Bharti Airtel está adquirindo uma operadora menor, na esperança de reduzir custos. A Vodafone negocia fusão com a Idea Cellular. As outras cerca de meia dúzia de empresas que atuam no mercado, mais frágeis, provavelmente desaparecerão. Para a Jio, resta esperar que, num futuro distante, ela seja uma das três empresas remanescentes num setor em que a atual concorrência acirrada tenha dado lugar a um confortável oligopólio – desfecho que não é impossível.

Depois de passar anos sem sair do lugar, as ações do RIL deram um salto no mês passado, em razão do entusiasmo com os 100 milhões de novos clientes da Jio. Ainda assim, a escala do investimento ilustra os riscos que os acionistas enfrentam quando o comando de uma empresa está nas mãos de um só homem. Enquanto os investidores esperam, boa parte do contingente de 1,3 bilhão de consumidores indianos sairá ganhando, não só com preços baixos, mas também com os bem-vindos investimentos na infraestrutura de telecomunicações do país.

Internet. E quanto a Ambani? O empresário talvez consiga recuperar o dinheiro que empatou se transformar a Jio numa empresa de internet que ofereça conteúdo e serviços de pagamentos, e não apenas conectividade. A chinesa Tencent, que é dona do serviço de mensagens WeChat, se deu bem ao entrar em games e serviços bancários.

Mas nenhuma empresa de telecomunicações conseguiu realizar diversificação semelhante. E nada indica que, numa cultura fechada como a do RIL, seja possível criar um ambiente favorável à inovação. O mais provável é que, com seus 59 anos, Ambani não esteja dando muita bola para o que dizem as planilhas e os números. Do alto do arranha-céu que lhe serve de escritório, tendo a seus pés a frenética e populosa Mumbai, onde 5 milhões de novos clientes da Jio agora navegam em alta velocidade pela internet, a preço de banana, o empresário pode finalmente dizer que mudou a Índia. Quando se é filho de Dhirubhai, isso deve ser suficiente.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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