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Uma tempestade de meter medo

Além de haver bancos demais na Europa, eles se aferram a modelos de negócios equivocados

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The Economist

12 Fevereiro 2016 | 05h00

Se no mundo inteiro as bolsas de valores tiveram um péssimo começo de ano, no caso das ações de bancos as primeiras semanas de 2016 foram particularmente desastrosas. Nos Estados Unidos, as ações do setor financeiro caíram 19%. Em outros países, o declínio foi ainda mais acentuado. As ações dos bancos japoneses perderam 36%; as dos italianos, 31%; e as dos gregos, apavorantes 60%.

Com um recuo de 24% desde o dia 1.º de janeiro, o índice do setor bancário europeu está próximo do patamar atingido no verão de 2012, quando a zona do euro parecia à beira da desintegração, até que o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, veio a público afirmar que faria tudo o que fosse necessário para preservar a união monetária.

Na Europa, os maus ventos colheram tanto as grandes instituições, quanto as pequenas, derrubaram mastodontes do interior da área do euro, como o Société Générale e o Deutsche Bank – duas instituições cujas ações perderam 10% em questão de horas esta semana –, e também gigantes de fora da eurolândia, como o Barclays (Grã-Bretanha) e o Credit Suisse (Suíça).

A aparente fragilidade dos bancos europeus é especialmente decepcionante tendo em vista os esforços realizados nos últimos anos, por meio de aumentos de capital e da adoção de uma regulamentação mais rigorosa, para torná-los mais robustos. Os bancos da zona do euro emitiram mais de € 250 bilhões (US$ 280 bilhões) em novas ações entre 2007, quando teve início a crise financeira global, e 2014, quando o BCE assumiu o encargo de supervisioná-los. Ao se responsabilizar por essa nova função, a autoridade monetária europeia passou em revista os balanços de 130 dos mais importantes bancos da zona do euro, tendo identificado apenas modestas insuficiências de capital.

Parte das perdas sofridas pelas ações dos bancos europeus é consequência da preocupação mais generalizada com o estado da economia mundial, que está por trás do mau desempenho dos papéis de instituições financeiras também em outras regiões. Um dos motivos de inquietação é a eventual desaceleração do crescimento global. Outro receio é que as taxas de juros negativas adotadas pelos bancos centrais de alguns países, com o intuito de estimular a atividade econômica, acabem por corroer ainda mais o lucro das instituições bancárias. No fim de janeiro, quando o BC do Japão tomou uma decisão desse tipo, as ações dos bancos japoneses, que vinham em trajetória descendente, entraram em queda livre. Os investidores que têm ações de bancos europeus em carteira temem não apenas o baixo crescimento da economia, como se afligem com a possibilidade de que em março o BCE resolva aprofundar sua incursão pelo território dos juros negativos. Na quinta feira, o banco central da Suécia baixou sua taxa básica de -0,35% para -0,5%, provocando forte queda nas ações dos bancos suecos.

Acontece que a desconfiança em relação aos bancos europeus tem raízes mais fundas. O problema essencial é que, além de haver bancos demais na Europa, muitos deles não são suficientemente lucrativos, pois se aferram a modelos de negócios equivocados. Falta aos bancos de investimentos europeus um sólido mercado doméstico de capitais, como o que põe seus concorrentes americanos na liderança do setor. O Deutsche Bank, por exemplo, acaba de tomar a decisão de reduzir as operações de seu banco de investimentos, agora que a crise financeira tornou o ambiente regulatório menos hospitaleiro.

E ainda há um número excessivo de pequenas instituições com desempenho sofrível em vários países da região. As maiores quedas nos preços das ações aconteceram na Grécia. Lá, porém, as perdas são reflexo do reaparecimento de tensões políticas com a implementação do terceiro socorro financeiro internacional ao país. São os bancos italianos, cujos problemas não se restringem a seu número excessivo, que inspiram mais cuidados agora.

Uma preocupação específica é o estado lastimável em que se encontra o terceiro maior banco do país (que também é o mais antigo do mundo): o Monte dei Paschi di Siena, que há muito tempo está na UTI e cujas ações caíram 56% este ano. As dificuldades da instituição são reflexo de práticas administrativas inadequadas, um problema crônico dos bancos italianos, muitos dos quais são parcialmente controlados por fundações locais, com laços políticos.

Uma preocupação mais geral diz respeito aos empréstimos ruins que foram acumulados nos últimos anos e que sobrecarregam o setor bancário italiano como um todo. Apesar de estar em alta desde o início de 2015, o PIB da Itália ainda se encontra 9% abaixo do pico atingido no período pré-crise, nos primeiros meses de 2008. Os efeitos negativos para as empresas italianas não foram pequenos, e os problemas se transferiram para os bancos junto aos quais elas contraíram empréstimos. No total, os créditos duvidosos chegam a € 360 bilhões (18% do total), dos quais € 200 bilhões são especialmente problemáticos.

Nova abordagem. O elevado nível de empréstimos ruins dos bancos italianos não é novidade para ninguém; se a economia continuar se recuperando, a situação deve melhorar. Além disso, mais da metade desses créditos está coberta por provisões, o que significa que com seu eventual recuo a um patamar de € 90 bilhões, a conta passa a ser bem mais administrável. O que mudou este ano foi que os europeus adotaram uma nova abordagem para lidar com bancos em dificuldades, transferindo dos contribuintes para os credores a responsabilidade de arcar com as perdas quando elas se tornam muito grandes. Essas normas, que só entraram em vigor este ano (alguns países as implementaram em 2015), significam que os detentores de títulos e os correntistas com depósitos superiores a € 100 mil podem sofrer prejuízos quando um banco é liquidado.

Os principais compradores de títulos emitidos por bancos são investidores institucionais, que sabem cuidar de si mesmos. Na Itália, porém, há aproximadamente € 200 bilhões desses títulos nas mãos de investidores de varejo, que até 2011 eram incentivados a adquiri-los graças a um tratamento tributário extremamente favorável. Esses investidores estarão em situação vulnerável se os bancos ficarem descapitalizados depois de efetuar grandes baixas contábeis.

No fim de 2015, os riscos associados a essa situação vieram à tona quando foi preciso socorrer às pressas quatro bancos pequenos, para que não estivessem sujeitos às normas mais rigorosas que entrariam em vigor este ano. Os investidores de varejo, que pela legislação anterior já podiam ser chamados a arcar com os prejuízos, ficaram a ver navios. Um deles cometeu suicídio. O pânico deixou os italianos com os nervos à flor da pele. Ignazio Visco, presidente do banco central do país, disse que teria sido mais conveniente fazer uma transição menos abrupta para o novo regime.

As novas normas também dificultam que o governo italiano, liderado pelo primeiro-ministro Matteo Renzi, expurgue os créditos duvidosos do sistema bancário. Em vez de removê-los por meio da criação de um “banco podre”, financiado com recursos estatais, Renzi teve de adotar abordagem menos eficaz, em que o governo garante tranche de títulos duvidosos securitizados. O desempenho das ações dos bancos italianos mostra que a confiança dos investidores na eficácia do esquema é muito pequena.

A frustração com a restrição da margem de manobra de que o governo italiano dispõe para tentar solucionar os problemas de seu sistema bancário é uma das razões que levaram Renzi a fazer críticas acerbas ao modo como a Alemanha comanda a área do euro. A tensão política resultante é mais um ingrediente de incerteza em relação aos bancos italianos. As ações dos bancos portugueses também sofreram grandes quedas, em parte porque o novo governo de centro-esquerda do país deixou os investidores internacionais alarmados ao impor pesadas perdas a títulos emitidos por instituições bancárias no fim do ano passado. Ao tentar transferir o risco com a quebra de bancos dos contribuintes para os credores, as autoridades europeias talvez achassem que estavam despolitizando o sistema bancário. Na periferia da zona do euro, porém, a política nunca é periférica.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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