Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Bolsa derrete e valor das empresas recua R$ 219 bilhões após denúncia contra Temer

Índice Bovespa fechou em queda de 8,80%, a maior retração desde a crise financeira de 2008; ações de estatais foram as mais afetadas

O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 22h59

No primeiro pregão após as denúncias que atingiram em cheio o presidente Michel Temer, o cenário foi de pânico. A Bolsa perdeu R$ 219 bilhões em apenas um dia. O anúncio do presidente na tarde desta quinta-feira, 18, de que não renunciaria ao cargo confirmou o tom de nervosismo nos negócios, e o dia foi de turbulência. O Índice Bovespa fechou em queda de 8,80%, aos 61.597,05 pontos – o maior recuo desde 22 de outubro de 2008, no rastro da quebra do banco americano Lehman Brothers.

Com a abertura das negociações na Bolsa, o Ibovespa chegou a cair mais de 10% e o circuit breaker foi acionado, por volta das 10h20, durante 30 minutos. Esse mecanismo trava as negociações diante de fortes oscilações no mercado e não era utilizado também desde 2008, durante a crise financeira que eclodiu nos Estados Unidos.

 

 

 

“O nervosismo de hoje foi só o começo. Enquanto não se perceber uma saída para a crise política, o mercado ficará ao sabor das notícias de boatos. Nesse contexto, o investidor não toma decisões, assume postura defensiva e o Brasil vai parar”, analisa Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria. “Quanto mais tempo o governo prolongar essa fase agônica, pior. O mínimo que se espera é uma solução constitucional, para que o País caminhe até 2018.”

O economista lembra que, ainda que o mercado não desse como garantida a aprovação de reformas, os preços dos ativos refletiam otimismo. “Os últimos acontecimentos são uma ducha de água fria. Qualquer que seja a solução constitucional adotada, é preciso garantir que haverá clima político para retomar as reformas antes que o novo governo assuma o Planalto, em 2019.”

As ações das estatais, que refletem em grande parte o risco político do País, tiveram as maiores quedas hoje. Eletrobrás ON perdeu 20,97%, Cemig PN caiu 20,43%, enquanto Banco do Brasil ON derreteu 19,91%. As ações da Petrobrás perderam 11,37% (ON) e 15,76% (PN). Com o resultado de ontem, o Ibovespa anulou os ganhos de maio e agora contabiliza perda de 5,82% no mês e alta de 2,27% desde o início do ano.

A Petrobrás teve a maior perda de valor de mercado em um dia, de R$ 27,4 bilhões. Em seguida, aparecem Itaú Unibanco (R$ 26,7 bilhões), Bradesco (R$ 24,4 bi) e Banco do Brasil (R$ 18,7 bi), segundo cálculos da consultoria Economática. No centro do escândalo das delações, a JBS teve uma desvalorização de R$ 2,5 bilhões ontem.

As quedas foram generalizadas na Bolsa, só poupando ações de empresas exportadoras, que refletiram a alta de 8,07% do dólar ante o real. Fibria ON (+11,48%) e Suzano PNA (+9,86%) foram as principais altas do dia. Vale ON e PNA subiram 0,07% e 0,39%, respectivamente, também refletindo a valorização do dólar.

Os fundos ligados ao Brasil nos Estados Unidos despencaram em Nova York, chegando a cair quase 50%, e fecharam o pregão entre os piores desempenhos do dia em Wall Street. Entre os ETFs (fundos de índice) ligados a papéis brasileiros, o Direxion Daily Brazil Bull encerrou o dia com perda de 48,3%.

“Incerteza” foi a palavra que definiu o clima nos negócios durante todo o dia. Na percepção de analistas, a saída espontânea do presidente seria a maneira mais rápida e menos traumática de resolver a crise. O anúncio de Temer, de que ficaria no cargo, frustrou essas expectativas.

Renúncia. Na avaliação de economistas e analistas das corretoras, o mercado entende que o governo “acabou” e Temer perdeu condições mínimas de permanecer no cargo com força suficiente no Congresso para aprovar as reformas de que o País precisa, como a trabalhista e a da Previdência.

“O discurso de Temer não contribuiu para reduzir esse cenário, uma vez que não ficaram claros nem mesmo os motivos da sua decisão de não renunciar”, disse Leandro Martins, analista da Nova Futura. Segundo ele, a melhora de alguns papéis ao longo do dia mostra que há investidores olhando oportunidades para o médio prazo.

“O lado bom é que tanto a Bolsa quanto o dólar tinham subido demais nos últimos meses. Esse efeito político extremo acaba forçando uma realização maior”, diz André Perfeito, da Gradual Investimentos.

Tesouro direto. Em reação à turbulência, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, acertaram uma ação conjunta para acalmar os mercados. Numa primeira ação, o Tesouro anunciou cancelamento de leilões de títulos do Tesouro, programados para ontem. Pouco mais tarde, o Tesouro comunicou que realizaria leilões extraordinários a partir desta sexta-feira, 19, até o dia 23 – um tipo de operação que só é feita em situações de altíssima volatilidade do mercado, quando os preços dos ativos perdem referência. É justamente para dar referência de preços que esses leilões são feitos.

Pelo Twitter, o Tesouro anunciou a suspensão das operações do Tesouro Direto, de venda de títulos pela internet para pessoas físicas. O objetivo é “garantir transações a taxas justas e alinhadas às praticadas no mercado”./ DOUGLAS GAVRAS, PAULA DIAS, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR e MURILO RODRIGUES ALVES

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