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ENTREVISTA: Salomão Quadros, superintendente adjunto de Inflação do Ibre/FGV

Economia

Inflação

‘Vamos ter de conviver com uma inflação mais alta'

Para economista,indexação da economia torna mais complicado o combate à inflação neste momento

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Alexa Salomão

13 Fevereiro 2016 | 05h00

Além do fantasma da indexação formal, os brasileiros padecem hoje com o próprio instinto de tentar recuperar o poder de compra perdido no último ano – a chamada “indexação informal” –, que gera ainda mais inflação, afirma o superintendente adjunto de Inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Salomão Quadros. Esse mecanismo deve dificultar ainda mais o trabalho do Banco Central no combate à inflação, segundo ele. “Estamos realmente num período em que vamos conviver com inflação mais alta”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que a inflação está tão resistente no Brasil?

A realimentação inflacionária está muito presente. A inflação deste ano tem a ver com a inflação passada e com as condições vigentes. Como as condições vigentes são de recessão, retração, isso derruba um pouco a inflação, mas o resultado final ainda é elevado. Por exemplo, as mensalidades escolares subiram 10,31% (no início de 2016), contra 9,2% no ano passado. A situação se deteriorou, há mais desemprego, e mesmo assim tem um aumento na taxa de mais de um ponto. Isso é muito forte. Nesse caso, como é a realimentação? Ao longo do ano você tem aumento de custos, energia elétrica, salário de professor, que tem negociação salarial para tentar repor a inflação passada. Tendo isso, as escolas também vão tentar jogar para a frente esse aumento de custo. E isso é verdade também para outras coisas, como despesas que são de alguma forma relacionadas ao salário mínimo.

A indexação atrapalha?

A indexação é um mecanismo que torna o combate à inflação mais difícil, sobretudo quando ela sobe. Se há indexação, mas você consegue manter a inflação na faixa de 2%, 3% (ao ano), vai ficar nisso. A inércia continua existindo, mas num nível de inflação pequeno. Agora, se vai para uma inflação de 10%, acaba levando em consideração a inflação passada. Além da indexação formal, você tem uma dose de indexação informal, que existe porque as pessoas acham que a inflação vai continuar. Essa é ainda mais difícil de combater porque não se pode simplesmente criar uma lei que retire tal índice da negociação quando ele ainda existe. Só vai desindexar quando a inflação baixar.

A indexação é uma herança maldita do período de hiperinflação?

Em parte é uma herança, muita gente viveu (hiperinflação) e sabe do que se trata. Mas tem muita gente que não viveu a época da hiperinflação e acaba instintivamente buscando esse mecanismo de compensação para evitar perdas. Nesse sentido, é uma indexação que se reinventa automaticamente. Tem também a nova indexação, as novas regras que o governo criou nos últimos anos e que contribuíram para reforçar essa inércia, cujo melhor exemplo é a regra do salário mínimo.

Corremos o risco de ter uma inflação fora de controle novamente?

Não. Até a situação do final dos anos 80, quando a inflação chegou a quatro dígitos, levou pelo menos duas décadas. E a gente tem menos indexação hoje do que se tinha nos anos 70, quando o câmbio, todos os salários e as tarifas públicas eram indexadas.

O que falta ser feito para que a inflação volte à meta de 4,5%?

O Banco Central não pode tudo. Ele tem a taxa de juros, mas tem de olhar um pouco também para a atividade econômica, para as consequências fiscais da política monetária (política de juros). Para subir a Selic, vai derrubar ainda mais a atividade econômica e pode tornar o endividamento desgovernado, com resultados discutíveis em relação à inflação. O BC está numa situação em que ele não pode usar muito a política monetária, que é a sua área de atuação. E há uma dificuldade grande do lado fiscal (receitas e despesas do governo), que não tem saída à vista.

A política fiscal é a saída para melhorar o quadro da inflação?

Existem todos os obstáculos possíveis para fazer esse ajuste. Houve uma tentativa de ajuste no primeiro ano (do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff), não deu certo. Agora vai se tentar outra coisa. A possibilidade de sair daí com resultado positivo e indicação de superávit mais consistente daqui por diante está muito distante, ninguém consegue visualizar isso. A política monetária vai ser limitada durante um bom tempo, e os resultados da inflação vão refletir isso. Talvez se a situação da economia piorar, o desemprego for maior, pode haver um freio.

O quão problemático é o descumprimento da meta de superávit primário pelo segundo ano seguido?

Isso é um agravante. Estamos realmente num período em que vamos conviver com inflação mais alta. Não sei se vamos ter outra vez dois dígitos, que é uma marca, mas talvez tenha margem para isso. Minha última estimativa é 7,6% para o IPCA (em 2016), mas eu não duvido que daqui um ou dois meses a gente esteja falando de um número maior.

Para onde vai o câmbio?

O câmbio vai até pesar menos do que o ano passado, quando subiu quase 50%. Este ano vai subir bem menos, algo em torno de 10%, para R$ 4,30, ou R$ 4,35. Isso significa que alimentação não vai explodir, vai subir menos (do que em 2015), mesmo com problema climático. As safras estão boas. Mas o câmbio é uma variável imprevisível, ele pode pressionar, retratar impasses da economia e da política, embora ache que não é esse o cenário.

O sr. mencionou que vamos conviver com inflação elevada. Isso enfraquece o regime de metas de inflação?

Eu gosto do sistema de metas, acho uma boa opção para países que já tiveram mais inflação. Mas o nosso regime de metas não tem a eficácia que o modelo ideal poderia ter. Não tem como um sistema de metas funcionar muito bem se você não tem uma economia mais ou menos estruturada. Se tem graves disfunções macroeconômicas, o seu sistema de metas vai ficar meio capenga. Mas eu não acho que a gente deve abandonar o sistema de metas.

O Brasil tem maturidade para desindexar mais sua economia?

Aí é uma questão de escolha de quem está comandando a política econômica. Para combater a inflação, é importante que o grau de indexação seja menor. Não sei se é uma questão de maturidade, é uma questão de entendimento da economia, dos mecanismos, de preferência. Isso é uma coisa que não vai mudar por ora.

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