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Varejo tem o pior abril desde 2003 e aumenta o risco de PIB negativo

Daniela Amorim e Idiana Tomazelli - Texto atualizado às 20h33

12 Junho 2014 | 09h 07

Recuo de 0,4% nas vendas do comércio fica dentro das expectativas de mercado, mas mostra tendência de queda e reforça a suspeita de alguns especialistas de que o País pode estar enfrentando estagflação, mistura de estagnação econômica e inflação alta

RIO - Nem a Copa do Mundo evitou a perda de fôlego do comércio varejista este ano. As vendas caíram 0,4% na passagem de março para abril, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números, segundo analistas, ampliam o risco de o País registrar Produto Interno Bruto (PIB) negativo no segundo trimestre.

O comércio varejista teve o pior mês de abril desde 2003, quando as vendas também caíram 0,4%. Em março, o volume vendido já tinha recuado 0,5%. O registro de duas quedas mensais consecutivas é fato inédito desde a crise de 2008. Os alimentos mais caros prejudicaram o resultado dos supermercados, mas as perdas foram generalizadas.
A desaceleração no ritmo de concessões de crédito e a redução de incentivos fiscais explicam o resultado mais fraco em 2014 em relação ao ano passado, disse Nilo Lopes, técnico da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE. “Se a gente analisar a política de crédito e a política de incentivo a setores, em relação ao ano passado, este ano a gente está numa situação um pouco mais desfavorável. O crédito está seguindo uma tendência bem menor que a do ano passado. Os incentivos que foram dados a veículos foram retirados, os que foram dados a outros setores diminuíram um pouco, as alíquotas que eram menores subiram um pouco”, lembrou Lopes.

Dos oito grupos pesquisados no varejo restrito (que não inclui veículos e material de construção), o único que registrou crescimento foi o de outros artigos de uso pessoal e doméstico. A alta foi de 0,3% em abril contra março, e de 16% em relação a abril de 2013. “Isso provavelmente é efeito da Copa”, disse o economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), explicando que é neste grupo que são contabilizadas as vendas de aparelhos de TV.

PIB negativo. A queda de 0,4% das vendas de varejo em abril ante março sinaliza que o Brasil está em estagflação, mistura de estagnação com inflação alta, e aumenta as chances de que o PIB poderá ficar negativo no segundo trimestre, caso esse ritmo no comércio seja mantido em maio e junho, disse Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina da Goldman Sachs.

Na avaliação de Ramos, embora não seja possível ainda prever como será o desempenho das vendas de varejo é possível avaliar que os negócios relativos a automóveis não deverão registrar um bom resultado em maio, devido às indicações já manifestadas pela Anfavea.

Segundo a entidade, as vendas de veículos, comerciais leves e ônibus no quinto mês de 2014 ficaram estáveis ante abril e registraram retração de 7,2% ante maio do ano passado.

Crescimento zero. O banco Itaú Unibanco divulgou na quinta-feira, 12, o resultado de seu PIB mensal Itaú Unibanco (PIBIU), que apresentou queda de 0,1% em abril na comparação com março, na série com ajuste sazonal. Na comparação com o quarto mês do ano passado, o PIBIU apresentou retração de 0,7%. No acumulado em 12 meses finalizados em abril, o PIB calculado pelo banco desacelerou a 2,1%, após alta de 2,8% em igual período terminado em março.

Com os resultados, o Itaú Unibanco estima que o PIB do segundo trimestre poderá ter variação zero. “Isto significa que se o PIB mensal se mantiver no nível atual, o segundo trimestre terá crescimento zero ante o primeiro, após ajuste sazonal”, disse em nota o economista da instituição Rodrigo Miyamoto. A principal colaboração negativa para a queda do PIBIU Veio da indústria de transformação que caiu 0,4% em abril ante março. (Colaboraram Ricardo Leopoldo e Maria Regina Silva)