Hélvio Romero|Estadão
Hélvio Romero|Estadão

Sem FGTS, varejo recua 0,5% em agosto

Na avaliação de analistas, queda reflete acomodação após um período de avanços

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 09h15

RIO - Depois de quatro meses de boas notícias, o varejo decepcionou em agosto, num movimento semelhante ao da indústria no mês. As vendas recuaram 0,5% em relação a julho, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de ter vindo aquém das expectativas, o movimento foi encarado por especialistas como uma mera acomodação após um período relevante de avanços, quando acumulou um ganho de 2,1%. Enquanto a queda na indústria foi mais concentrada e causada por fatores pontuais em agosto, como a menor produção de açúcar, a perda do varejo teve como principal motivador o fim dos saques de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Sem uma conjuntura que justifique uma relação entre o mau desempenho dos dois setores, o resultado do mês não altera o cenário de recuperação gradual nem as estimativas para o crescimento da atividade econômica, avaliam analistas.

“Para este ano de 2017, o cenário não muda mais, o varejo voltará a crescer, após três anos consecutivos de quedas. O comércio varejista teve uma perda de 20% de 2014 a 2016. Está terminando o inferno astral. Agora não tem mais a ajuda do FGTS, mas daqui a pouco terá liberação do PIS/Pasep e taxas de juros mais baixas no fim do ano”, lembrou Fabio Bentes, chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Na passagem de julho para agosto, apenas o segmento de móveis e eletrodomésticos escapou do vermelho. No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, foram esses dois segmentos que levaram o volume de vendas a uma ligeira alta de 0,1%.

“O resultado de agosto acaba sendo relativizado por ganhos do passado”, avaliou Isabella Nunes, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.

Embora o resultado não altere a perspectiva de que a economia está melhorando, o desempenho do comércio no mês pode conter os ânimos das expectativas mais otimistas para o crescimento econômico neste e no próximo ano, acredita o economista Luiz Castelli, da GO Associados.

“Pode esfriar um pouco as previsões de aumento de 4% do PIB de 2018 e também começa a ficar mais difícil crescimento de 1% este ano”, afirmou Castelli, que prevê expansão de 0,7% do PIB em 2017 e alta de 3,2% no ano que vem.

Na comparação com agosto do ano passado, as vendas do varejo cresceram 3,6% em agosto deste ano, o melhor resultado desde maio de 2014. O varejo ampliado cresceu 7,6%, a alta mais elevada desde fevereiro também de 2014.

“Além de uma base de comparação baixa, há também uma conjuntura melhor em relação a 2016”, ressaltou Isabella Nunes, do IBGE.

A pesquisadora citou o arrefecimento da inflação no último ano, além de uma ligeira melhora no mercado de trabalho, com avanço na ocupação, ainda que na informalidade, e estabilidade na massa salarial.

“O comércio começou a recuperar em abril, com o mercado de trabalho. Desde então todas as taxas foram positivas (na comparação com o mesmo mês do ano anterior), e essas altas estão cada vez maiores. O comércio está se recuperando, e cada vez mais rápido”, opinou Everton Carneiro, analista da RC Consultores.

A alta de 16,5% nas vendas de móveis e eletrodomésticos foi o melhor desempenho para o setor desde março de 2012, quando cresceu 20,9%. A atividade puxou o avanço do varejo no período.

“A base de comparação deprimida é reflexo de uma demanda deprimida. As pessoas deixaram por mais de dois anos de fazer gastos com esses bens que não eram essenciais”, avaliou a pesquisadora do IBGE.

No segmento de veículos, o crescimento foi de 13,8%. Em material de construção, o volume vendido subiu 12,6%. 

“O ano de 2017 até agosto foi melhor para as vendas do que 2016 e 2015”, concluiu Isabella Nunes. / COLABOROU THAÍS BARCELLOS

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