Tiago Queiróz/Estadão
Tiago Queiróz/Estadão

Vinícolas de São Paulo e Minas ‘renascem’ com prêmios

Medalhas em concursos importantes foram conquistadas graças a método desenvolvido na região por instituto de pesquisa mineiro, que inverte o ciclo de produção das uvas; colheita no inverno cria condições ideais para bebida de maior qualidade

Cristiane Barbieri | ENVIADA ESPECIAL A CALDAS (MG), O Estado de S. Paulo

03 Julho 2017 | 05h00

Os parreirais da região vinícola entre São Paulo e Minas Gerais voltaram a ser arrancados. Só que, ao contrário das últimas décadas, quando a derrubada de pés dos quais saíam vinho de garrafão dava lugar a pasto, agora eles têm virado lenha numa troca por cepas de uvas mais nobres, como syrahs, sauvignon blancs, cabernet sauvignons, cabernet francs, merlots, chardonnays e viogniers. 

É uma verdadeira corrida pela produção de vinhos finos – e pelo turismo enogastronômico – que disparou quando diversas vinícolas passaram a ser premiadas em concursos internacionais. Os prêmios mais recentes foram uma medalha de ouro e três de prata concedidas em maio à vinícola Guaspari, de Espírito Santo do Pinhal (SP) e uma de bronze à Maria Maria, de Três Pontas (MG), no World Wine Award 2017, da revista Decanter, em Londres. 

“Estávamos num ritmo forte de trabalho, mas agora tudo ficou frenético”, diz Eduardo Junqueira Nogueira Neto, da Maria Maria. “Nossos vinhos esgotaram, temos muita demanda por visitas, ao mesmo tempo em que estamos aumentando a área de produção e estudando a viabilidade de fazer nossa própria vinícola.” Detalhe: suas primeiras parreiras de vinho fino foram plantadas em 2009. A produção começou em 2015. O vinho premiado saiu da segunda colheita de sauvignon blanc. “O fato de vinhos tão jovens terem recebido destaque, ao lado de concorrentes do mundo todo, é muito promissor”, diz Marcel Miwa, especialista em administração e negócios do vinho e editor de vinhos da revista Prazeres da Mesa. 

Tamanha mudança começou a acontecer há 20 anos, quando Murillo de Albuquerque Regina, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em Caldas, resolveu testar uma ideia que apareceu durante seu doutorado, em Bordeaux. “Quando se coloca uma lupa nos lugares onde se fazem os grandes vinhos, percebe-se que são regiões nas quais o amadurecimento e a colheita das uvas coincide com dias ensolarados, noites frias e solo seco”, diz Regina. “O sol quente faz as uvas amadurecerem doces, o solo seco para o crescimento e joga a força para o fruto, em vez dos ramos, e a noite fria diminui o metabolismo da planta.”

Era exatamente o clima que encontrava na Varginha (MG) de sua infância, onde família e amigos produziam o café que dependia de dias quentes, noites frias e sem chuva. “Foi em 1998 que me atentei: temos o clima certo, na hora errada”, diz. Isso porque os parreirais dão frutos no verão, exatamente a época mais chuvosa no Brasil, que impede o amadurecimento adequado das uvas viníferas. Então pensou: “Temos de reverter o ciclo dessa planta.” E foi o que ele fez.

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