EFE
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Vitória da oposição na Grécia é 'golpe' contra receita de austeridade

Membros da Comissão Europeia se reúnem hoje para discutir o que exigir dos gregos para liberar nova parcela de ajuda

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE na Suíça, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2015 | 02h00

GENEBRA - A vitória do partido de extrema-esquerda na Grécia, o Syriza, causou uma onda de choque pela Europa e coloca uma pressão inédita para que a União Europeia repense a forma pela qual o continente superará sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, o bloco se reúne para debater qual será o destino do pacote de resgate para Atenas, que até agora exigia uma política de austeridade por parte dos gregos. Mas o tom usado pelo líder do partido, Alexis Tsipras, em seu discurso da vitória em Atenas deixou líderes europeus preocupados.

"O veredito do povo grego cancela os programas de austeridade e a troica é passado", declarou, em uma referência ao bloco formado pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

Os acordos da troica com a Grécia para o resgate do país estão suspensos desde dezembro, e partidos tradicionais em outras economias temem que o mesmo fenômeno se repita em seus países, com o avanço de novas forças políticas que questionem o modelo adotado desde 2008 para tentar, sem sucesso, superar a crise.

Na Comissão Europeia, a derrota de grupos tradicionais foi também considerada como um golpe contra seu receituário de austeridade que levou o continente a taxas recordes de desemprego e à estagnação da economia. Ontem, as instituições mantiveram o braço de ferro e foram unânimes em alertar: o novo primeiro-ministro grego só vai receber o restante do resgate financeiro se continuar no caminho das reformas.

A vitória ocorre no momento em que a Grécia renegociava uma extensão de seu segundo pacote de resgate, a partir de 28 de fevereiro. Agora, a esperança é de que o partido modere seu discurso antiausteridade e aceite negociar. Fontes ouvidas pelo Estado na UE apontavam que Tsipras não tinha opções: o país precisa de 28 bilhões em 2015 e só o resgate pode evitar que o país quebre. Mas o discurso desafiador de ontem abriu novas incertezas.

Hoje, em Bruxelas, ministros de Finanças se reúnem para tentar chegar a uma posição comum sobre o que exigir dos gregos para que novas parcelas do resgate sejam liberadas. Parte da UE estaria disposta a uma reestruturação mais suave da dívida grega. Mas Bruxelas alerta que não aceitará a nacionalização de empresas nem o fim do programa de privatizações, como prevê o programa da Syriza.

Contágio. Antes de embarcar para Bruxelas, o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, deixou claro que Berlim não aceitará continuar resgatando a Grécia se o novo governo de Atenas abandonar as reformas. O presidente do BC alemão, Jens Weidmann, reforçou o alerta. "Espero que o novo governo não ponha em dúvida as expectativas e o que se obteve até agora".

Governos nacionais que também adotaram medidas de austeridade já temem uma contaminação da vitória da extrema-esquerda. Ontem, partidos de Portugal, Espanha, Reino Unido, Irlanda e Itália festejavam os resultados em Atenas ao lado dos representantes da Syriza.

Um dos mais preocupados era o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy. O país terá eleições no fim do ano e a força política que mais ganha espaço é Podemos. O grupo adota posições similares às da Syriza e agora acredita que pode bater o tradicional Partido Popular na Espanha. Pablo Iglesias, líder do Podemos, respondeu ontem mesmo. "A esperança está chegando e o medo saindo", disse. "Gregos finalmente têm um governo, não um delegado de (Angela) Merkel." Rajov alertou: "Não podemos jogar o futuro de nossos filhos numa roleta russa de frivolidade e populismo".

Mesmo a Frente Nacional na França, de extrema-direita, tentou tirar proveito do resultado grego. Em Portugal, outro país socorrido pelo FMI, o Bloco de Esquerda também comemorou. "Os gregos deram uma lição de democracia à Europa", disse a coordenadora Catarina Martins.

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