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AP Photo/Richard Drew

Fator medo nos mercados globais

O maior problema que pesa sobre o mundo hoje é o abjeto fracasso da maioria dos países em promover reformas estruturais

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Kenneth Rogoff

16 Março 2016 | 09h30

A incrível volatilidade do mercado no ano passado decorre muito de riscos verdadeiros e incertezas sobre fatores como o crescimento chinês, bancos europeus e excesso de petróleo. Nos primeiros dois meses de 2015, muitos investidores entraram em pânico temendo que mesmo os Estados Unidos, com seu histórico de crescimento mais sólido do mundo, estivessem para entrar em recessão. De fato, entre os especialistas que participaram da pesquisa mensal do Wall Street Journal, 21% achavam que a recessão estivesse bem ali na esquina.

Não vou negar que haja riscos. Um impacto forte no crescimento da China ou no sistema financeiro europeu sugeriria que a economia mundial pudesse passar do crescimento lento para a recessão. Mais assustador ainda é o pensamento de que, no próximo ano, a presidência dos Estados Unidos vire um reality show de tevê.

Entretanto, de uma perspectiva macroeconômica, os fundamentos não estão tão ruins. Os índices de emprego são fortes, a confiança do consumidor é sólida e o setor petrolífero não é suficientemente grande, em relação ao PIB, para que um colapso nos preços do óleo ponha a economia dos EUA de joelhos. Na verdade, o mais subavaliado influenciador da sensibilidade do mercado hoje é o medo de uma nova crise gigantesca.

Há paralelos entre a inquietação atual e a percepção dos mercados na década posterior à 2.ª Guerra Mundial. Hoje e então, a procura por solidez é foi desproporcional (é claro que a repressão financeira também teve influência relevante depois da guerra, com os governos enfiando goela abaixo dos investidores privados débitos com taxas de juro abaixo daquelas do mercado).

Mesmo uma década inteira depois da 2.ª Guerra, quando o famoso economista John Kenneth Galbraith disse que o mundo poderia cair em outra depressão, os mercados entraram em parafuso. As pessoas ainda se lembravam de como as bolsas americanas despencaram 90% durante os primeiros anos da Grande Depressão. Nos anos 50, não era difícil imaginar que tudo desse errado de novo. Afinal, o mundo vinha de uma série de catástrofes, incluindo duas guerras mundiais, uma epidemia global de gripe e, claro, a própria Depressão.

As pessoas hoje não precisam ser lembradas de quanto e quão rápido as ações podem se desvalorizar. Após a crise financeira de 2008, as bolsas americanas caíram mais de 50%. Em outros países houve quedas ainda maiores: na Islândia, por exemplo, foi de mais de 90%. Não é de se estranhar, portanto, que com a recente queda do mercado batendo em 20%, muitos tenham se perguntado até onde ela iria – e se o medo de uma nova recessão poderia se tornar uma profecia autoalimentada.

A ideia é que os investidores estejam tão preocupados com a recessão, e com que as ações caiam demais, que os sentimentos negativos passem a se alimentar da economia real por meio de uma grande contenção nos gastos, levando à temida retração. Eles podem estar certos, mesmo que os mercados superestimem a própria influência na economia real.

Por outro lado, o fato de os EUA conseguirem ir em frente, apesar dos ventos contrários, sugere que a demanda interna é robusta. Mas isso não parece sensibilizar os mercados. Mesmo os investidores que permanecem cautelosamente otimistas sobre a economia dos EUA preocupam-se com que o Federal Reserve siga vendo o crescimento como razão para continuar aumentando os juros, criando enormes problemas para economias emergentes.

Há outras explicações, além do medo, para a volatilidade, claro. A mais simples é que as coisas estejam realmente más. Talvez os riscos individuais não sejam da mesma magnitude que nos anos 50, mas hoje são em maior número, e os mercados já partem de uma posição muito mais inflada.

Além disso, a globalização financeira aprofundou as interligações, ampliando a transmissão de choques. Há grandes bolsões de fragilidade nos mercados mundiais de débitos, com as moedas disfarçando problemas enraizados abaixo da superfície. Alguns responsabilizam a falta de liquidez nos mercados líderes pela forte flutuação de preços. Num mercado frágil, uma pequena mudança na demanda ou oferta pode, às vezes, exigir uma grande oscilação de preços para a restauração do equilíbrio.

A explicação mais convincente, no entanto, é ainda a de que os mercados estejam temerosos de que, quando riscos externos emergirem, políticos e responsáveis pela economia não conseguirão confrontá-los. De todas as fraquezas reveladas pela crise financeira, a paralisia política tem sido a mais profunda.

Alguns dizem que os governos não fazem o bastante para incentivar a demanda. Embora seja verdade, não é a história completa. O maior problema que pesa sobre o mundo hoje é o abjeto fracasso da maioria dos países em promover reformas estruturais. Com a produtividade global em marcha lenta, pelo menos temporariamente, e a população global em declínio no longo prazo, o lado da oferta, não a falta de demanda, é o verdadeiro obstáculo nas economias avançadas.

No longo prazo, é a oferta que determina o crescimento dos países. Se eles não conseguem fazer profundas reformas estruturais após uma crise, é difícil ver como o crescimento possa ocorrer. Conduzir o governo como um reality show de tevê, com um olho sempre no ibope, não resolve. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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