Melhora do ambiente de crédito é temporária, diz Nick Chamie

Chefe para emergentes do RBC Capital Markets afirma que nova deterioração global virá nos próximos meses

Patricia Lara, da Agência Estado,

08 Janeiro 2009 | 15h39

A melhora do ambiente de crédito no início deste ano, o que permitiu que o Brasil, Colômbia e outros países emergentes voltassem a captar recursos no exterior, é temporária e não deve se prolongar, na visão do chefe para mercados emergentes do RBC Capital Markets, Nick Chamie. "O que vimos nos últimos dias foi uma leve melhora, que refletiu alguns fatores técnicos, um melhor equilíbrio dos mercados acionários globais, o que ajudou no retorno da demanda nos mercados internacionais por alguns papéis de países emergentes", ressaltou, em entrevista para o AE Broadcast Ao Vivo, de seu escritório em Toronto, no Canadá.   Ouça a entrevista    "Mas, no entanto, essa situação será temporária. Em alguns meses, vamos experimentar uma nova deterioração do ambiente global, o que se alastrará para os mercados de crédito e de uma maneira significativa para os emergentes", previu o analista. "Não vejo os mercados muito abertos para emissões emergentes no final deste ano. Talvez, não vejamos nenhuma janela de abertura de grande proporção neste ano", disse.   Para Chamie, os países emergentes enfrentarão a concorrência acirrada com títulos de dívida de países industrializados. "Os governos do G-7 devem, provavelmente, triplicar suas necessidades governamentais de financiamento em 2009, em relação ao ano passado", projetou. "Só como indicativo desse ambiente, em relação às necessidades de financiamento dos EUA e dos países da Europa Ocidental, o volume de captações dos governos deve subir de US$ 1 trilhão, no ano passado, para US$ 3 trilhões neste ano. É um aumento de US$ 2 trilhões, que deve provocar um direcionamento muito do dinheiro que estava, previamente, disponível para outros ativos, como emergentes", avaliou.   "Isso combinado ao fato de que várias companhias europeias ficaram de fora do mercado, esperando uma situação melhor para rolarem suas dívidas, haverá uma competição muito severa para uma quantidade de recursos disponíveis muito menor nos mercados internacionais", afirmou. Por isso, os mercados emergentes devem ter pouco espaço para captações.   Alocação   Chamie afirmou que, no momento atual, ainda é muito cedo para que os investidores voltem a alocar recursos em mercados emergentes. "Ainda veremos mais desdobramentos negativos da crise global de crédito, da recessão que está afetando o mundo, o colapso dos preços das commodities. Todos esses fatores vão continuar pesando nos mercados emergentes. Acredito que há ainda uma quantidade potencial de dados negativos, assim como pressões adicionais no mercado financeiro global", afirmou.   Quando os investidores decidirem retornar aos mercados emergentes, o que deve demorar algum tempo, o Brasil, na visão de Chamie, não figuraria como um dos países que estariam em melhor posição para absorver esses recursos. "Os países com fundamentos mais fortes estarão melhor posicionados, como o Chile, México, países do Leste da Europa, como Polônia, e China e Coreia do Sul", declarou Chamie, ressaltando que esses países estão em destaque, desde que mantenham políticas econômicas estáveis.   Para Chamie, o Brasil está melhor posicionado do que estava no passado, mas precisa manter suas políticas daqui para a frente para garantir um lugar de destaque quando os recursos retornarem para emergentes. "Nos últimos anos, o Brasil conseguiu poupar uma boa parte dos recursos herdados do boom das commodities, e houve avanços no lado fiscal para reduzir a vulnerabilidade da dinâmica de sua dívida, com redução da fatia do endividamento em dólar. Como resultado, o Brasil está melhor posicionado do que no passado", ponderou. "Mas, olhando à frente, o importante é que o País não mude dramaticamente suas políticas."   A Argentina e a Venezuela são os países da América Latina que teriam um risco maior de declarar default de suas dívidas, mantidas as condições atuais de restrições de fluxo de capital e turbulência financeira, na visão do chefe para mercados emergentes do RBC Capital Markets.   "No momento atual, acho que o que ocorre entre os emergentes é uma questão mais de desejo de pagar do que de capacidade de pagamento de suas dívidas", afirmou. "Esse foi o caso do Equador."   "Mas olhando o cenário perspectivo. Eventualmente, a Argentina é um risco. "O governo lá está tomando várias medidas econômicas pouco amigáveis para os investidores, elevou o risco." "E podemos ver a Venezuela declarar um default também, caso os preços do petróleo se mantenham nos níveis atuais."   Há pouco, os contratos futuros do petróleo WTI cediam 1,15%, para US$ 42,10 por barril, após despencarem mais de 12% ontem, na Nymex.   PIB brasileiro   Chamie prevê crescimento de 2% ou até abaixo desse nível para o PIB brasileiro em 2009. "No próximo ano, o PIB pode apresentar um resultado melhor. Mas ainda será, relativamente, fraco", disse. "Não veremos logo um retorno ao ritmo de crescimento dos últimos anos."     Quanto à situação da Petrobras, o analista ponderou que a empresa é forte, bem administrada e profissional. "Na minha visão, a companhia deve ir ao mercado com a emissão de títulos neste ano", afirmou. "A companhia tem vários grandes projetos e o governo, certamente, os considera uma prioridade."   "O quanto eles serão capazes de captar do governo e quanto precisarão do mercado externo e do segmento de títulos, ainda precisamos ver", comentou. "Provavelmente, eles não sabem quais são as necessidades exatas. Devem adotar uma abordagem de esperar para ver", afirmou. "No entanto, com o preço do petróleo, eles podem desacelerar seus planos de investimentos. Mas, no longo prazo, a companhia vai continuar gastando."   No início da semana, a imprensa brasileira publicou, com base em informações de fontes, que a Petrobras mantinha a perspectiva de captar no mercado entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões, segundo relato de dois banqueiros.   Quando avalia os riscos de default de companhias brasileiras, Chamie continua se fiando nos níveis de rating das agências de classificação de riscos da Standard & Poor's e Moody's, mesmo após as críticas à incapacidade desses grupos em identificarem os riscos subliminares de alguns papéis lastreados em ativos, cujos valores despencaram.   "As companhias com ratings mais baixos, com notas B ou BB, são mais arriscadas do que as companhias com grau de investimentos. Essas companhias com níveis mais elevados de endividamento e sem grande quantidade de geração de fluxo de caixa livre são as mais arriscadas", considerou.   "Estamos recomendando aos nossos clientes que mantenham posição só nos ativos de boa qualidade, que vendam em circunstâncias de fortalecimento e levantem recursos para se prepararem para os tempos difíceis de 2009 e, provavelmente, para 2010", comentou.

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