GP e Sam Zell negociam compra de ativos da Gafisa
Ações da construtora, que perderam dois terços do valor em 2011, tiveram recuperação com notícia de retorno de antigos sócios
A construtora Gafisa confirmou ontem, em fato relevante, que está negociando a venda de ativos para dois "gigantes" do setor de private equity: a Equity International, do megainvestidor americano Sam Zell, e a GP Investimentos. A companhia disse que o negócio está sendo "examinado pela administração".
Como a Gafisa é uma empresa "sem dono", com sociedade altamente pulverizada, uma compra de controle pelos fundos não faria sentido. Além disso, os potenciais sócios já tiveram participação relevante na construtora e deixaram a companhia, realizando lucro (leia mais ao lado).
O que está sendo negociado agora, segundo fontes ouvidas pelo Estado, é a venda de ativos da Gafisa e da Tenda (braço de moradias populares do grupo) para a GP e o investidor Sam Zell. As negociações foram reveladas ontem pelo Portal Exame. A marca Alphaville, que está com a Gafisa há cinco anos, ficaria de fora do acordo. Procuradas para comentar o assunto, a gestora de recursos informou que, por enquanto, não se pronunciaria sobre o tema. A Equity International não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.
Analistas do setor de construção dizem que, no momento atual, "qualquer negócio" é interessante para a Gafisa. As ações do setor de construção civil caíram, em média, 43% no ano passado na bolsa.
O baque, no entanto, foi pior para a Gafisa: as ações da companhia perderam 66% em 2011. "O negócio é uma boa notícia para o setor como um todo. É sinal de que não vão deixar a empresa agonizar", diz o executivo de uma concorrente, que pediu para não ser identificado.
Como o mercado estava ávido por boas notícias sobre a construtora, a mera possibilidade da entrada de um novo sócio, mesmo com a compra de ativos selecionados, foi suficiente para alimentar as esperanças de investidores. Somente no pregão de ontem da BM&FBovespa, a ação da Gafisa teve alta de 5,74%, fechando o dia cotada a R$ 5,34. No acumulado de 2012, a valorização do papel já chega a 29%, a partir de um patamar baixo (R$ 4,12). No fim de 2010, o papel da Gafisa valia mais de R$ 12.
Fundamentos
A euforia dos últimos dias em relação à Gafisa não corresponde, segundo analistas, à realidade dos fundamentos da empresa. Das três marcas que compõem a construtora - Gafisa, Tenda e Alphaville -, somente a última, dedicada a loteamentos de alto padrão, apresenta resultados financeiros realmente saudáveis. "Acho que faltou um pouco de sangue frio dos investidores. Não vejo razão para correr para a Gafisa", disse o analista de um grande banco.
Os resultados relativos ao ano passado já divulgados mostram uma deterioração das margens da empresa. O lucro líquido caiu 67% entre janeiro e setembro de 2011, em relação ao ano anterior, e o nível de endividamento da construtora superava 75% do patrimônio líquido ao fim do terceiro trimestre.
Uma das medidas para evitar a "sangria" de recursos foi praticamente suspender os lançamentos da problemática operação da Tenda. Entre julho e setembro de 2011, foram lançados apenas dois empreendimentos com a marca Tenda, com 324 unidades e valor de venda de R$ 49 milhões - redução de 90% em relação a 2010. E a própria empresa já admitiu que o corte pode ser ainda mais profundo em 2012. Novos negócios só devem sair com garantia de financiamento da Caixa.
A "joia da coroa" para a Gafisa continua a ser a marca Alphaville. Por causa dos bons resultados, a Gafisa prevê expandir os loteamentos para mais 60 cidades em cinco anos. No entanto, a construtora tem uma obrigação referente à operação Alphaville para vencer. O contrato de compra previa que a companhia pagaria 60% à vista e os demais 40% em duas parcelas, em valores atualizados. A conclusão da aquisição exigirá, segundo apurou o Estado, desembolso de até R$ 20 milhões no mês que vem.
Um dos problemas para a Gafisa virar o jogo é a maturação de projetos de construção civil, que é longa. Quem entende de construção afirma que, mesmo com novos sócios, a "desova" de projetos problemáticos dificilmente poderá ser feita em menos de um ano e meio ou dois anos.
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