Google, na crise da meia-idade
No esforço de impedir que a empresa envelheça, Larry Page fecha projetos e tenta deixá-la mais ágil
NOVA YORK - Larry Page, diretor executivo do Google, detesta tanto perder tempo em reuniões que certa vez despediu a secretária para não ser escalado para elas. E também não gosta de e-mails, nem mesmo do seu próprio Gmail, dizendo que este tedioso método de conversar leva tempo demais para solucionar problemas.
Page nunca esteve mais impaciente do que agora. Tem a urgente missão de trabalhar para fazer sua empresa sobreviver a uma crise de meia-idade. Fundado em 1998, o Google não tem ainda 15 anos, mas em termos tecnológicos é um gigante que está envelhecendo, que se move muito mais lentamente que outrora, quando era uma empresa nova muito mais ativa.
Está perdendo funcionários para empresas recém-abertas e vem sendo ameaçado por órgãos reguladores governamentais - além de concorrentes como Facebook, Apple e Amazon.
Assim, Page - cofundador da Google e ex-diretor executivo da empresa que retornou ao posto em abril - vem realizando mudanças grandes e pequenas. Fechou mais de 25 projetos, alegando que não eram populares. Planejou e organizou a maior aquisição feita pelo Google, a da Motorola Mobility, por US$ 12,5 bilhões, uma decisão que coloca a empresa em posição de entrar na área do hardware.
Inspirado em executivos como Steve Jobs e o prefeito de Nova York Michael Bloomberg, ele imprimiu sua marca pessoal na cultura corporativa, desencorajando o uso excessivo de e-mails e até adotando um processo decisório em que as medidas são tomadas rápida e unilateralmente - por ele, se necessário.
"Desde que assumi a presidência, tenho concentrado grande parte de minha energia em melhorar a velocidade e o desempenho da empresa, e começamos a ver resultados", disse Larry, hoje com 38 anos, a analistas.
Os negativistas se queixam de que o seu ímpeto para dar um novo foco à empresa, especialmente no caso dos projetos fechados, pode colocar em risco a inovação, marca registrada do Google. Segundo eles, as pesquisas na companhia fervilham justamente porque os engenheiros têm tempo para fazer experimentos. "Ele vai acabar perdendo algumas pessoas", disse um funcionário que, como outros, pediu para não ser identificado.
"Com certeza, Page está muito ativo", disse Mark Mahaney, analista do Citigroup. "Seguirá ativo e bem sucedido? Isso não sabemos".
50 minutos. As novas responsabilidades mudaram Page, engenheiro de profissão e de personalidade. A julgar pelas poucas aparições em público, ele aprendeu a usar a linguagem corporativa para falar com acionistas e analistas, embora, no geral, ainda recuse conversar com a imprensa.
Mas Larry até cedeu e acabou contratando uma assistente administrativa, depois de demitir a anterior anos atrás. Ela é quem marca as assustadoras reuniões. Mas os encontros duram apenas 50 minutos, já quem em um dos seus primeiros memorandos, logo que assumiu o posto, Larry determinou que reuniões de uma hora têm que ter pausa no meio para ir ao toalete.
Apesar das muitas pressões externas que o Google tem sofrido, a empresa é dominante no seu setor e altamente lucrativa. Mas, indagado numa recente conferência sobre a maior ameaça à sua companhia, Larry Page respondeu de pronto: "o Google".
O problema é que a empresa cresceu tão rapidamente - hoje tem mais de 31 mil empregados e uma receita de US$ 27,3 bilhões até agora, neste ano - que ficou esclerosada. O trio formado por Larry Page, Sergey Brin e Eric Schmidt, atual chairman e ex-diretor do Google, precisou chegar a um consenso antes que alguma coisa pudesse ser feita. A administração rígida e o ritmo glacial do processo decisório eram notórios no Vale do Silício, onde empresas recém-abertas alcançam gigantes em meses.
Agora é diferente. "É muito mais o estilo Steve Jobs do que o monstro de três cabeças que era o Google", disse um ex-executivo que também pediu para não ser identificado. "Quando Eric estava lá, você ia a uma reunião de produto ou a um encontro do alto escalão e todos tinham peso em cada decisão. Larry está mais predisposto a adotar uma decisão boa na hora, em vez de tomar uma perfeita mais tarde".
As mudanças começaram uma semana após Page assumir a nova função. Ele racionalizou a estrutura da empresa e enviou o e-mail falando das reuniões. Passou a exigir que os executivos aparecessem na sede para um encontro informal pelo menos uma vez por semana para analisar as decisões, ideia que pegou de Michael Bloomberg.
Segundo Salar Kamangar, vice-presidente sênior do YouTube, Larry forçou-o a solucionar pessoalmente uma questão que vinha discutindo por e-mail. "Ele nos chamou no seu escritório e só saímos da sala quando resolvemos as divergências", disse.
Embora Page seja mais atento a detalhes que Eric Schmidt - como sugerir uma coluna maior para o login na página oficial do Gmail -, ele também incentiva os empregados a pensar grande. "Ele tentou nos fazer retroceder para ter certeza de que os assuntos de longo prazo não seriam engolidos por pequenas mudanças adicionais", diz Kamangar.
Riscos. A mudança mais significativa na companhia é a eliminação de projetos que Page não considera de valor. Uma das iniciativas abandonadas por ele foi o Google Buzz - uma ferramenta de rede social que não vingou.
Alguns funcionários se sentiram frustrados ao descobrir que não se enquadram mais nos planos de Page. Por isso o Google corre o risco de perder seu próximo negócio antes de ter tempo para crescer, conforme dizem alguns funcionários. O Gmail, por exemplo, se desenvolveu a partir do tempo que a empresa dá aos engenheiros para que experimentem novas ideias - o chamado 20% Time. Com isso, eles podem dedicar 20% do horário de trabalho a atividades nas quais têm interesse. "É um risco que vale a pena e mostra uma empresa mais madura", disse Brin, em entrevista recente. "O problema é que lançamos recentemente alguns serviços mais medíocres, honestamente", acrescentou. "Não queremos ficar com um volume complicado de operações boas, mas não excelentes."
Larry Page, entretanto, continua bastante popular entre os seus subalternos, principalmente porque ele tem credibilidade no meio, disse um funcionário.
Mas não tem tanto êxito no mundo lá fora e Eric Schmidt continua sendo a face pública do Google em muitas instâncias, em conferências e perante o Senado, por exemplo.
Page, porém, tem mostrado cordialidade nas teleconferências sobre resultados a que estão obrigados os diretores executivos. Em uma delas, recentemente, seu longo discurso começou com "estou entusiasmado em participar desta conferência."
E também vem sendo obrigado a se ajustar a outros aspectos da função de presidente, como ter todo seu tempo tomado.
Algumas das poucas postagens pessoais em seu Google + público são de fotos tiradas de quando praticou kitesurfing em uma viagem ao Alasca. "São fotos de algum tempo atrás", escreveu. Aparentemente, no momento, Page tem tido pouco tempo para hobbies. / TRADUÇÃO: TEREZINHA MARTINO
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