A Internet das Coisas

A época da Internet ser sinônimo de rede de computadores acabou: chegou a hora de tudo e todos estarem conectados

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 05h31

O prefixo “inter”, de origem latina, pode ser traduzido como algo que une elementos, algo que está “entre” esses elementos. A palavra “net”, em inglês, quer literalmente dizer “rede”. Ou seja, a “internet” é a tecnologia que permite a conexão de diversas redes diferentes, colocando-se em uma posição intermediária - ou de integração - entre elas.

A origem do que conhecemos como Internet (com “i” maiúsculo) está na década de 60, nos Estados Unidos. O governo (e em particular o Departamento de Defesa) precisava de uma rede descentralizada, evitando que um ataque a um ponto central derrubasse toda estrutura de comunicação entre os computadores da época. As pesquisas iniciais culminaram com a ARPANET (Advanced Research Projects Agency Network, ou Rede da Agência de Projetos de Pesquisa Avançados), precursora da Internet atual, que no final de 1969 conectava quatro computadores - um na Universidade da Califórnia em Los Angeles, um no Instituto de Pesquisas de Stanford, um na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e outro na Universidade de Utah.

A evolução dos protocolos de comunicação e interoperabilidade expandiram a rede, que se manteve restrita aos ambientes acadêmico e militar até o início dos anos 90. De lá para cá, a Internet - que conecta diversas redes de computadores espalhadas pelo planeta - tornou-se parte integrante e fundamental da vida de bilhões de pessoas, formando a infraestrutura básica do mundo moderno.

Durante muito tempo, os únicos elementos que compunham a Internet eram os computadores - algo esperado, uma vez que a mesma foi definida e projetada assim e que a capacidade de integração necessária estava restrita a esses equipamentos. Mas teoricamente (e simplificando um pouco o problema), qualquer dispositivo capaz de “falar” o protocolo da Internet (Internet Protocol, ou simplesmente IP) poderia ser conectado à essa rede de comunicações global: bastava estruturar e organizar a transmissão das informações em “pacotes” digitais e endereçar corretamente cada um deles. Foi exatamente o que os pioneiros da tecnologia de voz sobre IP - ou VoIP - fizeram no início dos anos 90, desenvolvendo telefones que, ao invés de se conectarem à rede de telefonia tradicional já existente (com elevado custo para ligações internacionais), eram ligados na mesma rede de dados que os computadores.

Ao longo das duas décadas seguintes, a expansão das redes de banda larga e acesso cada vez mais universalizado à Internet, aliados ao desenvolvimento de sensores e circuitos de conexão sem fio de baixo custo permitiram que um novo e gigantesco mercado fosse criado, com nome e sobrenome: a Internet das Coisas (ou Internet of Things - IoT).

Qualquer equipamento (ou componente de equipamento) passou a ser considerado como um elemento com potencial para ser adicionado à Internet. Desde aparelhos de uso doméstico e pessoal - carros, motos, geladeiras, câmeras, máquinas de lavar, ar condicionados, luminárias, cafeteiras - até máquinas pesadas, como motores de aviões, locomotivas, sondas de perfuração - passando por dispositivos integrados a seres vivos (pessoas, animais selvagens, gado, plantações e florestas). Todos esses elementos podem agora enviar informações em tempo real para qualquer parte do mundo, sendo analisadas por algoritmos desenvolvidos especialmente para este fim e capazes de lidar com quantidades inimagináveis de dados.

A consultoria Gartner estima que em 2016 cerca de 6,4 bilhões de unidades estavam conectadas à Internet, e que esse número irá ultrapassar 20 bilhões em 2020 - e há quem fale em mais de 100 bilhões. Trata-se de uma complexa rede que vai conectar pessoas e máquinas de forma eficiente em todos os ambientes. Como a IoT já está impactando indústrias, cidades e o cotidiano, e quais as possibilidades futuras criadas por esse fenômeno são os temas para semana que vem. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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