A personalização da Medicina

Exames, diagnósticos e tratamentos com base no perfil genético individual do paciente já são uma realidade, gerando mais eficiência e menos sofrimento

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2017 | 05h03

De acordo com dados da consultoria Frost & Sullivan, as receitas geradas ao redor do mundo pelos participantes do setor de saúde já superam US$ 1,5 trilhões - algo equivalente ao PIB do Canadá. Estes valores incluem os resultados de empresas farmacêuticas, de biotecnologia, fabricantes de dispositivos médicos, de monitoramento e de imagens, produtores de diagnósticos laboratoriais e firmas de tecnologia da informação dedicadas ao segmento.

 

Conforme discutimos anteriormente, com o aumento da expectativa de vida da população e a redução significativa no número de mortes por doenças contagiosas, o maior foco de atenção será em doenças crônicas e associadas ao envelhecimento. A fusão entre Tecnologia e Saúde é inevitável, não apenas em função dos custos associados a internações e tratamentos, mas em função da própria natureza da atividade médica do século XXI, na qual a prevenção torna-se estratégia central.

 

Em função do tamanho do mercado, da aplicabilidade, da importância e da viabilização econômica de determinados tipos de equipamentos laboratoriais, empreendedores com foco em inovação estão engajados em criar empresas, produtos e serviços para o setor de saúde. Já falamos aqui dos dispositivos vestíveis, os "wearables", que permitem o monitoramento de diversos indicadores. Mas trata-se apenas de um dos segmentos de atuação de uma nova safra de profissionais que promete revolucionar esta indústria trilionária.

 

Com exposição a um número ilimitado de informações, imagens e vídeos, os pacientes de hoje são bem diferentes daqueles de apenas alguns anos atrás: dados que antes eram acessíveis apenas em publicações especializadas são tópicos de discussão com o(a) médico(a). Diversas empresas estão desenvolvendo soluções para organizar, disponibilizar e otimizar o fluxo de dados entre pacientes, profissionais, laboratórios e clínicas. Além da necessidade de padronização dos dados, uma das questões mais importantes é a segurança das informações: registros médicos estão entre os dados mais pessoais e sensíveis de cada indivíduo. 

 

Individualização, por certo, é uma das palavras-chave para o futuro da Medicina. Testes genéticos - como aqueles fornecidos pela empresa "23 and Me" - já podem ser realizados para detectar se o paciente possui predisposição para desenvolver determinados tipos de doenças ao longo da vida, permitindo um mapeamento mais robusto de seu perfil e exames preventivos direcionados - embora seja importante ressaltar que os resultados destes exames são apenas uma referência, e não um diagnóstico clínico definitivo. O número 23, que dá nome à empresa, refere-se aos 23 pares de cromossomos presentes nas células humanas. Avanços em bioquímica também aumentam a precisão e a quantidade de informações que podem ser obtidas a partir de amostras sanguíneas, enquanto o uso de técnicas de inteligência artificial em imagens aumenta a velocidade e a precisão do diagnóstico de quaisquer anomalias detectadas. 

 

Em um artigo escrito por pesquisadores da Google e de diversas universidades, publicado em dezembro de 2016 no Journal of the American Medical Association, foram apresentados resultados animadores sobre uma nova técnica para detectar sinais de retinopatia diabética. Esta doença pode causar cegueira se não for tratada, e o número de médicos suficientemente especializados em analisar as imagens das retinas dos pacientes é limitado. A equipe de pesquisadores desenvolveu um sistema baseado em machine learning, que foi "ensinado" a reconhecer os sinais prematuros da doença e sinalizar a necessidade de tratamento - e sua taxa de acerto, testada em milhares de casos, ficou em linha com os profissionais especializados que foram consultados.

 

Mas mesmo quando a medicina não consegue impedir uma condição que gere uma deficiência - seja por causas genéticas ou por acidentes, seja física ou mental - a tecnologia também está presente para auxiliar e melhorar a qualidade de vida da pessoa afetada. As chamadas tecnologias assistivas são nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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