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A rede da ‘polêmica’ Estátua da Liberdade

Marina Gazzoni, enviada especial de O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2013 | 07h 30

Sediada em Brusque (SC) e com receita de R$ 2 bi, a varejista Havan está chegando ao interior de SP e já planeja dobrar de tamanho até 2015

BRUSQUE E CRICIÚMA (SC) - Era uma manhã de sábado e sob uma temperatura de 10 graus, debaixo de chuva, pelo menos 100 pessoas esperavam na rua para acompanhar a inauguração de uma nova loja de departamentos na cidade de Criciúma (SC). O proprietário, Luciano Hang, abriu as portas e recebeu os clientes com um coral de crianças que usavam uma bandana da rede na cabeça.

A abertura da loja, no último dia 10, é mais uma etapa do agressivo plano de expansão de uma varejista ainda desconhecida em São Paulo, mas que vem ganhando espaço fora dos grandes centros. Inaugurada em 1986 como uma atacadista de tecidos em Brusque (SC), a Havan é hoje uma rede com 57 unidades e receita anual de R$ 2 bilhões.

 Vestindo camiseta e jaqueta pretas estampadas com o logotipo da empresa, Hang coordenou todos os detalhes da festa. "O aeroporto abriu? Veja se dá para trazer a Luciana Gimenez à tarde", dizia o empresário ao telefone, entre uma foto e outra com clientes e autoridades locais.

Às 13h, o helicóptero com a apresentadora do programa Super Pop, da Rede TV, patrocinado pela Havan, pousou no pátio da loja de Criciúma, ao lado de uma estrutura metálica ainda em construção, que receberá uma réplica de 35 metros de altura da Estátua da Liberdade, o símbolo da varejista.

Em algumas cidades, a estátua causa polêmica: em Bauru, abaixo assinado pede a sua retirada

Expansão. É assim, fazendo barulho, que a Havan pretende deixar de ser uma rede regional para crescer em todo o Brasil. A meta da empresa é chegar a 100 unidades até 2015. Cada uma delas consumirá entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões em investimentos – dinheiro que vem de recursos próprios e de financiamentos.

"Abrimos uma loja a cada 15 dias. Chego a visitar dez cidades em uma semana", conta Hang, que, entre os dias 5 e 10 de agosto, esteve em Sorocaba, São José dos Campos, Bauru, Anápolis, Goiânia e Brasília, antes de pousar seu jato em Criciúma.

Das 57 lojas da Havan, 23 estão em Santa Catarina. A primeira fora do Estado foi inaugurada em Curitiba, em 1995. A expansão além da Região Sul começou no ano passado. Hoje, a empresa também tem unidades no interior de São Paulo, no Mato Grosso do Sul, no Mato Grosso e em Goiás.

A proposta da Havan é vender de tudo no mesmo espaço: roupas, eletrodomésticos, ferramentas, copos, cosméticos, brinquedos. "É como um shopping, mas é mais barato", garante o dono. As lojas oferecem, em média, 100 mil itens. A maior delas, em Brusque, ocupa 35 mil metros quadrados. "É a maior loja do varejo brasileiro", diz Hang.

A expansão da Havan é uma estratégia de sobrevivência, explica o consultor Claudio Felisoni, presidente do conselho do Programa de Administração do Varejo (Provar/Ibevar). Como as grandes varejistas tendem a vender os mesmos produtos, o mercado é de margens reduzidas e as companhias precisam de escala para lucrar. "A tendência no varejo é de baixa rentabilidade e alto giro. Para sobreviver, as empresas precisam de musculatura", avalia.

No caso de redes regionais, a alternativa é ganhar porte nacional, como fez a Magazine Luiza, por exemplo, ou se unir a um grupo maior, como fez a também catarinense Salfer, vendida à Máquina de Vendas. "Se ficar limitada a uma região, um dia a empresa vai fechar", diz Felisoni.

Transformação. A Havan não nasceu no varejo. Assim como muitos empresários de Brusque, Hang trabalhou na indústria têxtil como vendedor da Tecidos Carlos Renaux, empresa centenária que foi à falência no mês passado. Em 1986, abriu uma loja de 45 metros quadrados para vender tecidos no atacado. "Desenrolávamos tecidos na calçada por falta de espaço", lembra.

A marca Havan é a união do sobrenome Hang com o nome Vanderlei, sócio da empresa na década de 80. Ele vendeu sua participação no negócio em 1991, depois de discordar dos planos de Hang para a ampliação da loja. Vanderlei de Limas queria trabalhar com "os pés no chão" e manter um estoque modesto. Luciano Hang era mais ousado. "Decidimos desfazer a sociedade, dividindo o estoque da loja", conta Limas, que até hoje vende tecidos no atacado em Brusque.

Hang aproveitou a abertura comercial do Brasil nos anos 90 para trazer produtos importados ao País e oferecer na sua loja. Assim, aos poucos, a Havan foi passando de atacadista de tecidos para uma loja de departamento. "Mudei porque vi que o atacado de tecidos não tinha mais futuro e enxerguei outras oportunidades", diz Hang.

Empreendedor nato, o catarinense já abriu fábricas de toalhas, malharias e até montou uma empresa de distribuição de produtos importados para lojas de R$ 1,99 durante a viagem de lua de mel. "Estávamos no aeroporto da África do Sul e ele começou a negociar com empresários que conheceu na hora", conta a mulher Andrea, casada com Hang há 18 anos.

Hoje, além da Havan, ele é dono de postos de combustível e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Totem da discórdia. Antes de criar a rede de lojas, o empresário se viu obcecado em encontrar um padrão arquitetônico para o negócio. "A loja tem de ser chamativa e ter personalidade", diz Hang. A inspiração veio da admiração que ele tem pelos Estados Unidos – país que visitou pela primeira vez em 1989 – e pela cultura empreendedora dos americanos.

Em 1994, a Havan abriu um novo formato de loja em Brusque em um prédio inspirado na arquitetura da Casa Branca, a residência oficial do presidente dos EUA. Na inauguração da loja, uma criança de 7 anos disse a Hang que, para o prédio ficar perfeito, só faltava a Estátua da Liberdade.

O empresário gostou da ideia e colocou uma réplica da estátua americana no local dois anos depois. Desde então, sempre que encontra espaço no terreno, manda construir o monumento. "A estátua acabou virando meu totem", diz Hang.

O símbolo da Havan, no entanto, está longe de ser uma unanimidade. Em algumas cidades, ele virou motivo de polêmica. Moradores de Bauru, onde a rede abriu sua primeira loja no fim de junho, chegaram a organizar um abaixo-assinado pedindo a retirada da estátua.

O movimento, no entanto, parece não ter ido adiante. A prefeitura informou que, até agora, não recebeu nenhuma petição. O organizador do abaixo-assinado, o advogado Fabio Galazzo, disse que a história "já deu o que tinha que dar" e não quis comentar o caso.

A estátua, portanto, fica. "Uns gostam, outros não. Em Bauru, muitas pessoas me apoiaram na rua e disseram que a estátua é linda. Vários prefeitos me pedem para levar a estátua para suas cidades. Vira ponto turístico", diz Hang.

A polêmica envolvendo a Estátua da Liberdade em Bauru não foi o único percalço de Hang no processo de levar a rede para além das terras catarinenses. O pedido da Havan de incentivo fiscal para investir no Mato Grosso foi questionado pelo deputado estadual Ademir Brunetto (PT), que deu início a um bombardeio do varejo local e de sindicatos contra a empresa. "Não concordo com a concessão de incentivos fiscais para o varejo, só para a indústria. A loja vai gerar empregos, mas vai quebrar o comércio local, que também emprega e não recebe desconto fiscal", disse o deputado.

Polêmica. Para desqualificar a empresa como beneficiária de incentivos fiscais, Brunetto trouxe à tona uma condenação de Hang em 2008 por sonegação fiscal na Vara Federal Criminal de Florianópolis – a empresa está recorrendo.

O processo movido pelo Ministério Público Federal questionou uma remessa feita pela empresa ao exterior em 1997. Há uma condenação em primeira instância, mas a empresa recorreu e a ação corre em segredo de Justiça. "Não há ilegalidade e estamos contestando. Somos grandes pagadores de imposto. Só neste ano vamos recolher R$ 500 milhões no Brasil inteiro", esclarece Hang.

Após o episódio, a Havan colocou na geladeira o projeto de abrir uma loja na cidade de Alta Floresta, base eleitoral do deputado Brunetto. "Não vamos para cidades onde não somos bem recebidos", diz o empresário. O secretário adjunto do Desenvolvimento do Mato Grosso, Valerio Gouveia, afirma que o governo do Estado ainda avalia o pedido.

Em Goiás, a Havan conseguiu benefícios fiscais para abrir seis lojas e um centro de distribuição, com investimento estimado em R$ 175 milhões.

Para o consultor em varejo Claudio Felisoni, o grande desafio da empresa agora será chegar a grandes cidades, como Rio e São Paulo. "Lá o custo do aluguel é alto e o conceito de grandes lojas não funciona bem."

A empresa, por enquanto, ainda não tem planos para as capitais paulista e carioca, mas está com um projeto agressivo para o restante do País. "Já estamos consolidados no nosso Estado", diz o empresário. "Santa Catarina é grande, mas o Brasil é um continente."

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