A terceirização da memória

O acesso constante à tecnologia vem acompanhado por uma perigosa dependência, causando impactos relevantes no processo de aprendizado

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 05h04

A chamada Geração Z - formada pelos nascidos a partir da metade da década de 90 e que começam a chegar ao mercado de trabalho - encontrou um mundo repleto de tecnologias bem estabelecidas porém relativamente novas para as gerações anteriores. Para este grupo, smartphones, tablets, wi-fi, "likes", "compartilhamentos" e informações em tempo real são pilares fundamentais da sociedade, e em grande medida a forma como se relacionam entre si e com todos à sua volta. Sua confiança e dependência em relação à tecnologia é tão significativa que poucos se dão ao trabalho de memorizar qualquer coisa - afinal, o smartphone está sempre ao alcance das mãos (normalmente, nas mãos) e a partir dele nenhum dado está longe demais. Coisas simples, como números de telefone, há muito tempo pararam de ser memorizadas - está tudo na agenda do celular. De fato, a memória foi "terceirizada" para as máquinas que nos cercam. 

Este fato tem implicações relevantes e que ainda estão sendo pesquisadas. Em dezembro de 2013 a Dra. Linda Henkel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Fairfield em Connecticut, Estados Unidos, publicou um trabalho de pesquisa a respeito do impacto na memória do uso constante de fotos. Em seu estudo, ela visitou um museu com um grupo de estudantes, pedindo que alguns objetos de arte fossem fotografados e outros não. A conclusão foi pouco intuitiva: as memórias referentes aos detalhes e localização dos objetos que não foram fotografados eram melhores que as memórias daquilo que foi fotografado. No entanto, quando ao invés de fotografar o objeto como um todo a foto tinha como foco algum detalhe específico,  a memória daquele objeto em particular era mais vívida. Além disso, a noção de que as fotos que tiramos irão nos ajudar a lembrar do que aconteceu esbarra na realidade que muitas pessoas enfrentam: a facilidade e o excesso de fotos que tiramos o tempo todo dificulta sua organização e o acesso às mesmas. As pessoas tendem a tirar as fotos e armazená-las, dificilmente reservando tempo para organizá-las e revê-las.

O desafio de integrar o processo educacional com a tecnologia não é simples. Além da dinâmica do aprendizado em si estar mudando rapidamente com a inserção de computadores e smartphones na vida de crianças com meses de vida, a forma como a informação é transmitida e armazenada também muda de forma significativa com o uso da tecnologia. Educar é muito mais que simplesmente transmitir o conhecimento, e alguns argumentam que o próprio processo de aprendizado é mais difícil quando a tecnologia ocupa posição de destaque. O autor norte-americano Nicholas Carr publicou, em 2010, o livro "The Shallows: What the Internet is doing to our Brains" (algo como "Superficialidade: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros") que foi um dos finalistas do prêmio Pulitzer no ano seguinte. De acordo com Carr, utilizar a Internet é como tentar ler um livro e resolver um quebra-cabeça ao mesmo tempo - não há espaço para concentração e profundidade em meio às interrupções geradas pelo próprio meio.

Pesquisas publicadas por diversos grupos independentes e utilizando vários métodos de avaliação indicam que o excesso de informações com as quais nos deparamos em um típico texto na Internet - com links para referências adicionais, áudio, vídeo, notas, propagandas e afins - prejudica a capacidade de concentração e mantém o cérebro ocupado, tomando decisões sobre o que deve ou não ser clicado. "Aprender" é a transmissão do conhecimento que está sendo absorvido pela memória de curto prazo para a memória de longo prazo - e quanto menos interrupções e distrações nossa memória de curto prazo encontrar, mais eficiente será esta transmissão. Quando enfrentamos um excesso de "carga cognitiva", a capacidade de armazenar e relacionar o novo conhecimento com aquilo que já sabemos é prejudicada.

A própria estrutura das conexões neurais dos usuários da Internet é diferente. O professor de Psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Dr. Gary Small, comparou, em um estudo realizado em 2007, imagens obtidas a partir de ressonâncias magnéticas dos cérebros de voluntários "veteranos" e "novatos" na Internet enquanto eles realizavam buscas online. As áreas do cérebro que eram ativadas para os dois grupos eram significativamente diferentes, mas apenas cinco dias depois de utilizar a Internet por no mínimo uma hora por dia o cérebro dos "novatos" já se comportava como o cérebro dos "veteranos" - ou seja, com relativamente pouco tempo de uso a dinâmica de ativação dos neurônios passa por modificações. Tudo isso precisa ser levado em consideração para que se possa entender a importância e a complexidade da evolução da área de EdTech - ou "educação tecnológica", nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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