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Agência Petrobrás

ENTREVISTA: Edmilson Moutinho dos Santos, professor da USP

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'Aquela empresa onipresente já não se sustenta mais'

Especialista afirma que prejuízio bilionário da Petrobrás em 2015 é uma 'limpeza de casa'

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Mariana Durão e Antonio Pita

21 Março 2016 | 23h55

O prejuízo recorde e bilionário divulgado pela Petrobrás é uma “limpeza de casa” e reflete o reconhecimento de um novo cenário de preços do setor de petróleo, com baixas contábeis, afirma o professor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, Edmilson Moutinho dos Santos. Para o especialista, a perda contábil tende a ser recuperada pela companhia no futuro, mas afeta o acionista no presente. Em sua visão, a estatal não tem outra saída a não ser vender ativos, ainda que a preços baixos, e se concentrar no desenvolvimento do pré-sal, que considera a joia da coroa da companhia.

Como o sr. vê o resultado divulgado ontem pela Petrobrás?

É uma limpeza de casa, algo puramente contábil. O balanço reflete a nova realidade do setor. Os ativos estavam valorizados em um cenário de preços. À medida em que você reconhece que seu preço médio não será mais o mesmo tem de reconhecer que seus ativos não terão mais condições de gerar receitas como previsto. A Petrobrás demorou a reconhecer que o preço futuro do petróleo não tenderia a se recuperar. Isso embute uma questão de governança, mas também de mercado. Lá na frente, tende a se recuperar. Para o acionista hoje é mais drástico porque os minoritários não verão dividendos tão cedo.

Esse resultado sinaliza a necessidade de corte de investimento?

A empresa terá de admitir planos de negócios coerentes com o novo tamanho. Aquela empresa onipresente em tudo que tinha petróleo e gás não se sustenta mais. Só espero que não reduza demais os investimentos em exploração e produção porque a riqueza dela está lá embaixo, no pré-sal.

Como lidar com essa realidade e uma dívida de R$ 492 bilhões?

A Petrobrás só tem duas saídas, que não são fáceis. Ela não tem como se endividar mais porque ninguém vai emprestar para ela enquanto não garantir que no longo prazo o pré-sal é sustentável. Ela não tem como se capitalizar no mercado doméstico porque ninguém vai comprar ações da Petrobrás, nem tem como gerar caixa o suficiente porque a produção não está crescendo no ritmo desejável. Sobra vender ativos e o socorro do acionista maior, que é o governo, mas ele também está em uma pindaíba.

O plano de desinvestimento da Petrobrás prevê o levantamento de US$ 14,4 bi em 2016. Isso é factível?

Levantar esse valor ela consegue, o problema é quanto tem de vender em ativos para atingir esse montante. Ela deveria ter apostado no pré-sal e vendido outros ativos em 2009. Mas dentro do jogo político em curso isso era impossível. Hoje o pré-sal poderia estar em um nível de produção maior.

Há quem critique a venda de ativos agora, porque seriam alienados a preço de banana...

Não tem jeito. Você vai esperar a banana apodrecer e deixar de investir na galinha dos ovos de ouro (o pré-sal)? A produção na Bacia de Campos vai continuar caindo, no Rio Grande do Norte também. O ideal é que esses ativos fiquem com investidores que não têm o pré-sal para investir.

Qual sua avaliação do primeiro ano da gestão Bendine?

Ele adotou um estilo “low profile” de lidar com a crise financeira. Será posto à prova se não conseguir vender ativos. O Bendine pode sair como um grande presidente se lhe for dada liberdade de ação. Mas a bagunça interna corta as asas dele. Agora a empresa está se ajustando, saindo um pouco das páginas policiais. Isso é bom. 

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