As peripécias dos chineses

Empresas da China embarcaram numa farra de compras no exterior, muits vezes dando com os burros n'água

The Economist

15 Junho 2017 | 05h00

Considerando o tamanho da economia chinesa, tudo indica que suas empresas acabarão desempenhando enorme papel no cenário corporativo mundial. Apesar disso, nos últimos 15 anos, muitas das aventuras aquisitivas dos chineses no exterior se mostraram equivocadas. Seus empresários realizaram milhares de pequenos negócios, alguns dos quais ainda darão bons resultados. Mas, entre as fusões e aquisições de US$ 1 bilhão ou mais, a história é outra: 56 negócios acabaram abandonados, os valores pagos por 39 aquisições realizadas por estatais no setor de commodities foram excessivos e, mais recentemente, magnatas sem juízo se puseram a comprar quinquilharias, como hotéis e clubes de futebol.

 

Alguns dos negócios desafiam a lógica convencional. No mês passado, o HNA, conglomerado com atuação no segmento de turismo e viagens aéreas, informou ter adquirido 10% do Deutsche Bank, não sem antes aventar a ideia de comprar um Landesbank (grupo de bancos alemães estatais). A companhia, que organiza um torneio de vôlei de praia em Pequim, parece se achar capaz de consolidar o fragmentado setor bancário alemão, o equivalente a instaurar a paz no Oriente Médio.

A experiência do Reino Unido e, em seguida, a dos EUA no século 20 indica que as grandes potências controlam uma fatia desproporcional do estoque mundial de investimentos corporativos interfronteiras. Hoje, a fatia da China corresponde a 4%, bem abaixo dos 15% de sua participação no PIB mundial. Seus líderes querem que as empresas acelerem o passo. Se não se globalizarem, a China não se tornará a superpotência que poderia ser, diz Wang Jianlin, presidente do grupo Dalian Wanda e homem mais rico do país.

Acontece que, com a pressa, as empresas chinesas vêm cometendo erros. Os negócios de US$ 1 bilhão ou mais representam dois terços, em valor, das fusões e aquisições realizadas de 2005 para cá, metade dos quais se encaixa em três categorias problemáticas. Primeiro, aquisições feitas por grupos estatais de empresas estrangeiras que exploram recursos naturais. O objetivo aqui era garantir acesso a matérias-primas. No entanto, como muitos desses negócios foram feitos quando o ciclo das commodities estava no auge, entre 2010 e 2014, os valores pagos foram elevados demais.

Na segunda categoria de negócios problemáticos entram as ondas de aquisições realizadas por conglomerados alavancados, financiadas seja por meio de endividamento, seja por recursos captados pelas seguradoras que esses conglomerados têm entre suas subsidiárias. Quatro desses grupos, HNA, Dalian Wanda, Fosun e Anbang, torraram US$ 100 bilhões em ativos que incluem hotéis de luxo, um banco português, uma mina de ouro na Rússia e um estaleiro que constrói iates. É difícil perceber a lógica que teria orientado tais aquisições. O Fosun e o HNA, que publicam balanços financeiros, apresentam preocupante relação dívida/lucro operacional bruto: 8 e 13 vezes, respectivamente.

Na última categoria estão os fracassos retumbantes: US$ 230 bilhões que deveriam ter sido investidos em transações de US$ 1 bilhão ou mais jamais chegaram a se materializar seja porque os compradores, ou o governo chinês, deram para trás, seja porque a recepção no exterior foi hostil. Em razão disso, os negócios propostos por empresas chinesas hoje são vistos com desconfiança.

Já houve outros países que embarcaram em ondas imprudentes de fusões e aquisições: entre 1989 e 1990, japoneses compraram um estúdio hollywoodiano e o Rockefeller Centre; entre 2005 e 2015, indianos gastaram a rodo no estrangeiro. Mas a China é diferente. Sua economia é maior. E a fragilidade da atuação de suas empresas no exterior é reflexo de problemas internos da organização econômica do país.

As estatais chinesas são as mais indisciplinadas financeiramente. Também tendem a suscitar maior oposição no exterior, seja por parte de concorrentes privadas, seja por parte de políticos que acusam o governo chinês de querer interferir na economia de seus países. Quanto aos empresários chineses, os empréstimos subsidiados oferecidos por bancos estatais e a relutância em abrir o capital de seus negócios os leva a se endividar demais e embarcar em peripécias especulativas.

Por outro lado, algumas empresas chinesas parecem estar começando a adotar estratégias mais sensatas para se globalizar. As estatais tentam convencer os países estrangeiros de que operarão em bases eminentemente comerciais. A ChemChina acabou de adquirir a suíça Syngenta por US$ 46 bilhões. Os chineses se comprometeram a manter a sede da empresa e sua unidade de pesquisas na Suíça. O fundo soberano China Investment Corporation (CIC) deve investir US$ 14 bilhões na compra da empresa europeia de armazenagem Logicor. É provável que o CIC aluda a sua condição de ator financeiro para sinalizar que não pretende interferir na operação do negócio. E o governo chinês também procura colocar novos negócios sob o guarda-chuva de iniciativas bilaterais e diplomáticas, a fim de tranquilizar as autoridades estrangeiras.

Aquisições à chinesa. Para as empresas chinesas de capital privado, o importante é focar em negócios que tenham lógica econômica. No ano passado, a fabricante de geladeiras e lavadoras Haier adquiriu a unidade de eletrodomésticos da General Electric. As empresas chinesas de internet, que estão com os bolsos cada vez mais fornidos, também devem acabar indo às compras no exterior: terão muito a oferecer em termos de expertise. Em 2016, a Tencent pagou US$ 9 bilhões pela desenvolvedora de games finlandesa Supercell. Mesmo assim, não há garantia de sucesso. A montadora de automóveis Geely se saiu muito bem ao comprar a Volvo em 2010, mas a fabricante de computadores Lenovo não teve a mesma sorte com a aquisição, em 2014, do negócio de dispositivos móveis da Motorola.

No passado, cada superpotência criou formas próprias de atuação corporativa no exterior, moldadas tanto por seu caráter nacional como pela situação particular em que o mundo se encontrava. No século 19, os britânicos recorriam a agentes administrativos para comandar negócios em localidades distantes. Dos anos 1970 em diante, os americanos aperfeiçoaram as multinacionais, aproveitando-se da tecnologia e da abertura das fronteiras para gerir a coisa numa base integrada. Os chineses estão saindo de uma economia com forte presença estatal para atuar num mundo mais protecionista. Terão de encontrar maneiras de se adaptar a esse ambiente se quiserem realizar seu destino.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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