As rosas que falam

Reduzindo custos e melhorando processos, a tecnologia de blockchain já se faz presente nas cadeias logísticas globais

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2017 | 03h00

As mudanças em diversos aspectos da infraestrutura tecnológica que suporta o ambiente de negócios global geram iniciativas que buscam alavancar e organizar as formas de atuação das empresas. Por exemplo, a expansão da Internet das Coisas (IoT - Internet of Things) gerou o desenvolvimento de protocolos de comunicação utilizados exclusivamente por máquinas - M2M, ou machine to machine - viabilizando assim a coleta e o intercâmbio de informações entre dispositivos. Sensores colocados em produtos podem permitir que sistemas de controle de estoque sejam capazes de determinar quando é necessário realizar uma nova ordem de compra, assim como linhas industriais são capazes de atuar sobre componentes que comecem a apresentar um comportamento que tipicamente antecede o surgimento de algum tipo de defeito.

Da mesma maneira, a introdução da tecnologia de blockchain - uma base de dados descentralizada e distribuída por centenas ou milhares de computadores, onde a alteração dos dados originais não é possível e onde todos os registros só podem ser inseridos cronologicamente - despertou uma série de iniciativas que utilizam características específicas que tornam esta inovação uma poderosa ferramenta para o mundo dos negócios. Uma destas iniciativas é o projeto Hyperledger, iniciado em dezembro de 2015 pela Fundação Linux e que segue o modelo de “código aberto” defendido pelo órgão, permitindo um esforço colaborativo de um grande número de equipes que compartilham ideias, sugestões e modelos. Alguns dos participantes deste projeto são a Airbus, Cisco, Hitachi, IBM, Intel, JP Morgan e SAP  - ao todo, o consórcio possui quase duzentas empresas representando diversos setores da economia - aeroespacial, financeiro, tecnológico, logístico e eletroeletrônicos, entre outros. O objetivo comum é a melhoria no desempenho e na confiabilidade dos blockchains, incluindo serviços para identificação e suporte aos smart contracts.

Segundo a World Trade Organization, o impacto das melhorias no comércio global utilizando o blockchain pode ser significativo, elevando o volume global de mercadorias transacionadas e consequentemente o PIB mundial. E de fato um dos primeiros resultados concretos do projeto Hyperledger é fruto de uma parceria da IBM com a Maersk, grupo dinamarquês que atua nos setores de logística e energia. No primeiro trimestre de 2017 foi lançado um sistema baseado em blockchain para aumentar a eficiência e a segurança no processo de exportação e importação de mercadorias transportadas em contêineres por via marítima, por onde circulam aproximadamente 90% dos artigos transacionados globalmente.

Evitar fraudes e reduzir o custo do processamento da documentação associada a cada contêiner - responsável por cerca de um quinto do custo total do transporte - são benefícios imediatos do sistema implementado, que foi testado com a exportação de um contêiner de flores do Quênia para Rotterdam, na Holanda. Tradicionalmente esta transação iria gerar quase duzentas comunicações entre os envolvidos, mas com o suporte do blockchain adequado, não apenas a segurança da operação quanto sua eficiência melhoraram.

O fluxo é iniciado pelo exportador, que registra um smart contract no blockchain que, por sua vez, irá iniciar o fluxo de aprovações necessários nas três agências do governo queniano ligadas ao processo. Todos os envolvidos têm acesso à documentação digital, que é atualizada com as assinaturas adequadas (também digitais). Ao mesmo tempo, o processo de inspeção das flores, preparação do contêiner e rota do caminhão de entregas da mercadoria é compartilhado eletronicamente com o porto de Mombaça, que pode se preparar para receber o contêiner no momento adequado.

Com as características intrínsecas do blockchain - segurança, impossibilidade de modificação dos registros e armazenamento dos eventos sempre de forma cronológica, todos os envolvidos podem confiar nas informações apresentadas. A necessidade de uma autoridade central para validar os dados ou a exigência de uma estrutura complexa para participar das cadeias de fornecimento globais são gradualmente eliminadas - cadeias essas que serão nosso foco da semana que vem. Até lá, e aproveito a oportunidade para desejar para você e sua família um excelente 2018, repleto de saúde e realizações.

*Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital, Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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