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Bancos correm para renegociar dívidas de empresas e evitar perdas com calotes

Com o número crescente de companhias em crise, bancos estão, em troca de garantias, alongando prazos e sendo mais flexíveis no refinanciamento; objetivo é evitar o aumento das provisões com devedores duvidosos e o avanço dos pedidos de recuperação judicial

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FERNANDA GUIMARÃES, ALINE BRONZATI, ANDRÉ MAGNABOSCO, CYNTHIA DECLOEDT, DAYANNE SOUSA E LUCAS HIRATA,
O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2016 | 05h00

Os bancos estão ‘jogando para frente’ as dívidas das companhias brasileiras com o claro objetivo de conter seus níveis de provisionamento para fazer frente ao aumento cada vez maior dos calotes. Depois de verem o colchão para perdas, as chamadas PDDs, crescer quase R$ 16 bilhões no ano passado, as instituições privadas reforçaram suas campanhas de renegociação, incluindo até dívidas que ainda não venceram. Como resultado, o saldo de créditos renegociados (acima de 30 dias) de Bradesco, Itaú Unibanco e Santander saltou 13% no fim de dezembro, na comparação com um ano atrás, e ultrapassou os R$ 40 bilhões.

Com muitas empresas, inclusive as grandes, já operando com queima de caixa e sem liquidez para honrar vencimentos mais curtos, os bancos estão alongando pagamentos atrasados e sendo mais flexíveis na renegociação com os clientes, na tentativa de evitar que a lista de companhias em recuperação judicial engrosse mais. “À medida que os clientes vendem menos, têm mais dificuldade de manter seus compromissos e há procura para reacomodar empréstimos a um novo perfil de fluxo de caixa. Isso leva naturalmente à ampliação de renegociação de crédito”, disse Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, em conversa com jornalistas, nesta semana.

O grupo de empresas brasileiras em dificuldades não para de crescer, na medida em que a economia brasileira não dá sinais de que já chegou ao fundo do poço, o que leva os custos de captação a patamares inviáveis. Do final do ano passado para cá, a situação deixou de ser exclusividade de um único setor ou dos grupos envolvidos na Operação Lava Jato. Empresas como Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Usiminas, PDG e BR Pharma estão há alguns meses em processo de renegociação de suas dívidas, situação ainda mais crítica no caso das pequenas e médias empresas.

Apesar da intensa elevação da carteira de crédito renegociada, os bancos avaliam o movimento como “natural” e associado à fraqueza da atividade econômica. “Ciclos de crédito são sucedidos por tempos duros e maduros. Para quem merece confiança, reperfilamos e reestruturamos sua dívida”, afirmou Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, à imprensa na semana passada.

O executivo de um grande banco lembra que os créditos em atraso são reclassificados e provisionados automaticamente, conforme as regras do Banco Central. No entanto, a renegociação, o quanto antes ocorrer, evita não só o agravamento do risco, bem como o aumento das despesas com provisões, chamadas de PDDs. Crescem ainda as repactuações de dívidas, nas quais os próprios clientes se antecipam e procuram os bancos para readequarem os pagamentos à sua realidade financeira.

No Santander, único a segurar seus calotes acima de 90 dias no quarto trimestre, a renegociação de créditos vencidos fez a inadimplência de curto prazo, que compreende calotes entre 15 e 90 dias, subir na contramão de seus pares. Sérgio Rial, presidente do banco, disse que o indicador piorou por conta de “um ou dois” casos corporativos, que já teriam sido regularizados. Alertou, contudo, que após 20 meses de recessão no País, conter os calotes ficou mais difícil. Além de inadimplência em alta, os bancos privados preveem gastar alguns bilhões a mais com PDDs neste ano.

Exemplos. Um dos casos mais evidentes de dificuldade na geração de caixa é o da Usiminas, que caminha para seu sexto prejuízo líquido trimestral consecutivo, tendo como pano de fundo o enfraquecimento da demanda por aço. Mais preocupante do que isso, atentam especialistas, a empresa está queimando caixa para manter as operações e, assim, não tem alternativa a não ser jogar para frente as dívidas com os bancos credores.

Outro exemplo é a Brasil Pharma, rede de farmácias do BTG Pactual, que vinha renegociando uma parte de suas dívidas bancárias mês a mês, em meio a uma restrição de caixa que a empresa tentou compensar com um aumento de capital pelo seu controlador. Agora, renegocia R$ 355 milhões relativos a empréstimos de capital de giro e financiamento com os principais credores.

“Não é hora de os bancos apertarem as empresas. O melhor é renegociar para dar ao cliente algum fôlego e, se possível, os bancos estão tentando reforçar as garantias”, diz José Antônio Miguel Neto, sócio do Miguel Neto Advogados e especialista em reestruturação de empresas.

Médios. Nos bancos médios, a questão da renegociação de dívidas também é latente. O ABC Brasil, por exemplo, viu sua carteira renegociada crescer 36% em 2015 em relação a 2014, para um total de R$ 470 milhões. De acordo com o vice-presidente do Banco ABC Brasil, Sergio Lulia, a maior parte das renegociações envolveu alongamento de prazos em até três anos e exigência de mais garantias.

“As renegociações têm acontecido em volume maior e é compreensível que seja assim. Se há uma empresa que passa por dificuldade de liquidez transitória, mas tem uma operação viável, com boa participação de mercado e bem gerida, renegociamos os vencimentos, alongamos prazos, normalmente com um cronograma de pagamento parcelado com garantias. Dessa maneira, damos aos clientes a possibilidade de atravessar esse período e, ao mesmo tempo, proteger o balanço do banco”, disse o executivo. 

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