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Brasil passa a ser 3º maior exportador de armas leves

Entidade que serve de referência para comércio de armas leves aponta para vendas de 'pelo menos' US$ 500 milhões pela 1ª vez no País, mas alerta para falta de transparência do governo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 14h55

GENEBRA - O Brasil passou a ser o terceiro maior exportador de armas leves do mundo, segundo dados publicados na terça-feira, 12, pela entidade Small Armas Survey, considerada como o principal banco de dados mundial sobre o comércio dessas armas.  

Mas, apesar da expansão, o Brasil é apenas o 39º colocado entre os 49 exportadores de armas no mundo no que se refere à transparência. Hoje, de acordo com a entidade, países como Rússia, China e Paquistão são mais transparentes no registro de armas vendidas e seus destinos que o Brasil.

Para chegar à constatação de que o País já é o terceiro maior exportador do mundo, os autores do informe explicaram ao Estado que foram obrigados a buscar informações nos governos importadores. Assim, conseguiram reconstruir o comércio brasileiro de armas.

Em 2013, o Brasil aparecia como o quarto maior exportador. Mas superou a Alemanha em 2014, o último ano em que dados estão disponíveis. A liderança continua sendo dos EUA, com vendas de US$ 1,1 bilhão, seguida pela Itália, com US$ 689 milhões. O Brasil aparece na terceira posição, com US$ 591 milhões. 

Num mercado de US$ 6 bilhões, o produto brasileiro detém quase 10% de todo o mercado mundial. 

No total, apenas 15 países têm vendas acima de US$ 100 milhões. Mas, por essa classificação, o Brasil é o penúltimo em termos de transparência - apenas Israel é menos transparente em seus registros públicos de vendas de armas que o Brasil.

 

De acordo coma Small Arms Survey, o ano de 2014 foi o primeiro no qual o Brasil reconheceu que vendeu acima de meio bilhão de dólares desde que o banco de dados começou a ser coletado, em 2001. 

Outra novidade no informe foi a presença da Coreia do Sul como um dos cinco maiores. 

"A presença do Brasil e da Coreia do Sul entre os cinco maiores exportadores demonstra a mudança na dinâmica no fornecimento internacional de armas leves, em especial o aumento da globalização das fontes de fornecimento", disse o diretor da entidade, Eric Berman. 

Paul Holtom, um dos autores do informe, apontou que 47% das vendas brasileiras em 2014 foram para a Indonésia, com 24% ao mercado americano e 4% para os Emirados Árabes Unidos. Catar e Omã aparecem com 3% dos destinos brasileiros.

De acordo com o informe, a falta de transparência brasileira é significativa. "O Brasil não publicou a exportação de suas armas militares, pistolas, revolveres, partes e assessórios e munição para o banco de dados da ONU", indicou os documentos da entidade. "Portanto, é possível que os valores dessas categorias estejam subestimados."

 

Em 2013, por exemplo, o Brasil oficialmente registrava a venda de menos de US$ 1 milhão em armas militares. Um ano depois,  registrou vendas de mais de US$ 198 milhões. O valor é quase um terço de tudo o que se registrou no mundo em venda de armas leves no setor militar.

 

Já no setor pistolas e revólveres, os dados apontam para uma queda nas exportações oficiais do Brasil. O menor registro levou o comércio mundial desses produtos a cair de US$ 1 bilhão em 2013 para US$ 845 milhões em 2014. 

Ausência. Os dados estão sendo publicados no momento em que governos de todo o mundo se reúnem nesta semana em Genebra no âmbito do Tratado sobre o Comércio de Armas, assinado pelo Brasil ainda em 2013 e com a função de estabelecer regras mínimas para as exportações de material bélico. 

Mas o Congresso Nacional não ratificou o acordo, o que deixa o Brasil sem qualquer poder de voto ou capacidade de defender seus interesses. Na sala das reuniões, o governo tem de se sentar ao fundo. 

Diplomatas brasileiros admitem que, quando e se o Congresso ratificar o tratado, o País terá de adotar as regras estabelecidas sem sua presença. 

Por enquanto, mais de 90 governos já fazem parte do tratado. Mas negociadores admitem em Genebra que a ausência dos EUA, maior exportador do mundo, serve de "cortina de fumaça" para que outros tampouco façam esforços para aderir ao mecanismo de transparência.

  

Para Holtom, a ausência do Brasil pode começar a afetar sua capacidade de atrair tecnologia. "Países como a Suécia vão querer garantias de que transferências de tecnologia não serão depois repassadas a outros lugares ou revendidas no setor de armas", disse. "Ficar de fora do tratado, portanto, pode acabar tendo consequências." 

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