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Burger King negocia fusão com canadense Tim Hortons para criar potência do fast-food

Agências internacionais - O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2014 | 21h 40

União com rede de cafeterias deve transferir a sede do negócio para o Canadá, o que reduziria a carga tributária sobre a companhia

O Burger King, controlado pelo fundo 3G Capital - comandado pela “trinca” de brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira -, está em negociações para adquirir a cadeia canadense de café e rosquinhas Tim Hortons, em uma operação que criaria uma potência de fast-food com vendas globais anuais estimadas em US$ 22 bilhões.

O Burger King e a Tim Hortons confirmaram as conversas na noite de domingo, afirmando que a nova empresa seria a terceira maior cadeia de fast-food do mundo. Com o acordo, a sede do negócio seria transferida para o Canadá - o que faria a nova corporação pagar impostos menores e, por consequência, ser mais rentável.

Hoje, o Burger King tem mais de 13 mil pontos de venda em 98 países. A Tim Hortons está concentrada na América do Norte: tem cerca de 4,5 mil restaurantes, sendo 3,6 mil no Canadá e 900 nos Estados Unidos. 

O acordo foi bem recebido pelo mercado financeiro. Nesta segunda-feira, as ações do Burger King subiram 20% nos Estados Unidos, fechando a US$ 32,40. Enquanto isso, os papéis da Tim Hortons negociados nos Estados Unidos ganharam 19%, para US$ 82,03. 

A valorização dos papéis da rede lanchonetes adicionou quase US$ 2 bilhões ao valor de mercado do Burger King. Considerada a participação de 70% do 3G no negócio, o lucro dos investidores foi de US$ 1,4 bilhão em um dia. Em 2010, o 3G comprou o Burger King por US$ 1,2 bilhão e dívidas.

Impostos. A nova empresa teria sede em Ontario, no Canadá - hoje, o “quartel general” do Burger King fica em Miami, onde o primeiro restaurante da rede foi fundado, em 1954. A escolha estaria relacionada ao fato de que o Canadá cobra impostos corporativos mais baixos do que os Estados Unidos, especialmente para companhias que obtêm grandes quantidades de lucros no exterior. 

As taxas cobradas em território americano estão pouco abaixo de 40%, enquanto as canadenses são de 26,3%, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O negócio proposto seria estruturado no modelo conhecido como “inversão de tributos”, um assunto que já causa debate em Washington. A estratégia consiste em comprar um negócio de menor porte fora dos Estados Unidos e mudar o “quartel-general” para o exterior com o objetivo de pagar menos impostos. 

O próprio presidente americano, Barack Obama, criticou este tipo de decisão, classificando as empresas que fazem tais acordos de ter “mentalidade de manada”.

Até agora, os acordos visando o pagamento mais baixo de impostos estavam concentrados na indústria farmacêutica. No mês passado, a AbbVie comprou a rival Shire e anunciou que mudaria sua sede para as Ilhas Virgens britânicas, um conhecido paraíso fiscal onde a taxa de impostos corporativas é virtualmente zero.

Mudanças. Com a decisão de uma marca de consumo como o Burger King de buscar a mesma vantagem, especula-se que o governo americano possa se esforçar mais para criar barreiras para a aprovação de negócios que tenham essa meta.

Na proposta para o orçamento de 2015, Obama propôs uma mudança das regras para a inversão de tributos. A ideia é que a participação de estrangeiros no capital das empresas tenha de ser de pelo menos 50% para que a sede possa ser transferida para outro país. Hoje, a exigência é de 20%.

Esse “cabo de guerra” já afetou algumas fusões. A Walgreens, principal rede de drogarias americana, afirmou que manterá sua sede nos Estados Unidos mesmo depois da conclusão da aquisição da rival europeia Alliance Boots, que tem sede na Suíça, outro país conhecido pelos baixos impostos.