Cidadãos corporativos de algum lugar

A era de ouro das empresas com passaportes de diferentes nacionalidades acabou; tendência é que companhias escolham um único país para sede

The Economist

31 Março 2018 | 19h00

Quando se trata de empresas e seus passaportes, há uma agitação no ar – e um odor de hipocrisia. No mês passado, a Qualcomm – americana de tecnologia que tem 65% de seus negócios na China, registra a maior parte de seus lucros em Cingapura e paga pouco imposto em casa – pressionou com sucesso a administração Trump para bloquear uma aquisição em uma área na qual sua independência era vital para garantir a supremacia estratégica americana sobre a China. O predador era a Broadcom, registrada em bolsa nos Estados Unidos, mas domiciliada em Cingapura, onde obtém benefícios fiscais. Em 2 de novembro, quatro dias antes de fazer a oferta de compra, a Broadcom anunciou o desejo de mudar sua sede para os EUA.

Na Europa, a Unilever – que há um ano exigiu que autoridades britânicas a ajudassem a evitar uma aquisição pela Kraft Heinz – passará a ter uma sede única na Holanda (hoje são duas sedes, em Londres e em Roterdã). A empresa diz querer simplificar sua estrutura, mas tem sido uma crítica do regime aberto de aquisições de Londres e provavelmente está aliviada em se abrigar por trás de regras holandesas, mais protetoras. Na Ásia, o Alibaba, gigante chinês da internet com domicílio nas Ilhas Cayman, sede operacional em Hong Kong e listada em Nova York, foi convidada pelo governo da China a vender suas ações “em casa”– em Xangai –, em uma oferta que não pode recusar.

É fácil encarar tais eventos como exemplos de empresas sendo oportunistas. Mas uma tendência maior está em andamento: um nacionalismo exacerbado. Depois de anos tendo mais de uma identidade, as empresas estão escolhendo – ou sendo forçadas a – mostrar fidelidade a um único país.

Por três décadas, na época de ouro da globalização, a tendência era o oposto. As empresas desvincularam sua nacionalidade das operações, em busca de eficiência ou vantagem estratégica. Isso foi feito em diferentes magnitudes. Tomemos, por exemplo, a frequente diferença entre o local onde as empresas instalam sua sede legal, onde colocam suas sedes de fato e onde residem os responsáveis pelas decisões. Quando Anshu Jain foi um dos principais executivos do Deutsche Bank, entre 2012 e 2015, muitas vezes se dizia que o banco alemão era administrado de Londres. A ArcelorMittal, empresa de aço sediada em Luxemburgo com raízes francesas, belgas, indianas e indonésias, é gerida pela família Mittal, que vive na Grã-Bretanha. Jean-Pascal Tricoire, o chefe da Schneider Electric, companhia francesa com interesses globais, fica em Hong Kong.

A residência fiscal das empresas também dispensa âncoras. A Apple é administrada nos EUA, mas direciona seus lucros estrangeiros para a Irlanda, onde afirma ter importantes subsidiárias. Os reguladores também não precisam estar fisicamente próximos de suas incumbências. O HSBC, um banco global com sede em Londres, depende dos lucros de subsidiárias supervisionadas em Hong Kong. As empresas criam propriedade intelectual no exterior. Farmacêuticas estrangeiras, por exemplo, fazem a maior parte das pesquisas nos EUA. Em seguida, vem a dimensão final da nacionalidade: onde as ações são registradas em bolsa. Dezenas de empresas chinesas de internet são cotadas em Nova York. Em 2011, a Prada, uma casa de moda italiana, escolheu Hong Kong em vez de Milão.

Essa desvinculação da nacionalidade tinha uma lógica poderosa. Uma firma pode alcançar uma avaliação mais alta registrando suas ações na bolsa de um país, obtendo impostos mais baixos através de subsidiárias domiciliadas em outro, e oferecendo uma melhor qualidade de vida para seus executivos em um terceiro. Em alguns casos, ter passaportes múltiplos também permitia que as firmas conquistassem o apoio de mais de um governo ou realizassem fusões que, de outra forma, aumentariam irritações nacionalistas. A Renault-Nissan-Mitsubishi levou a ideia ao extremo, operando como uma aliança de empresas com sua própria governança corporativa, ligadas por meio de participações acionárias cruzadas e algum gerenciamento comum.

Hoje ainda é possível encontrar empresas dispostas a transcender a nacionalidade. Em março, a Prudential, seguradora que opera na Ásia e nos EUA, disse que iria desmembrar sua unidade europeia, manter seu domicílio em Londres, mas não ser mais supervisionada pelos britânicos. A SoftBank, japonesa de telecomunicações, criou um fundo de investimento de US$ 100 bilhões, com sede em Londres, mas investe principalmente na Ásia e nos EUA. A tendência dominante, porém, é que as empresas dispensem seus passaportes múltiplos, por três razões.

Primeiro, alguns acionistas argumentam que isso é caro demais para ser mantido. A BHP Billiton, uma empresa de mineração com registro em Sydney e Londres, ficou sob ataque de um fundo ativista para simplificar sua estrutura. Os analistas reclamam que a aliança da Renault é complicada demais para ser valorizada. Em segundo lugar, algumas empresas estão em busca da proteção de um governo – como no caso da Qualcomm. Em terceiro lugar, à medida que um clima mais protecionista se impõe, os governos querem que as empresas estabeleçam mais atividades “em casa”. Um exemplo recente é a Saudi Aramco, que deveria ser registrada em Londres ou Nova York, mas agora é mais provável que tenha suas atividades bancárias apenas em casa. Uma razão é ajudar a catalisar o desenvolvimento de Riad, na Arábia Saudita, como um centro financeiro.

Controle de passaporte. O fim da era de ouro do cosmopolitismo corporativo pode trazer maior segurança a alguns governos. Mas também pode se tornar um jogo de soma zero, onde cada país briga para obter maior valor por uma fatia de uma torta cujo tamanho é inalterável. Para os grandes entrepostos corporativos do mundo, essa é uma má notícia. À medida que as nacionalidades são reagrupadas, menos empresas vão situar funções específicas fora de suas matrizes.

A questão mais intrigante é saber se é bom que as empresas estejam conectadas a um único lugar. Agora que é tutelada pelo Tio Sam, a Qualcomm pode ser incapaz de realocar empregos dos EUA. A Unilever pode achar a Holanda aconchegante, mas a legislação holandesa sobre salário restritiva. E ser mais protegido, em última análise gera complacência. Multinacionais podem vir a sentir falta dos dias em que podiam circular pelo planeta, pertencendo a todos e a ninguém ao mesmo tempo.

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CLAUDIA BOZZO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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