Ciência estuda o que há no cérebro de quem usa as redes sociais

Cientistas tentam entender os sentimentos humanos pesquisando comunidades como a que troca pizzas entre frequentadores de um site que usa o slogan "recuperando a fé na humanidade, uma fatia de cada vez"

ECONOMIST.COM

08 Setembro 2014 | 16h01

SEATTLE - Em teoria, o crescimento explosivo das mídias sociais seria benéfico para ciências humanas como Psicologia, Antropologia e Sociologia. Todos os dias, bilhões de interações sociais acontecem na selva digital, cada uma delas com tags e links com informações valiosas pelas quais cientistas sociais dariam qualquer coisa.

Em teoria, teoria e prática são a mesma coisa. Na prática, porém, explorar esse tipo de dado mostrou-se perigoso. A revelação de que o Facebook manipulou secretamente o teor emocional de conteúdos vistos por alguns usuários causou polêmica. Apesar do termo de acordo da ferramenta prever experiências como essa, o episódio foi tema de colunas e artigos dedicados a considerações éticas sobre o uso de dados e conteúdos em mídias digitais.

Muitas pessoas usaram a palavra derp para qualificar a ação do Facebook. O termo designa afirmações e atos considerados estúpidos, e provavelmente é uma corruptela como muitas outras produzidas pela internet.

Uma iniciativa acadêmica pretende, contudo, reivindicar a palavra e debater princípios éticos para as mídias sociais: DERP, Digital Ecologies Research Partnership (Parceria para pesquisa em ecologias digitais).

O esforço reúne 18 acadêmicos e cinco parceiros de mídias sociais: Imgur, um repositório de imagens e vídeos; Reddit e Fark, dois sites voltados para debate e intercâmbio a respeito de temas relevantes para a comunidade usuária; StackExchange, plataforma de perguntas e respostas de todo tipo; e Twitch, um serviço de compartilhamento de vídeo (recentemente comprado pela Amazon por US$ 970 milhões).

O caso do Facebook apareceu com força na imprensa, mas parcerias desse tipo não são novidade. Algumas das pesquisas mais inovadoras em meios digitais estudaram, por exemplo, o simples processo dos pedidos de pizza centralizados pelo Reddit. Uma pesquisa realizada por Tim Althoff, da Universidade de Stanford, Califórnia, analisou os sentimentos implicados em 22 mil posts no Random Acts of Pizza, site que conecta pessoas interessadas em dar pizzas e outras em recebê-las, com o slogan “recuperando a fé na humanidade, uma fatia de cada vez”.

O artigo científico sobre a pesquisa, intitulado How to ask for a Favor (Como pedir um favor), mostra que a filantropia da pizza estava diretamente relacionada ao momento do pedido no mês (quanto mais no início, mas fácil de ser atendido) e à necessidade do solicitante (para além do simples desejo).

Os resultados representam a vanguarda dos estudos sobre mídias sociais, por mais triviais que  pareçam. A análise de milhares de pessoas reais interagindo em uma situação real - diferentemente de um cenário psicológico montado em laboratório por meia-dúzia de estudantes mal pagos - mostrou que o usuários do Reddit não recompensavam pedidos de tom otimista, ou pessoas em situações similares às deles, ao contrário das expectativas dos psicólogos.

Althoff, que agora faz parte da DERP, declarou que os dados usados no estudo foram liberados após meses de negociação. A DERP pretende consolidar modelos de estudo e centralizar o fornecimento de dados digitais desse tipo para tornar-se o único ponto de contato de pesquisadores que desejam acessá-los. Os membros da inciativa afirmam que apoiarão apenas pesquisas comprometidas com a privacidade dos usuários, a responsabilidade no manuseio dos dados e o respeito a padrões éticos acadêmicos. Todas as pesquisas deverão ser publicadas abertamente e ao mesmo tempo para parceiros e público geral.

As vantagens para os pesquisadores são claras, mas as empresas parceiras também serão beneficiadas, de acordo com Tim Hwang, diretor de iniciativas especiais da Imgur. Sua pequena equipe lida com um ecossistema crescente formado por conteúdos e interações que eles não compreendem totalmente, admite Hwang. A partir de agora, a equipe pode propor perguntas cujas respostas são armazenadas como dados - submetidos à aprovação da DERP. Hwang diz encorajar investigações e pesquisas sobre o que ele chama de “matéria escura da internet”: sites como o seu que atraem apenas uma pequena parcela das atenções do Facebook e LinkedIn, mas cujos usos pelas ciências sociais e humanas também são promissores.

Alguns projetos da DERP preveem estudos cruzados a partir de dados correlatos de mais de uma mídia social para identificar por que alguns conteúdos tornam-se virais e como as pessoas realizam intercâmbios e doações com moedas virtuais, entre outras questões. O grande objetivo dos cientistas é acessar interações ainda secretas que possam trazer novos insights, como por exemplo, se participantes dos estudos já tinham algum contato prévio por alguma ferramenta de troca de mensagens e já eram amigos ou conhecidos. Althoff diz que esses dados não podem ser obtidos por “varreduras” comuns em sites públicos. A relação proposta pela DERP - uma ciência social que vê tudo e transcende o público, mas protege o que é privado - poderia finalmente criar uma ponte entre a teoria e a prática.

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Da Economist.com, traduzido por Livia Almendary, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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