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Desemprego é menor, mas falta capacitação

Fabiana Pires, do Economia & Negócios

19 Julho 2011 | 12h 01

Mercado de trabalho carente de profissionais com melhor formação atrai estrangeiros que fogem de crises econômicas para o Brasil

Apesar do desemprego mensal no Brasil ter diminuído, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 19, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), a falta de profissionais capacitados ainda é uma marca do mercado de trabalho brasileiro. De acordo com o instituto, a taxa de desemprego caiu em junho para 6,2%, a menor para o mês desde o início da série histórica da Pesquisa Mensal de Emprego, em março de 2002. A população desocupada foi calculada em 1,5 milhão de pessoas, número estável em relação ao mês anterior. Do total de pessoas empregadas, no entanto, 56,8% não possui ensino médio completo, segundo dados de 2009 do instituto.

Essa, segundo o diretor de operações da empresa de recrutamento especializado Robert Half em São Paulo, Fernando Mantovani, é uma das diferenças do perfil do trabalhador do Brasil, quando comparado a profissionais de outros países. De acordo com ele, apesar de existir mão de obra muito bem qualificada no País, a demanda por esses profissionais, atualmente, é muito maior do que a oferta. "A educação pública é muito mais sólida no exterior do que aqui. Se formos pensar na base da formação do indivíduo, a proporção de profissionais que tiveram um bom nível de estudo é muito menor no Brasil, o que é natural em um país com um déficit educacional como o nosso".

De acordo com Mantovani, o momento de crescimento econômico que o Brasil vive hoje tem atraído muitas empresas para o País, o que tem aquecido o mercado de trabalho. "Muitas companhias enxergam aqui uma oportunidade para compensar o resultado negativo na América do Norte. Na América do Sul, o Brasil é o país que mais chama a atenção." Essa expansão no número de empregos associada a uma carência de profissionais gera o que tem sido chamado de "apagão da mão de obra". Isso ocorre quando um país apresenta um elevado crescimento econômico, mas não tem como manter esse crescimento devido à falta de profissionais capacitados para sustentá-lo.

Estrangeiros

É consenso entre analistas que a única maneira para evitar a falta de trabalhadores qualificados é ampliar os investimentos em educação e cursos técnicos para capacitar mais pessoas. O governo, contudo, tem optado por remediar momentaneamente a situação, facilitando a entrada de mão de obra estrangeira no país. "Com as crises na Europa e nos EUA, muitos estrangeiros têm vindo ao Brasil procurar emprego", afirma Mantovani. A prática tem sido observada em vários setores do País, como o de óleo e gás do Rio de Janeiro.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, no primeiro semestre de 2011, foram concedidas 26.545 autorizações de trabalho para estrangeiros no Brasil, um aumento de 19,4% em relação aos seis primeiros meses de 2010. Do número registrado neste ano, 14.047 estrangeiros tem o Ensino Superior Completo ou Habilitação Legal Equivalente. Em seguida, estão os com Ensino Médio Completo ou técnico profissional, com 8.439 autorizações. Os estrangeiros que possuem pós-graduação, mestrado e doutorado somaram juntos 997 autorizações. Os que possuem segundo grau incompleto somam 536 dos vistos e os que possuem ensino superior incompleto somam 152.

Para o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o crescimento na entrada de estrangeiros no País está associado à expansão da economia. "Nos últimos anos, o Brasil cresceu muito. Com este desenvolvimento, cresce o investimento, cresce a demanda por mão de obra interna e também cresce a demanda por mão de obra externa". Além disso, o ministro destaca que existem realidades diferentes em relação à mão de obra estrangeira que entra no País e a de outros países. "No Brasil, estamos em um processo de crescimento e temos que fazer com que o mercado de trabalho continue sendo aquecido para os brasileiros. É diferente de um país já desenvolvido, que não tem mais mão de obra e precisa de trabalhadores para ocupar cargos mais subalternos, que não concorrem com seu mercado interno. Acabam tendo um volume maior por conta disso".

Já as autorizações permanentes totalizaram 1.861, 30,3% mais na comparação com o mesmo período de 2010. Desse total, 762 vistos foram concedidos para administradores, diretores e executivos com poderes de gestão. "O número de administradores e gestores aumentou bem. Significa dizer que é muito capital entrando, trazendo sócios e diretores para ficarem no Brasil. Se ele vem trabalhar no Brasil, é porque a empresa matriz está querendo ampliar seus negócios por aqui. É sinal que estão realmente interessados nos investimentos", explicou o ministro.

Desemprego no Brasil e no Mundo

No ranking elaborado pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês), que classifica 200 nações por seu nível de desemprego, o Brasil ocupa a 71a posição, com o índice calculado em 2010, de 7%. Na lista, o País fica à frente de países como Alemanha, Inglaterra, França, e Estados Unidos. Com mais pessoas empregadas em junho - e ainda com o aumento do desemprego na Europa por conta da crise -, a colocação do Brasil deve melhorar ainda mais.

  Na comparação com os vizinhos sul-americanos, o Brasil é o quinto com o menor índice de desemprego de todas as 12 nações do continente. De acordo com os dados de 2010, o Equador ocupa a 46ª posição da lista e é o primeiro entre os países "hermanos". O Paraguai fica com o segundo lugar, sendo o 58º do ranking.