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Desemprego e queda de renda fazem clínicas populares avançarem

Conhecida por preços mais baixos, empresas como Dr. Consulta, MinutoMed e Acesso Saúde tiveram expansão de cerca de 40%

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Renato Jakitas,
O Estado de S.Paulo

17 Março 2016 | 04h43

SÃO PAULO - Pela primeira vez em dez anos, o mercado brasileiro de planos de saúde fechou em retração. Em 2015, houve debandada de cerca de 766 mil beneficiários, reflexo direto da crise econômica e do aumento do desemprego. Esse movimento, no entanto, tem servido de combustível para outro segmento, o de clínicas populares, que está em plena expansão no País.

Nos últimos meses, sobretudo de setembro do ano passado para cá, empresas como Dr. Consulta, MinutoMed e Acesso Saúde, conhecidas por cobrarem no máximo R$ 120 por consulta médica, registraram crescimento de cerca de 40% na procura pelo serviço.

Para dar conta da demanda, a Dr. Consulta, que atende em média 25 mil pacientes por mês em 11 endereços na Grande São Paulo, vai inaugurar até o fim do ano outras 19 unidades. A empresa reservou R$ 40 milhões para esse crescimento, dinheiro que é fruto do investimento, feito no ano passado, de dois fundos, o Kaszek Ventures, comandado pelos fundadores do Mercado Livre, e o suíço LGT Venture Philanthropy, especializado em negócios de impacto social. “A demanda está alta. Vamos utilizar todo o aporte em nosso crescimento”, conta o médico e economista Marcos Fumio, sócio da Dr. Consulta.

De acordo com os empresários, a escalada do desemprego reforçou o aumento da procura pelo serviço. “As pessoas não querem ir para o SUS”, diz Antônio Carlos Brasil, da Acesso Saúde, que hoje tem 13 clínicas no Brasil e vai inaugurar outras 18 até dezembro. “A gente nota que a maioria desses novos pacientes tinha convênios médicos, mas perderam o plano de saúde junto com o seus empregos.”

Os números oficiais endossam a percepção dos empreendedores. Nos dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na semana passada, os contratos coletivos, aqueles oferecidos por empresas e associações como benefício aos funcionários, foram os mais afetados, com 533.534 distratos ao longo de 2015 – responsável por quase 70% da debandada no setor.

“Não há como desassociar essa queda da atual crise econômica do País. Segundo dados do Caged, o Brasil fechou 2015 com perda de 1,5 milhão de postos de trabalho com registro em carteira”, diz o superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (Iess) Luiz Augusto Carneiro.

Foi justamente após perder o emprego, em agosto do ano passado, que a operadora de turismo Gizella Flor Batistela se viu atrás de uma consulta médica particular. “Fiquei sem convênio e precisei ir ao dermatologista. Mas nem tentei o SUS, acho que demora muito”, conta ela, enquanto esperava o orçamento para um hemograma completo em uma clínica popular. “Eles querem me cobrar uns R$ 200 pelo exame. Sinceramente, achei um pouco caro, vou pesquisar em outras redes. A gente agora vê um monte delas por ai”, afirma.

De fato, uma das estratégias adotadas pelas redes do setor é tentar se posicionar em locais de grande movimentação popular. A MinutoMed, do português Don Cordeiro, por exemplo, tem hoje três operações, todas em shopping centers da Grande São Paulo. “Nossa expansão acontecerá por shoppings, estações de metrô ou ruas movimentadas, como o Largo 13 ou a (Rua) 25 de março”, diz o administrador de empresas, que tem um plano ambicioso: montar 200 operações no Brasil em seis anos. “A gente tem suporte de três grupos de investidores: um europeu, um norte-americano e um brasileiro”, conta.

Fundos. Não é à toa que o setor tem sido alvo de uma outra corrida, a de investidores. “Apesar da crise, são empresas que continuam no radar de investidores, já que o risco de queda de demanda é considerado pequeno”, afirma Alexandre Pierantoni, sócio da Pactor Finanças Corporativas, butique de fusão e aquisição especializada em médias empresas. “É um segmento de atendimento básico, de baixa complexidade, que cresce com a carência de mercado (a ineficiência do sistema público de saúde) e com a dificuldade das classes C e D de fazer desembolsos mensais para manter um plano de saúde.”

O negócio das clínicas populares é baseado no poder de negociação na compra de insumos e de materiais e, principalmente, no emprego pesado de tecnologia para agilizar processos e manter os custos na rédea curta. “Temos hoje o mesmo sistema de TI usado no hospital universitário de Harvard (nos Estados Unidos)”, diz Fumio, da Dr. Consulta. / COLABOROU CÁTIA LUZ

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