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ECONOMIA | RENDA BÁSICA

Dinheiro de graça

O futuro pode trazer um mundo no qual todos - com ou sem emprego - tenham direito a uma renda básica

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Guy Perelmuter*

16 Fevereiro 2017 | 06h00

O desenvolvimento da tecnologia, e em particular de técnicas ligadas às áreas de inteligência artificial e análise de dados, vem gerando inovações que prometem alterar de forma relevante o perfil do mercado de trabalho nas próximas décadas. Empregos antes considerados "intocáveis" já são considerados espécies em extinção em função dessas mudanças.

Em 2014, dois pesquisadores do MIT (Massachussets Institute of Technology) publicaram o livro The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies (A Segunda Era das Máquinas: trabalho, progresso e prosperidade em uma época de tecnologias extraordinárias). Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee argumentaram que, com os avanços tecnológicos recentes, tarefas cada vez mais sofisticadas poderiam ser desempenhadas por máquinas.  

Quantos poderiam prever que a habilidade de dirigir no trânsito de um grande centro urbano não seria mais prerrogativa apenas de seres humanos? Ou imaginar que contratos legalmente válidos seriam elaborados por máquinas? Ou que poderíamos simplesmente entrar em uma loja, escolher as mercadorias que nos interessam e sair sem interagir com ninguém, sendo o processo de cobrança totalmente automatizado?

Conforme vimos na semana passada, o impacto disso no mercado de trabalho é significativo, e o termo "desemprego tecnológico" voltou à pauta do debate sobre a evolução dos processos macro e microeconômicos. Com a possível redução da quantidade de empregos disponíveis, a tendência das pessoas seria de gastar menos, potencialmente criando uma espiral deflacionária e impactando linhas de produção de inúmeros bens. Se não houver trabalho remunerado para todos, por mais qualificados que sejam, as perspectivas para a sociedade são preocupantes sob diversos aspectos.  

A discussão parece prematura - ainda não é possível avaliar se a automação irá de fato eliminar empregos ou simplesmente gerar uma mudança no perfil do mercado de trabalho (como foi o caso ao longo da História). E mesmo que os empregos deixem de existir, esse é um processo que ainda deve levar pelo menos duas gerações. Isso não impediu, no entanto, que a proposta de uma "renda universal básica" ganhasse força entre alguns economistas e diversos participantes da indústria de inovação (talvez por saberem que suas invenções estão predestinadas a eliminar uma quantidade razoável de empregos).

O filósofo inglês Thomas More, autor do livro Utopia de 1516, e o humanista espanhol Juan Luis Vives, amigo de More e considerado um dos pais da psicologia moderna, foram possivelmente os primeiros a documentar e estruturar a tese de uma renda básica mínima. Essa tese evoluiu ao longo do tempo para chegar ao seu formato atual: em resumo, pagar a todos os cidadãos de um determinado local uma renda anual, independente de qualquer outro fator. Os defensores argumentam que isso iria permitir acesso mais generalizado à educação e à inovação, recursos para os pais investirem em seus filhos, a possibilidade de pessoas buscarem realização inclusive em trabalhos não-remunerados e uma percepção de justiça social mais ampla e disseminada. Em outras palavras, uma melhora significativa na qualidade de vida e no sentimento geral da população. 

Mas a escolha por um pagamento absoluto para todos, desvinculado de quaisquer outros fatores, é um caminho que também apresenta riscos relevantes - e são esses riscos que iremos discutir semana que vem. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial  

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