Editando o destino

Uma nova tecnologia permite que sejamos capazes de literalmente editar o genoma de qualquer ser vivo, trazendo enormes benefícios e uma nova série de questões éticas

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2017 | 03h51

Dentre todas as possibilidades embutidas nos avanços tecnológicos que o mundo seguirá presenciando poucas superam, em termos de benefícios para humanidade, os avanços ligados às áreas de Ciências da Vida: biotecnologia, epidemiologia, medicina - apenas para citar alguns exemplos. As indústrias ligadas a estes campos, como a farmacêutica e a de equipamentos médicos, irão continuar experimentando mudanças significativas ao longo das próximas décadas, graças a inovações que permitem a simulação do efeito de novas drogas no organismo, a aceleração dos testes de validação de compostos químicos e até a edição do código genético de um ser vivo.

 

Recentemente foram estabelecidas as bases para uma das maiores revoluções da História no campo da genética, graças a estudos de micróbios e bactérias cujo código genético possuía uma sequência de DNA que se repetia diversas vezes. Estas repetições eram interrompidas por trechos que apresentavam material genético de vírus que, em algum momento da vida daquele organismo, tentaram atacar a célula original. Estes trechos acabavam servindo como uma "memória" para o sistema de defesa celular, pois armazenavam a identidade do "agressor" da célula, e esta configuração de repetições interrompidas ganhou um nome: "agrupados de curtas repetições palindrômicas regularmente interespaçadas", ou "clustered regularly interspaced short palindromic repeats" -  "CRISPR", na sigla em inglês (pronuncia-se "crisper"). Combinado com um conjunto de enzimas conhecidas como "Cas", é possível utilizar o material genético presente nos "espaços" entre as repetições - ou seja, o material genético dos vírus invasores - para guiar as enzimas de forma a "cortar" o vírus e neutralizá-lo. 

 

A gigantesca revolução está na capacidade que os cientistas adquiriram em, utilizando este método, serem capazes de cortar qualquer sequência de DNA exatamente no local desejado - e substituir a sequência cortada por outra, pré-definida. Ou seja, doenças complexas, causadas por diversas alterações no genoma poderão ser estudadas de forma muito mais eficiente, e eventualmente uma série de problemas genéticos poderão ser corrigidos antes de causarem prejuízo ao organismo. Graças à esta nova técnica, procedimentos até então inviáveis passam a estar à disposição da Ciência. De acordo com relatório publicado em março de 2017 pela Grand View Research, estima-se que o mercado para edição de genomas atinja mais de US$ 8 bilhões em 2025.

 

O professor das Escolas de Medicina de Harvard e do MIT, Eric S. Lander, em um artigo publicado no New England Journal of Medicine em julho de 2015, alerta para os riscos éticos de "escrevermos" novos códigos genéticos (especialmente em embriões humanos), mas reforça os benefícios que podem ser obtidos a partir dessa técnica, uma vez que a tecnologia esteja plenamente dominada. Ele cita exemplos como o vírus HIV, causador da AIDS, que não afeta pessoas que não possuem o gene CCR5 - teoricamente, "apagar" este gene poderia conferir imunidade a determinado organismo. A hemofilia também seria uma doença a ser endereçada, editando-se as células-tronco sanguíneas, assim como a desativação de determinado gene em células da retina iria evitar alguns tipos de cegueira causadas pela genética.

 

Mas a forma de mudar uma realidade biológica imposta pela Natureza não está limitada apenas às técnicas CRISPR. Utilizando três tendências do desenvolvimento moderno de projetos - o movimento maker (no qual ao invés de utilizar equipamentos prontos a comunidade de empreendedores cria suas próprias ferramentas a partir de outras já existentes), arquitetura aberta (onde as informações são compartilhadas livremente entre os participantes da comunidade) e o design colaborativo (permitindo que pessoas localizadas em diferentes partes do mundo possam trabalhar e modificar um mesmo projeto) - médicos, engenheiros, designers, famílias e pacientes participam do processo de elaboração de próteses através da rede e-NABLE. É possível criar próteses para diversas partes - mão, mandíbula, perna - customizadas para o paciente final utilizando-se equipamentos relativamente acessíveis, e imprimindo o resultado final em uma impressora 3D. E será justamente dos impactos da tecnologia de impressão tridimensional na indústria e no consumo que falaremos na semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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