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Falta de água preocupa indústrias no interior paulista

André Magnabosco e Suzana Inhesta - Agência Estado

11 Fevereiro 2014 | 14h 17

Seca começa a provocar mudanças no ritmo de produção de empresas; indústria química chegou a interromper fábrica em Paulínia     

SÃO PAULO - A baixa vazão dos rios que cortam o interior de São Paulo acendeu o sinal de alerta de indústrias e já começa a provocar mudanças no ritmo de produção das empresas. A Rhodia, uma das maiores indústrias químicas do Brasil, foi obrigada a interromper as operações de uma de suas linhas de produção. Outras empresas procuradas pela reportagem do Broadcast, serviço de informações da Agência Estado, também demonstram preocupação diante de um possível desabastecimento de água.

A pouca disponibilidade de água captada no rio Atibaia levou a Rhodia a interromper, na semana passada, a produção no conjunto industrial de Paulínia (SP) de intermediários e poliamida, insumos utilizados pelas indústrias automotiva e têxtil, por exemplo.

Em nota, a companhia explica que mais de 90% da água captada é devolvida para o rio, mas o baixo volume das águas obrigou a interrupção parcial das atividades no complexo de Paulínia. Outras linhas de produção da Rhodia, que captam água em outras localidades, continuam com as atividades inalteradas. A água é utilizada principalmente em torres de refrigeração.

A situação da Rhodia pode se repetir em outras indústrias, sobretudo na eventualidade de a falta de chuvas persistir na região. A MWV Rigesa, uma das maiores fabricantes de papelão ondulado do Brasil, afirmou em nota que "monitora cuidadosamente a situação da disponibilidade hídrica do país". A companhia, que também opera fábricas no interior do Estado, ainda não sofreu problemas de captação de água.

A Petrobrás, controladora da Refinaria de Paulínia (Replan), e a Ambev também estão entre as possíveis afetadas com a falta de chuvas no interior de São Paulo. Procurada, a estatal não informou se a Replan já sofre problemas de desabastecimento. A Ambev não quis comentar o assunto. Em São Paulo, a Ambev possui cinco fábricas localizadas em Guarulhos, Jaguariúna, Jundiaí, Agudos e Jacareí. A água é o principal componente da cerveja, com representatividade média de 95% do produto.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), que congrega as quatro maiores indústrias do País (Ambev, Petrópolis, Brasil Kirin e Heineken), Paulo de Tarso Petroni, informou que as associadas, até o momento, não tiveram preocupação com abastecimento de água para produção. "Grande parte das 52 fábricas instaladas no Brasil está localizada em lugares que têm baixo risco de desabastecimento do líquido, ou seja, em regiões com poços artesianos de lençóis freáticos ou de rios com tratamento, com pouquíssima dependência do sistema público", enfatizou.

Petroni também comentou que se eventualmente houver algum problema nesse sentido, as empresas já possuem planos de contingenciamento, como o redirecionamento da produção para outras unidades, o que garantirá o abastecimento das bebidas nos pontos de vendas na melhor época de comercialização para o setor (verão e Carnaval).

Produção. A situação enfrentada pela Rhodia preocupa a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). "Vemos essa situação como mais um problema para um setor que já sofre bastante com a perda de competitividade", destacou a diretora de Economia e Estatística da Associação, Fátima Giovanna Corriello. Há 30 anos no setor, ela diz que não se lembra de uma situação semelhante.

A indústria química brasileira encerrou 2013 com déficit comercial recorde de US$ 32 bilhões, número que deve crescer ainda mais neste ano. "Vivemos a iminência de interrupção de produção por falta de água e ainda temos um complicador ainda maior, que é o custo de energia", relembra Fátima. No setor, o preço da energia, outro recurso cujo abastecimento pode ser prejudicado pela falta de chuvas, corresponde a aproximadamente 20% do custo de produção. Em indústrias eletrointensivas, essa fatia se aproxima de 50% do custo total.

A Abiquim está em contato com indústrias do setor para saber se há novas ocorrências de problemas de desabastecimento de água. A Braskem, maior petroquímica das Américas, não enfrenta dificuldades em Paulínia ou no ABC paulista. Na Grande São Paulo, uma parcela da água consumida pela Braskem é atendida pelo projeto Aquapolo, uma parceria entre a Sabesp e a Odebrecht Ambiental que abastece o polo petroquímico do ABC com água de reúso industrial, o que reduz o risco de desabastecimento.

A petroquímica, contudo, também está atenta à situação das chuvas, fato que tem se tornado rotina entre indústrias do interior. A Rhodia, uma das mais afetadas com a atual situação pluviométrica, vive neste momento uma situação incomum. Na última década, a indústria química já havia tido problemas por excesso de chuvas na região de Paulínia é hoje vítima da falta de água em plena época de chuvas no País.