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Inflação de alimentos afeta orçamento das famílias e reduz vendas do varejo

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo

08 Abril 2013 | 21h 35

Pesquisa de supermercadistas mostra que faturamento real em 12 meses até fevereiro acumula queda de 4% ante mesmo período anterior  

A disparada da inflação dos alimentos, que afeta principalmente as famílias de menor renda, consideradas o pilar do crescimento do consumo nos últimos tempos, começa a prejudicar as vendas no varejo.

Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) mostram que o faturamento real do setor em 12 meses até fevereiro deste ano acumula queda de 4%. Até dezembro do ano passado, o quadro era positivo e as vendas reais do setor encerraram 2012 com alta real de 5,3% em 12 meses.

A indústria de bebidas já sentiu o impacto nos negócios. Na sexta-feira, o vice-presidente de Relações Corporativas da Ambev, Milton Seligman, disse que 2013 começou "difícil" para o setor. "A produção de cervejas, por exemplo, subiu em janeiro, mas caiu em fevereiro e março. A queda é geral, em todo o País, não parece ser algo regional."

Os primeiros indícios são de que o consumidor, pressionado pela inflação, reduziu não apenas as compras de itens básicos. Na Lojas Cem, por exemplo, rede especializada em móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, o ritmo anual de crescimento de vendas do primeiro trimestre deste ano caiu pela metade na comparação com o fim do ano passado, afirma o supervisor geral de vendas, José Domingos Alves. "Houve uma desaceleração forte que pegou principalmente a linha branca e com menor intensidade os aparelhos de imagem e som e os eletroportáteis. Só não foram afetados os celulares e os tablets", diz ele.

Com o orçamento mais apertado, as famílias estão cautelosas. Pelo 3.º mês seguido, o Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) da Federação do Comércio do Estado de São Paulo encerrou março com queda de 4,3% ante fevereiro. Segundo o assessor econômico da entidade, Guilherme Dietze, a retração foi influenciada principalmente pelo pessimismo do consumidor sobre a sua renda atual, afetada pelo aumento da inflação.

Varejo. Esse aperto no consumo provocado pela alta da inflação pode reduzir em até 1,5 ponto porcentual o crescimento das vendas reais do comércio varejista este ano, revela um estudo do banco Credit Suisse.

No ano passado, o comércio cresceu 8% em termos reais, acima da inflação. Para este ano, Nilson Teixeira, economista-chefe do banco e autor do estudo, projeta três cenários para o desempenho das vendas do varejo. O traço comum entre os cenários é a redução do ritmo de crescimento de vendas na comparação com 2012. Se a inflação anual ficar em 5,6% - cenário mais provável, segundo o economista-, as vendas reais do varejo crescerão 7%. Se a inflação desgarrar e fechar o ano em 6,5%, o varejo terá expansão de 6,5%. No caso de a inflação ficar no centro da meta de 4,5%, a hipótese mais remota, o varejo crescerá 7,5%.

"Crescimento real de 7% nas vendas ainda é um ritmo muito expressivo", pondera Teixeira. Mas ele enfatiza que o aumento recente da inflação ao consumidor muito associado à expressiva alta de preços dos alimentos "eleva o risco de uma desaceleração das vendas no contexto do ritmo menor do aumento do salário mínimo em 2013 ante 2012".

Quanto maior a inflação dos alimentos, pior o consumo das famílias de menor renda porque sobra menos dinheiro no bolso para compra de outros itens, diz Teixeira. O estudo traduz em números o impacto da inflação dos alimentos para os diferentes estratos sociais. Em 12 meses até fevereiro, a inflação de alimentos medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 8,1% para as famílias com renda média mensal de R$ 830. No mesmo período, a inflação de alimentos e bebidas para as famílias com renda superior a R$ 10.375 acumulou 6,6%.

Teixeira explica que o impacto da inflação dos alimentos é maior entre as famílias mais pobres porque elas gastam mais que o dobro (32%) do seu orçamento com comida e bebida comparado com o desembolso das famílias mais ricas (15%) com esses mesmos produtos.

"A alta dos preços dos alimentos é prolongada e vem sendo observada desde meados do ano passado", diz Teixeira. No entanto, os reflexos nas vendas do varejo começaram a ficar mais nítidos nos primeiros meses deste ano e são exibidos pelos próprios supermercados que vendem principalmente alimento, o vilão da inflação./ COLABORARAM CÉLIA FROUFE E SUZANA INHESTA