Lição de casa

O setor educacional passa por uma transformação única, que afeta alunos, professores, instituições de ensino, governos e o mercado de trabalho

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 05h04

Desde que os computadores pessoais começaram a se popularizar, as possibilidades criadas para o universo da educação foram imediatamente reconhecidas. A capacidade de customização do conteúdo a ser ensinado ao ritmo de cada estudante bem como a facilidade de coletar dados para avaliar e auxiliar no processo de aprendizado eram apenas alguns dos pontos que permitiriam que os modelos de ensino fossem atualizados e melhorados. O conteúdo de uma aula ou de um curso agora pode ser gravado utilizando-se recursos multimídia - imagens, vídeos, áudio - e disponibilizado via Internet para milhões de pessoas. Até mesmo projetos que começaram com ambições limitadas podem tornar-se fenômenos educacionais: a Khan Academy, por exemplo, atualmente utilizada todo mês por mais de 40 milhões de estudantes ao redor do mundo, começou como um projeto pessoal de Salman Kahn para auxiliar seus primos com trabalhos escolares.

De acordo com a Ibis Capital, um grupo de investimentos e consultoria baseado em Londres, o mercado de educação mundial supera os US$ 5 trilhões - significativamente maior que mercados como software e entretenimento, e muito menos explorado. A velocidade da implementação de novas tecnologias associadas ao setor de Educação é frequentemente menor que em outras indústrias - não apenas pela própria natureza do tema, mas pela complexidade dos elementos participantes do ecossistema: alunos, professores, instituições de ensino, órgãos de regulação e Governos municipais, estaduais e federais, por exemplo.

Conforme já discutimos neste espaço, estima-se que cerca de 50% das carreiras atuais irão simplesmente deixar de existir nas próximas décadas. Não estamos falando apenas de profissões associadas a trabalhos repetitivos e que exigem pouca formação acadêmica, mas também de ocupações que empregam pessoas com currículos atualmente considerados "protegidos" da automação. Esta mudança dramática no perfil do mercado de trabalho mundial irá exigir que novas habilidades e competências sejam aprendidas - e este é um dos maiores desafios do setor educacional.

Instituições de ensino de diversos níveis - fundamental, médio e superior - estão passando por um momento transformacional importante. Não apenas o conteúdo a ser ensinado deverá necessariamente evoluir para atender ao novo paradigma do mundo pós-Quarta Revolução Industrial, mas também a forma como este conteúdo deve ser transmitido aos estudantes não será a mesma. Desde o início do século XXI o número de cursos online disponíveis vem aumentando, incluindo material de algumas das Universidades mais reconhecidas do mundo: Coursera (Princeton, Stanford, Urbana-Champaign), edX (Berkeley, Cornell, Dartmouth, Harvard, Kyoto, MIT) e FutureLearn (Birmingham, Edinburgh, King's College, Trinity College de Dublin) são exemplos de provedores de MOOCs - Massive Open Online Courses (algo como "Grandes Cursos Online Abertos").

O mercado de EdTech - "Educação Tecnológica - deve atingir, segundo a EdTechXGlobal (que organiza uma das maiores feiras mundiais sobre o tema) cerca de US$ 250 bilhões em 2020, crescendo aproximadamente 17% ao ano. Este mercado é composto pelas empresas que buscam inovações na transmissão, produção, desenvolvimento e metodologias de ensino com o objetivo de viabilizar o atendimento a um número de estudantes cada vez maior. De acordo com um trabalho de abril de 2017 liderado pela UNESCO (Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas), o número de estudantes de ensino superior no mundo ultrapassou a marca de duzentos milhões. A pressão por acesso a conhecimento e ensino de qualidade nunca foi tão grande, afetando Governos e grupos privados. Semana que vem iremos prosseguir com este tema, falando de algumas iniciativas que já estão modificando de forma importante o ambiente educacional. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

Mais conteúdo sobre:
Economia educação Economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.