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Na crise, empresas especializadas em reestruturação vivem ‘boom’

Em um cenário em que recuperação judicial cresceu 55,4%, negócios endividados buscam auxílio de gestão

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Cynthia Decloedt e Fernanda Guimarães,
O Estado de S.Paulo

16 Março 2016 | 08h17

As firmas especializadas em reestruturação de empresas estão ficando sem espaço para novos clientes diante do crescente número de companhias altamente endividadas que buscam ajuda para se reerguer.

A fila de empresas com dificuldades de caixa não para de crescer. Na semana passada, a Oi anunciou a contratação da americana PJT Partners, que desde o fim de 2015 já assessora a Odebrecht Oil & Gas. No fim de fevereiro, a endividada varejista Leader, do BTG Pactual, contratou a Alvarez & Marsal, especialista em negócios com graves problemas financeiros.

A situação complicada das empresas fica transparente nas renegociações de dívidas com bancos e também nos pedidos de recuperação judicial. Dados da Serasa Experian mostram os requerimentos de recuperação subiram 55,4% em 2015, em relação ao ano anterior, para 1.287 pedidos, um recorde. E a expectativa é que o número cresça ainda mais em 2016.

A TCP Latam, que faz reestruturações de empresas, é um dos negócios que sentem o aumento da demanda por recuperações. O presidente da empresa, Wilbert Sanchez, diz que trabalhou em sete projetos em 2015. Neste ano, desde janeiro, vem fechando um acordo por semana. “A procura tem aumentado. Muita empresa aguardou uma melhora do ambiente no fim do ano, que não se concretizou, e teve que procurar algum apoio neste ano”, explica o executivo, que trabalha com negócios como a varejista de luxo Daslu.

Salvatore Milanese, sócio da Pantalica Partners, que assessora a recuperação judicial do Grupo Schahin, também está sentindo o aumento de trabalho. Diante da demanda por recursos, a Pantalica está montando um fundo de “turnaround”, que visa a ajudar na recuperação de negócios com bom potencial, mas com restrições financeiras de curto prazo. O fundo deve alcançar US$ 250 milhões em captações feitas exclusivamente no exterior.

Milanese diz que, apesar da crise política e econômica, existe apetite pelo investimento, que está dentro de uma categoria alternativa, pois oferece retornos elevados. Ao prazo médio de cinco anos, ele estima que o múltiplo sobre o capital investido possa ficar entre três e cinco vezes.

Para ilustrar as proporções do potencial da indústria de recuperação das empresas, Milanese aponta para o estoque das provisões dos bancos, que alcançou R$ 150 bilhões nos vencimentos acima de 60 a 90 dias – sendo que de 30% a 35% do total está no mundo corporativo. Em alguns casos, o caixa apertado faz empresas recorrerem a “alternativas” para não atrasarem as contas, como o não pagamento de impostos.

Um executivo de uma gestora estrangeira afirma que a grande preocupação é de que os bancos comecem a dificultar a negociação das dívidas das empresas – já que eles são quase a única alternativa de financiamento para a maioria das companhias.

Dificuldades. Janser Saloman, sócio da Rosenberg Partners, observa que hoje está difícil encontrar uma empresa com capacidade de sair da crise e com perfil de acionistas que permita as mudanças necessárias para uma real recuperação. Quanto mais tempo as empresas demoram para buscar uma reestruturação, mais duro será o processo de ajuste.

Saloman não enxerga um cenário promissor para as companhias brasileiras até 2017. “As empresas já estavam sem fôlego no ano passado e entraram em 2016 com menos fôlego ainda. Com o acionista não vendo mais alternativa, ele busca as firmas muitas vezes quando já está com um pé na recuperação judicial”, ressalta. 

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