Destruindo a destruição

Metade das profissões atuais poderá ser automatizada em um futuro não muito distante

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2017 | 05h40

A discussão sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho não é nova. Historicamente, o progresso e a inovação conseguiram elevar a qualidade de vida de várias camadas da população de forma significativa, e tipicamente apenas empregos que exigiam qualificação mais limitada eram afetados. A chegada daquilo que muitos estão chamando de Quarta Revolução Industrial intensificou a discussão a respeito do “desemprego tecnológico”: um conjunto amplo de novas tecnologias (robótica, inteligência artificial, impressão 3D, entre outras) atinge de forma simultânea um número significativo de indústrias e negócios.

De acordo com o Sustainability Journal, nos últimos duzentos anos a população mundial cresceu de menos de um bilhão para sete bilhões de habitantes, enquanto a porcentagem da população em áreas urbanas subiu de 3% para 49%. A mecanização e modernização da atividade agrícola deslocou uma parcela significativa da mão de obra do campo para as cidades – menos de um terço da mão de obra global está no campo, sendo que em países desenvolvidos esse percentual não chega a 5%. Conforme falamos semana passada, até hoje a inovação tem transferido empregos para outros setores – um processo chamado de “destruição criativa”. Essa mudança está ocorrendo novamente – mas com aspectos ainda mais complexos. A quantidade de trabalhadores necessários para manter (ou até aumentar) a produtividade industrial é cada vez menor – o Fórum Econômico Mundial de 2016, em Davos, previu que até 2020 o mundo terá um saldo negativo de cerca de cinco milhões de empregos.

Nos mais relevantes fóruns de discussão econômica, o tema passou novamente a figurar com destaque, especialmente com a redução de empregos nas linhas de montagem e o aumento de produtividade acompanhado por um aumento de desemprego. Muitos acham que a volta do populismo, o resultado obtido pelo referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas podem ser em grande medida eventos atribuídos à forma como a classe média sente-se ameaçada em um mundo cada vez mais globalizado e conectado.

Em março de 2015, Georg Graetz e Guy Michaels publicaram, através do Centro de Pesquisas em Políticas Econômicas Europeu, um trabalho no qual foi analisado o impacto econômico dos robôs industriais em 17 países ao longo de 15 anos. Enquanto a produtividade e o crescimento dos países em questão aumentaram, as horas trabalhadas por seres humanos foram reduzidas.

Em 2013, Carl Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, publicaram um trabalho sobre o futuro do emprego, no qual analisaram a probabilidade de automação sobre 702 tipos de ocupação, aplicando os resultados sobre o mercado de trabalho norte-americano. Segundo eles, nada menos que 47% dos empregos encontram-se sob risco de automação - e quanto menor o salário pago e a educação necessária para desempenhar aquela tarefa, maior a probabilidade de ela ser substituída por mão de obra artificial.

Pense nisso: quase metade das atividades analisadas mostraram-se passíveis de serem automatizadas. Semana que vem iremos prosseguir no tema do impacto da tecnologia no emprego, abordando como até mesmo carreiras que exigem uma boa dose de formação acadêmica também já começam a ser significativamente ameaçadas pela automação, em função dos avanços em técnicas de inteligência artificial, análise de dados e processamento. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial  

 

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