O novo Steve Jobs?

Andy Rubin desenvolveu o sistema Android, hoje presente em 82% dos smartphones

Pedro Doria*, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2017 | 05h00

Aos 54 anos, Andy Rubin quer ser o próximo Steve Jobs. Seu nome não é familiar para o grande público e, por isso mesmo, talvez a ambição pareça despropositada. Mas, depois de Jobs, nenhuma pessoa teve mais impacto sobre a revolução dos smartphones do que Rubin. Foi ele quem desenvolveu o sistema Android, presente em 82% dos celulares inteligentes do mundo, segundo a Gartner. O engenheiro deixou a Google faz quase três anos. E seu próximo negócio pretende assumir o posto da Apple no desenvolvimento de apetrechos digitais de ponta.

A empresa se chama Essential. Seu primeiro aparelho é um celular chamado Phone. Só isso. Feito de titânio e cerâmica, é minimalista. Titânio é um metal de difícil manipulação e, por isso mesmo, para produção em massa, Apple, Samsung e Motorola costumam usar alumínio. A vantagem do celular da Essential é que, ao cair, não só resiste ao impacto como não arranha. A desvantagem é que não pode ser produzido às dezenas de milhões. A tela ocupa quase toda a frente. É elegante, embora simples. Roda uma versão pura do Android, sem nenhum app instalado previamente.

Não poder ser fabricado em grandes quantidades faz parte do princípio do Phone em particular, dos aparelhos da Essential em geral. É uma máquina que não tem sequer logomarca impressa. É feito para ser elegante, fácil de usar, exclusivo. Em entrevista à revista Wired, Rubin falou um bocado disso. Há uns 10 ou 15 anos, as máquinas que usávamos diziam algo a nosso respeito. Havia o tipo que usava BlackBerry e o que usava Apple. Havia quem só comprasse um aparelho de som Sony. Em cada escolha, uma mensagem. O tipo criativo, o executivo, o de ouvido apurado. Marketing, claro, puro branding. Mas não só: ao redor destas máquinas, comunidades se criavam, pessoas com interesses similares se reconheciam.

Isto se perdeu quando a tecnologia foi para as massas. Tudo se uniformizou. Andamos num mundo no qual todos os celulares parecem vir das mesmas três marcas, frequentamos a mesma meia dúzia de sites. O digital se tornou mais eficiente, mais fácil e também se pasteurizou. Não há mais caráter: do adolescente à tia-avó, todo mundo tem a mesma ferramenta e, quase sempre, usa os mesmos apps.

Estética. É neste sentido que Rubin quer ser o novo Steve Jobs. Não para transformar a empresa que está lançando numa multinacional bilionária, mas, ora, para fazer algo como a Apple dos anos 1980 ou a da virada do século. Não é todo mundo que tem aquele aparelho – mas quem tem reconhece nele um valor estético. Aprecia uma coisa assim tão bem-feita e elegantemente simples. E, com um preço de US$ 699, é um celular particularmente caro até para os EUA. Vem com um único acessório: a menor câmera digital 360° que há no mercado.

Ainda este ano, sairá a Home. É o segundo produto: uma pequena torre, misto de caixa de som e assistente digital como o Amazon Alexa ou o Google Home. Ele roda um novo sistema operacional chamado Ambient OS. A ideia é criar um Android para a casa: um sistema aberto que qualquer outra empresa pode adotar. Fala todas as línguas da internet das coisas: a da Apple, do Google, da Amazon e, portanto, pode ligar e desligar lâmpadas, TVs, aparelhos de ar-condicionado e tudo o mais que for inteligente.

Há uma lógica aí. O smartphone é a ponta da vida digital que todos já conhecemos e, por isso, a porta de entrada para a computação do futuro próximo. Aquela que integra a casa. É nesta próxima revolução digital que a Essential faz sua aposta. Uma aposta arrojada, por certo. Mas Andy Rubin tem o currículo para poder bancá-la.

 

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