Pode (des)confiar

Nossa vida tecnológica depende da confiança que temos na identidade dos provedores de serviços que acessamos - até o surgimento da tecnologia blockchain

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 05h03

Quando pensamos em locais para armazenarmos informações, normalmente pensamos em um lugar único, centralizado e de acesso restrito. Imagine, por exemplo, os dados de seu extrato bancário: eles estão guardados nos sistemas de seu banco, e são acessíveis mediante credenciais como senhas e/ou biometria. O próprio conhecimento acumulado pela Humanidade estava, até poucas décadas atrás, concentrado em algumas grandes bibliotecas - uma tradição iniciada na Antiguidade e representada pela Biblioteca de Alexandria, cuja construção começou no século III A.C. sob o comando de Ptolomeu I, sucessor de Alexandre, o Grande.

O maior risco da manutenção de um sistema centralizado é justamente o fato de que há apenas um ponto focal a ser atacado em uma invasão. No caso de bancos e operadoras de cartões de crédito, os servidores que armazenam os dados dos clientes e suas transações. A própria origem da Internet está ligada à necessidade de descentralização da comunicação entre bases militares, evitando assim que um ataque inimigo a apenas um ponto central derrubasse toda estrutura.

Outra característica de sistemas centralizados é a necessidade de uma figura detentora do "poder" sobre todas as informações - uma instituição ou um governo, por exemplo. Os usuários precisam ter uma relação de confiança com o fornecedor dos dados - em outras palavras, quando buscamos uma informação no site do banco com o qual trabalhamos, temos que acreditar que os dados que lá estão representam de forma correta nosso extrato e, mais ainda, que realmente estamos nos comunicando com a mesma instituição com a qual lidamos no mundo real. Para isso, foram criadas as entidades certificadoras, que atestam que determinado site de fato representa quem ele alega representar. Neste modelo, é necessário que seja estabelecida outra relação de confiança, desta vez com a certificadora que valida o site que você está acessando - seu dispositivo precisa acreditar que o certificado associado aquele site é legítimo e reflete corretamente que você está negociando com quem acha que está negociando.  

A tecnologia de blockchain, ao contrário, é baseada em conceitos diametralmente opostos daqueles utilizados em bancos de dados "tradicionais" e não exige que seja estabelecida uma relação de confiança com nenhuma entidade central. Para começar, o armazenamento das informações é realizado de forma descentralizada e distribuída, com cópias dos dados em dezenas, centenas ou até milhares de computadores. Em função disso, não existe uma figura central que é "dona" das informações - e, por conseguinte, não há necessidade de certificação ou comprovação da identidade do provedor dos dados. Além disso, quando uma informação é acrescentada, toda comunidade certifica-se que a informação é válida e todas as cópias do blockchain em questão - em todos os computadores da rede - são atualizadas.

O uso mais conhecido do blockchain, por enquanto, são as criptomoedas, como o bitcoin e o ethereum. Mas há um número muito grande de aplicações desta infraestrutura que já começam a despontar. No final de 2016 a Deloitte realizou uma pesquisa com 308 executivos de empresas norte-americanas de diversos setores, todas com faturamento superior a US$ 500 milhões por ano. As respostas indicam a rápida adoção da tecnologia: 21% dos entrevistados informaram que já possuíam sistemas baseados em blockchain e 25% pretendiam implementá-los ao longo deste ano. O setor de saúde apresentou 35% dos executivos indicando planos de colocar em produção sistemas baseados em blockchain ao longo de 2017 e os três setores sinalizando os maiores investimentos foram respectivamente a indústria de bens de consumo, seguido por tecnologia, mídia e telecomunicações e finalmente serviços financeiros. 

Os motivos para este entusiasmo, os riscos regulatórios e alguns exemplos dos tipos de aplicações baseadas em blockchain que nos aguardam são os temas para próxima coluna. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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