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Drew Kelly/The New York Times

Quando o mundo dos negócios chega à produção de vinhos

Para quem quer colocar seu nome nas garrafas, há muitas maneiras de fazê-lo e o prestígio aumenta com o nível de dedicação

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Ted Loos,
The New York Times

23 Fevereiro 2016 | 12h13

Há um velho ditado que diz que se você quiser ganhar um dinheirinho com vinhos, tem que começar investindo um dinheirão.

Muitos milionários descobriram essa verdade da maneira mais difícil: comprando uma vinícola com a ideia de se tornar um produtor diferenciado, supervisionar um negócio pitoresco e de prestígio, com a vantagem adicional de morar no topo de uma colina coberta de vinhedos.

A realidade muitas vezes interfere. O investimento de capital em longo prazo e os grandes custos fixos e as receitas demoradas - há pelo menos seis anos entre o plantio das videiras e o bom vinho pronto para a venda - afastaram o sonhador do negócio ou transformaram a empresa em um passatempo bacana, mas que perde dinheiro.

Porém hoje, as regiões de Napa e Sonoma, na Califórnia, ainda epicentro do vinho dos Estados Unidos, estão cada vez mais povoadas por um tipo diferente de obstinado: aqueles que ganharam muito dinheiro com a primeira carreira e que não têm intenção nenhuma de tratar a segunda de modo diferente.

Na verdade, ficam fascinados com os inúmeros desafios de fazer o negócio do vinho dar certo - e veem o fracasso no lucro como uma afronta pessoal ao ego que desenvolveram em bancos de investimento, tecnologia e outras primeiras carreiras típicas.

Como diz Richard H. Frank, ex-presidente da Walt Disney Studios e proprietário da Frank Family Vineyards em Calistoga, Califórnia: "As pessoas que ganham dinheiro aqui se dão bem porque aplicam os mesmos princípios que utilizaram para ganhá-lo no início".

Para quem quer colocar seu nome nas garrafas, há muitas maneiras de fazê-lo e o prestígio aumenta com o nível de dedicação.

Para os iniciantes, existe o clube Napa Valley Reserve (apenas para convidados), cujos 500 membros podem participar na criação de um vinho com edição limitada todos os anos, sob a supervisão da equipe por trás da cultuada Harlan Estate. Ou podem só aparecer para desfrutar da produção - após um depósito reembolsável de US$155 mil a US$175 mil, juntamente com os encargos e o custo da alocação do vinho.

Depois, há a rota "custom crush": aspirantes a Mondavi conseguem as uvas (através de compra ou cultivo) e alugam uma adega e uma equipe para fazer o vinho, evitando assim o custo fixo de uma grande instalação. Um consultor - caro - pode ajudar.

Por fim, existem os tipos que preferem o kit completo, como Charles J. McMinn, capitalista de risco que fundou e vendeu a Covad Communications antes do estouro da bolha de tecnologia. Ele começou sua vida de produtor de vinho da maneira típica.

"Não sabia que iria entrar no negócio do vinho até duas semanas antes de comprar essa propriedade. Estava só procurando uma casa de veraneio", disse McMinn, dono da Vineyard 29 em Santa Helena, Califórnia.

Isso foi no ano 2000. Hoje, a Vineyard 29 produz dez mil caixas por ano de nove variedades, a maioria feita nos vinhedos do Napa de propriedade de McMinn. Seu cabernet sauvignon Vineyard 29 Estate 2013 ganhou os cobiçados 100 pontos do crítico Robert Parker.

Apesar de cair de paraquedas na vinificação, McMinn disse que encarou a Vineyard 29 como uma startup, algo com que tinha muita experiência, embora em uma área bem diferente.

"Desde o primeiro dia, vi isso tudo como um negócio. Logo percebi que não dava para construir uma vinícola lucrativa com 500 caixas, porque os custos fixos acabariam com ela. Você tem que ter um enólogo, um mestre de adega, um sistema de distribuição. Só esses salários já excediam as receitas."

Especialistas do setor dizem que houve uma mudança que provavelmente se iniciou com o cenário altamente competitivo, após 2001.

"Percebemos que a maioria das pessoas que começam está muito bem informada sobre os aspectos do negócio. É raro que sejam apenas amantes do vinho. Basicamente, isso é coisa do passado", disse Robert Nicholson da International Wine Associates, empresa de consultoria de aquisições e fusões de vinícolas.

Ele acrescentou que os ricos são atraídos para o negócio do vinho pelo negócio em si. "O mercado do vinho nos Estados Unidos é incrivelmente forte. Isso trouxe os não aficionados para a indústria. O lance é financeiro mesmo", disse Nicholson.

Bill Price, especialista de capital privado que foi sócio-fundador da TPG Capital, começou com entusiasmo. Ele possui propriedades de qualidade em Sonoma, como a Durell Vineyard, e fundou vinícolas como Head High, Lutum e Three Sticks. É também o principal investidor de duas outras propriedades bem estabelecidas, a Gary Farrell Vineyards e a KistlerVineyards. Price descobriu o negócio do vinho quando a TPG comprou a Beringer Vineyards, no vale do Napa.

"Descobri o lado dos negócios. Falei: 'Aha, dá para fazer isso e ainda ganhar um monte de dinheiro'."

O enorme crescimento da indústria do vinho significa mais concorrência, disse Price, mas certos avanços tecnológicos mudaram o jogo a favor de recém-chegados bem informados. A logística do transporte pode ser terceirizada, assim como os ajustes às leis e o design do site.

"Oitenta por cento do trabalho é feito por outras pessoas, mas, mesmo assim, você tem que construir a marca, que é a parte mais difícil."

Price acrescentou que o tempo é o ingrediente essencial: "O sucesso está ligado à idade. Quando você investe em ativos tangíveis, leve cerca de 10 anos para chegar à lucratividade".

Ele disse que essa regra provou ser verdadeira em suas próprias propriedades. "As novas marcas Lutum, Three Sticks e Head High ainda estão treinando para a glória", acrescentou Price com uma risada.

Frank, o ex-executivo da Disney, comparou sua trajetória à de outros no Napa.

"Posso ter começado de um modo modesto, mas acabei chegando ao nível Chuck McMinn", disse ele sobre seu grau de investimento, que aumentou ao longo do tempo.

Frank comprou uma propriedade no distrito de Rutherford, no Napa, em 1990, que veio com um vinhedo, e por um tempo ficou feliz só em mantê-lo e vender as uvas. Disse que esse era um plano seguro em termos de negócios.

Então, com um sócio, comprou uma vinícola já montada e a transformou na Frank Family Vineyards. Ela produz 75 mil caixas por ano.

Frank a considera "muito rentável", principalmente por causa de seus vinhos mais sofisticados, mas observou que o crescimento lento foi essencial.

"Esse não é um negócio de perdas e lucros, mas de fluxo de caixa", disse ele, porque exige reinvestimento constante.

A distribuição de vinho é algo complicado, caro e diferente em vários estados, por isso, o outro conselho de Frank às vinícolas iniciantes é que elas precisam ser capazes de vender para as pessoas no local.

"Se você não tem um negócio direto ao consumidor, vai perder dinheiro", disse ele.

Apesar de estar no Napa há décadas, Frank nunca abandonou o estilo enérgico da Disney.

Há quatro anos, em sua lua-de-mel na Itália, passou parte do tempo ao telefone, negociando a compra de um vinhedo de qualidade, com mais de 32 hectares, no distrito de Rutherford.

Frank disse que essa é simplesmente a realidade de quem leva o negócio a sério: "É preciso aproveitar as oportunidades quando elas aparecem".

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