Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

‘Quero estimular as pessoas a votarem bem’, diz Abilio Diniz

Empresário, que tem 1 milhão de seguidores, espera usar redes sociais para convencer brasileiros a renovar o Congresso

Entrevista com

Abilio Diniz, acionista da BRF, do Carrefour e dono da empresa de investimentos Península

Mônica Scaramuzzo e Renata Agostini, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

Prestes a completar 81 anos, o empresário Abilio Diniz diz que não pretende parar de trabalhar, e traça planos. À frente de importantes negócios por meio da Península, empresa de investimentos de sua família, afirma que seguirá influenciando via conselho nos rumos do Carrefour, onde é o terceiro maior acionista, e da BRF. Abilio afirma que não quer se envolver diretamente em política, mas pretende usar as redes sociais para estimular o voto consciente em deputados. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Estado: O sr. conseguiu impor o nome do executivo José Aurélio Drummond Jr. para a presidência da BRF, que não era unanimidade entre os outros acionistas. Como foi essa negociação?

Abilio Diniz: Foi muito mais tranquila do que pareceu para vocês. Estou na BRF desde 2013. Os dois primeiros anos e meio foram incríveis, fizemos uma grande transformação e começamos o processo para internacionalizar a BRF. Em 2016, tivemos o ciclo totalmente desfavorável e isso afetou a empresa. É evidente que, numa situação como essa, você tem dos acionistas e dos investidores opiniões divergentes, uma certa pressão para que os resultados voltem. Mas isso está completamente ultrapassado. Drummond foi eleito, está lá. Estamos todos com o mesmo propósito, de fazer o melhor para a companhia.

Por que o sr. acredita que houve oposição de parte do conselho, notadamente dos fundos?

Não houve uma oposição. Houve sim questionamento fruto do momento que a companhia está vivendo. Mas não houve nenhum radicalismo, nenhuma pressão. Drummond está apoiado por todos de uma maneira muito forte.

Mas houve votos contra.

Ele foi eleito por maioria. Ponto. Isso é perfeitamente normal. (O empresário não quis dar detalhes sobre a votação e se teve de dar o voto de “minerva” para desempatar, uma vez que é presidente do conselho).

Suficiente para pacificar os ânimos?

Não tenho dúvida de que temos todas as condições e já estamos em outro momento. A companhia está em outro clima. Trocamos praticamente as peças mais importantes da cúpula da BRF. A empresa estava perdendo participação de mercado e já invertemos essa curva. Com a vinda do Alexandre Almeida, já invertemos essa curva e estamos num momento muito melhor. O Alessandro Bonorino, vice-presidente de Recursos Humanos, tem experiência na área e é de fora. Estamos construindo o time dos sonhos, aquilo que a BRF precisa. E temos ainda duas posições para que o CEO escolha: um vice-presidente de marketing e um vice-presidente de integração, que tem debaixo de si o jurídico, enfim todas as questões ligadas à integridade.

Qual será a estratégia da BRF para os próximos trimestres? Entre elas, está o lançamento de uma nova marca.

Tem sim uma nova marca, mas vamos divulgar no momento certo. Existe um espaço no mercado que Sadia e Perdigão não ocupam. Essa nova marca está sendo construída para esses espaços vazios onde não estamos. Para combater outros concorrentes que hoje não combatemos. Realmente é uma coisa que veio para somar. Não sabemos ainda quantificar quanto ela vai representar da BRF total. Mas ela vem para preencher espaços vazios e não para disputar com as marcas que já temos.

A BRF sofreu com a perda de muitos executivos. Por que isso aconteceu?

Temos de olhar para trás para identificar os erros, aprender com eles e seguir em frente. Eu olho para a frente. Tivemos um ciclo muito ruim que afetou toda a indústria. Cometemos erros internos também. Tudo isso faz parte do passado. Estamos num outro momento, com novo presidente e executivos.  Já tivemos um terceiro trimestre bastante bom, já sinalizando uma recuperação – de participação de mercado, com lucro líquido. Não é ainda suficiente para apresentarmos um ano bom no conjunto. Tivemos um primeiro semestre muito ruim. Já vínhamos em recuperação quando tivemos problemas. Tivemos o episódio da Carne Fraca (operação que apura propina de pagamento aos funcionários do Ministério da Agricultura), no qual nos saímos muito bem, mas nos afetou muito. Afetou mercados internacionais, nos levou a novas renegociações com os nossos compradores lá fora, muita dificuldade, embarques que não puderam ser realizados, estoque parado. O importante é o clima da companhia. Teremos um ano de 2018 bom. Será tudo que nós queremos buscar? Não. Mas estamos já construindo, subindo a ladeira, levando as coisas para frente com um clima realmente muito bom.

O projeto de abertura de capital da OneFoods está descartado?

Não está descartado. Estamos repensando o que devemos fazer com OneFoods. É um momento novo, uma condição nova, um presidente novo. As condições de mercado são diferentes. A OneFoods está no Oriente Médio, uma zona que não se pode dizer que é da maior tranquilidade possível. Estamos ganhando participação. Nós já temos um parceiro na Banvit, que é o Qatar (sociedade com o fundo soberano  Qatar Investments Authority, o QIA). No planejamento estratégico da BRF, que fizemos no mês de outubro, decidimos deixar OneFoods com uns meses mais (em stand-by) para sabermos e decidirmos o que iremos fazer. O IPO é uma consequência do que se pretende fazer. Estamos em dúvida o quanto que nós queremos uma companhia completamente autônoma da do Brasil lá no Oriente Médio.

O sr. recebeu o convite da Tarpon e da Previ para chefiar o conselho de administração da BRF. Como é seu relacionamento hoje com Previ e Petros?

O interesse é comum. Temos de fazer o melhor para a companhia. Quanto a isso ninguém tem dúvida. O resto é o resto.

E com a Tarpon?

Muito bem. Ela continua lá firme. Não existe mais uma influência tão grande da Tarpon neste momento. Junto com (a chegada ) de Pedro (Faria), entrou muita gente ligada à Tarpon. Tiveram bons momentos, foi importante. Neste momento, com a saída do Pedro, praticamente não temos mais ninguém da Tarpon. Embora o Zeca continue (José Carlos Reis de Magalhães Neto, conhecido como Zeca) no conselho de maneira muito firme, porque é uma pessoa que conhece profundamente desde o início desse milênio a BRF. Ele vai continuar nos ajudando, participando dos comitês, e ajudando da BRF a crescer.

É o fim do que o mercado batizou de “Tarponização” da BRF?

Não quero falar em “Tarponização”. Esses chavões do mercado aqui não existem. Não tem fim, nem começo, nem nada. Não vou comentar exageros do mercado. O que tem hoje, com a saída do Pedro, é uma influência menor da parte do que já existiu em outros momentos. A Tarpon está muito tranquila com isso. Zeca está nos apoiando o tempo inteiro.

Qual influência que o sr. terá nos planos de crescimento do Carrefour lá fora e no Brasil?

O Abilio não é mais um operador. O Abilio funciona através dos conselhos tanto aqui quanto no global. A Península tem duas posições no Carrefour global: sou eu e Flávia Almeida (da Península). Como temos também duas (posições) na BRF. Isso para mim é importante. Temos capacidade de influir sim. Mas sempre iremos fazer isso por meio do conselho. Tanto em BRF, quanto Carrefour Brasil e global. Na administração anterior, era uma mais administração fechada. Alexandre Bompard é uma pessoa completamente diferente (Bompard substituiu Georges Plassat). O Noel Prioux (que está no lugar de Charles Demartis, que presidia o Carrefour Brasil) é completamente diferente. Eles consultam, abrem diálogo. Há interação. Com essa possibilidade de diálogo, eu posso aproveitar do meu conhecimento de quase 50 anos na distribuição e não apenas como gestor. É natural que a gente converse, fale e consiga ajudar.

Onde o senhor quer colocar o Carrefour?

Não sou eu apenas. Há três grandes acionistas. A Península; a família Moulin, proprietária da Galeria Lafayette, na pessoa do Philippe Houze, que é o chairman do grupo; e o Grupo Arnault, da Louis Vuitton. Os nossos interesses são exatamente os mesmos. Queremos que o Carrefour se transforme numa empresa muito mais agressiva, numa empresa que deixa de ser reativa para ser ativa. O Carrefour estava muito parado, estávamos muito atrasados com a parte toda de e-commerce. Agora sim estamos trazendo gente competente para realmente acelerar toda a parte digital. Então, como uma companhia que se renova, onde estão acontecendo coisas como essas, as expectativas são muito grandes.

Qual empresa te motiva mais hoje? BRF ou Carrefour?

As duas. A Península está num ano realmente muito bom. O IPO do Carrefour foi um grande sucesso. A Península ajudou a trocar três presidentes de empresas enormes com sucesso (duas no Carrefour e outra na BRF). Mas a Península tem três grandes blocos. Além dessas companhias, uma área de private equity, onde há empresas muito promissoras. A Anima, nossa empresa de educação, que sofreu um baque tremendo com o cancelamento do Fies, está se recuperando de maneira extraordinária e está querendo deslanchar. A Wine.com, que é nossa distribuidora de vinho e de cerveja, vai muito bem. A Benjamin (rede de padaria), que começou como uma startup, uma empresinha, com uma ideia, que já vai avançando com grandes planos: até meados de 2018 vamos ter uma nova fábrica para expandir com muita força. Então, você me pergunta, qual das duas empresas motiva mais? Acho que a que mais me motiva é Península com tudo que ela faz. Tem a parte de mercados, com hedge funds, com nosso escritório em Nova York. Não se trata de uma ou de outra. O gostoso de fazer nessa altura da vida é fazer tudo com satisfação.

O sr. traça metas?

Não só o Abilio, mas a Península (traça metas). Todos os gestores aqui têm metas. Temos um diretor exclusivamente destinado para BRF, outro para Carrefour, outro engloba Wine e Benjamin, outra para Anima. Muitos têm metas e algumas empresas passam por momentos ruins. A Anima passou por um momento muito ruim e começou a melhorar em 2017 mais firmemente. Tudo aqui se faz com metas.

E o sr. bateu as suas nos últimos anos?

Eu sempre bato as minhas metas.

Quais são as suas metas para 2018?

No mês de abril deste ano, fiz um evento em Portugal chamado Plenitude, que foi um evento voltado para viver bem e com felicidade. Nós dividimos em cinco blocos – corpo, mente, espírito, relacionamentos e propósitos. Neste evento, fomos buscar 17 pessoas no mundo realmente referência – como Ellen Langer (a mãe do mindfullness, meditação ocidental). Tudo o que existia de mais importante sobre esses temas falamos lá dois dias e meio. Convidamos um grupo de pessoas para ir e foi um sucesso. O que pensávamos ser um evento com começo, meio e fim, acabou virando uma porta de entrada. Continuamos com a equipe, interagindo com as pessoas, com outros que querem e podem trazer conhecimento. Vamos lançar em março no Brasil uma plataforma internacional colocando os nossos conhecimentos sobre o assunto para que todos possam ter conhecimento e vivam melhor, com mais alegria e mais felicidade. É o meu comprometimento meu com o País e pessoas.

As eleições irão atrapalhar o processo de retomada do crescimento do Brasil?

As eleições estão aí e é o que nós temos. Todo mundo sabe que eu sou otimista em relação a Brasil. Estava preocupado até o início de 2016. Neste momento, estou muito otimista e muito esperançoso. A conscientização dos brasileiros de que precisamos de reforma é muito grande. Todos nós sabemos que precisamos fazer a reforma da Previdência. Fazer as reformas no Brasil, seja pelo Temer (presidente Michel Temer) ou pelo próximo presidente, elas têm de ser feitas. Espero que seja feita pelo Temer agora.

Como o sr. vê o movimento dos empresários se articulando para influenciar as eleições?

Quero usar a minha voz, meu poder de convencimento, para estimular as pessoas para votarem bem, não para presidente da República, mas para deputado. Para renovar o Congresso. Somos muito ativos nas redes sociais. Alcancei 1 milhão de seguidores no Facebook. Quero fazer uma campanha para estimular as pessoas a conhecerem bem o seu deputado antes de votar.

O sr. tem alguma ambição política?

Nenhuma. Zero. Empresário não pode ser político. Empresário tem que gerar riquezas e emprego. Paralelamente pensar no país. Através da mídia, redes sociais, pensar em votar consciente para o congresso.

Não pretende se posicionar?

Nunca declarei meu voto. A gente acaba criando momentos ruins, dizer votei nesse ou naquele. Tem de estimular a população a votar bem.

E no caso do seu genro (o cientista político Luiz Felipe d’Avila, pré-candidato do PSDB ao governo de São Paulo). O sr. não vai apoiar a candidatura dele?

Primeiro, nem sei se ele vai ser candidato. O Felipe é um cara de princípios e conhece bem política e pensa no social. Se ele for candidato, vai ser um excelente candidato. Mas eu não estou nessa. Eu to aqui de longe tocando a minha.

Pensa em parar?

Parar de fazer o quê? Minha mulher não vai aguentar, meus filhos não vão aguentar. Nem eu vou me aguentar. O Abilio é um pacote, não é um pedacinho. Esse lado empresário faz parte da minha vida. É preciso dar equilíbrio. Dou atenção ao meu trabalho, minha família, meus esportes... Se eu parar...

O governo Temer é elogiado pela pauta econômica, mas criticado pelo aspecto ético. É o caso de se separar as duas coisas?

O combate à corrupção tem de ser mundial. Isso tem de continuar. Tem de separar as agendas. Isso não pode prejudicar a agenda econômica. Incrível que não prejudicou. Toda a questão da delação dos Batistas. Os investidores lá fora separam bem. Estão preocupados se a gente aprova as reformas. Tem de continuar (combate à corrupção), mas isso é coisa para Sérgio Moro, Raquel dodge. Mas (Henrique) Meirelles tem de seguir fazendo o que está fazendo.

Ele é um nome para 2018?

Ele está fazendo um bom trabalho. Espero que continue fazendo. Se vai ser candidatado, não é da minha agenda.

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